quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Cotidiano



A gente combinou no início que não ia deixar o relacionamento entrar na rotina. Eu concordei, morrendo de medo. Não sou de fazer grandes gestos, preparar viagens surpresas, presentes mirabolantes. Mas a gente descobriu que o melhor jeito de não cair no peso da rotina era manter tudo simples. Porque foi assim que começou.

Num boteco com Original barata, cadeira de plástico na calçada, porção de pastel de queijo e moela. Ele num lado da grande mesa de colegas e amigos em comum, eu, no outro, de macacão e tênis, sem qualquer pretensão. A gente se olhou. E se reconheceu no afeto, na energia.

Os presentes de Natal e aniversário de namoro foram dados em janeiro do ano seguinte simplesmente porque a gente não tinha cabeça pra isso. O suporte emocional que um deu ao outro num momento de reviravoltas da vida foi muito mais importante e significativo. Foi o melhor presente que eu já ganhei.

Nossos melhores encontros e conversas ocorrem na varanda, com cerveja que a gente comprou no mercado e linguiça assada no grill. Às vezes venta e eu sinto frio. E eu coloco meia. E ele finge que fica bravo, mas fica realmente ultrajado. Ele finge que vai tirar a meia do meu pé, eu finjo que acredito. A gente ri. Ele coloca os meus pés por cima da perna dele, meio olhando de lado pras meias, ainda. A gente olha pro horizonte e suspira. É simples assim.

Ele sai de casaco só pra que eu não passe frio no fim da noite. Ele já levou uma manta pra eu não passar frio no cinema. Ele respeita as minhas esquisitices de escolher um lugar específico pra sentar, o copo que eu vou usar, mesmo que ele seja igual aos outros do conjunto. A gente brinda olhando no olho, sempre. Isso é fantástico. E é um sopro de vida. E não custa nada. É simples pra caralho. Não é fácil, é simples.

Ele respeita o meu lado da cama, não importa a cama que a gente está. Mas às vezes ele pede e eu deixo ele dormir do meu lado. Eu não faço ideia do porquê isso é importante, mas me faz dormir com um sorrisinho no rosto.

A gente ouve Bethânia e também Zeca. Um dia eu chorei com Milton. E uma vez ele chorou com Pantera Negra. Ele ri quando eu me arrepio com a oração de São Jorge. Eu, a menina de Oyá. Ele, o caçador de Oxóssi. Ou talvez a corredeira de Oxum.

Ele é o maníaco da louça. E eu, sinceramente, já vi copo criar fungo na minha pia, de tanto tempo que eu ignorei a existência dele. Ele acorda cedo pra correr no parque e nadar. E eu? Nem vejo ele saindo até a hora que volta. Eu não consigo acompanhar a velocidade em que ele entra em sono profundo nem tomando remédio. Não faço ideia de como essa combinação dá certo. Mas é tão certo, sabe?

A gente se esforça pra fazer o outro feliz. Quando um cai, o outro ajuda a levantar. Quando um tá com frio, o outro ajuda a esquentar. Quando estão os dois bêbados, trocando os pés pelas ruas, a gente se equilibra. Um apoia no outro, mutualmente. Questão de física. E muita química. Às vezes matemática. Mas também muita concordância. E história. Também literatura. Não é fácil. Mas é simples.

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