terça-feira, 25 de dezembro de 2018

# baseado em sentimentos reais # featured

Amiga, nem te conto



Quando a minha psicóloga me deu alta, houve muitos sentimentos confusos da minha parte. Primeiramente, eu nem imaginava que existisse o evento “Oi, você está de alta da terapia”. E, como assim, eu consegui chegar lá? Eu nem tava me preparando pra isso! Bom, o fato é que aconteceu. Como ela mesma salientou, não era uma questão de “cura”, mas que ela achava que eu estava preparada para lidar com as situações da vida sem ela. Eu também achei que eu estava. O problema era lidar com a vida rolando e aquele pensamento “Nossa, queria muito contar isso pra minha psicóloga” ou “HAHAHA ela ia adorar saber o desfecho dessa história que eu comecei a contar pra ela” ou até “caceta, ela tinha razão!”

Ela disse que eu poderia mandar mensagem sempre que eu precisasse. Mas, convenhamos. Eu não ia fazer isso com ela. Porque ela não ia ser paga e porque eu realmente precisava seguir a vida sem o sentimento de proteção contra o mundo que a terapia trazia. Foi como terminar um relacionamento e ver todas aquelas situações que lembram o casal de algo e não poder mandar mensagem pra outra parte. Assim, eu comecei a colocar no papel pensamentos que eu gostaria de ter compartilhado com ela. Se você quiser tornar esse relato mais próximo do que eu estava pensando, pode começar todas as frases com “amiga, nem te conto”. Não era assim que a gente conversava, mas é assim que a minha cabeça funciona.

Eu entendi a minha doença. Abracei, respirei fundo. Deixei ela falar. Foi horrível. Depois foi como um afago na alma. Eu conheci o monstrinho que habita em mim. Já que ele não vai embora, que pelo menos eu saiba lidar com ele.

Mudei todas as situações as quais eu me julgava eternamente presa. Eu lembro quando você me questionava “por que não mudar isso?” e eu sempre dizia que era impossível. Você dizia que eu enxergava tudo cinza e eu só dizia que eu enxergava a realidade. E que a realidade é cinza e vida que segue. Um dia, as nuvens se dissiparam e eu finalmente vi a possibilidade de outras cores. E pensei “aaahh era disso que ela tava falando”. E mudei. De cabelo, de casa, de carro, de relacionamento. Mudei do eu que já não me comportava mais. Eu agora preciso de espaço, preciso das cores. Não mudei muito as roupas, mas mudei as atitudes. Mudei a compreensão do papel do outro na minha vida. Aceitei que às vezes uma pessoa que te traz conflitos resolveria muito a sua vida e a dela se fizesse terapia também. Mas a gente não manda no outro, né. Fiz a minha parte.

Alice cresceu tanto nesse tempo que eu pouco me lembro da época que ela era dependente de mim pra tudo. Na ceia de Natal ela apareceu toda maquiada. E não foi uma sombra verde, com um batom vermelho borrado e um blush vermelho bem marcado nas bochechas. Ela passou um pó do tom de pele dela. Passou um batom que ela gosta, sem borrar. Acho que até rímel teve. Em outros momentos eu teria brigado. Mas eu percebi que aquela foi a forma dela de mostrar que ela estava crescendo. Ela quer usar roupas parecidas com as minhas. Tem vontade própria. Tem raciocínios sagazes que não foi eu quem ensinou. Mas, ao mesmo tempo, ainda acredita em Papai Noel. É uma tradição dos meus pais com as netas. Deixa eles.

Eu poderia continuar esse relato, mas a verdade é que eu sucumbi. Banquei a ex que aparece do nada mandando “oi, sumida”. O resultado? Voltamos em janeiro. Deu até um tempo pra ela tirar férias antes de mim. Queria começar a sessão como começam as temporadas das séries que eu assisto, com um “Previously on Não Era Amor, Era Cilada”, pra ela relembrar o que tinha acontecido na temporada passada e ver que não é reprise, são episódios novinhos.

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