sábado, 18 de agosto de 2018

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Arthur

Era um dia em que eu estava me sentindo meio maternal. Talvez por culpa dos hormônios. Aliás, é claro que foram os hormônios. Só eles seriam capazes de me fazer querer levar quatro crianças ao cinema, sozinha.

Eu tentei ser racional. Levar só uma. Levar metade do grupo. Só os meninos. Só as meninas. Eu deveria ter considerado levar só o Arthur, ou só as outras crianças. Porque o Arthur demanda muita atenção de um ser humano. Pois eu levei todas porque era isso que meu coração cheio de amor para dar estava exigindo.

No shopping, eu era mais uma entre as crianças. Pedi um Mc Lanche Feliz, apontei para vitrines, fingi ter desejos impossíveis, como uma camiseta do Wolverine que alguém teria que me dar de aniversário ou de Natal. O problema de se comportar como uma criança é que você acaba tomando decisões precipitadas, como comprar quatro pacotes de pipoca que eu não tinha quaisquer condições de carregar sozinha.

Enquanto eu fazia esse malabarismo, recebi olhares interessantes dos moços na fila. Deixei pra lá, pois eu estava ali como guardiã de quatro seres vivos. Minutos depois eu percebi que não eram olhares de flerte e sim de deboche, já que eu estava com um adesivo colado na testa. Pestinhas!

Acomodei a garotada nas cadeiras com os sacos de pipoca e as bebidas. Tive que descobrir, no escuro, qual sabor pertencia a cada criança. Eu não sei o porquê, mas, suco de uva, suco de laranja, Coca e Guaraná sem gás, no escuro, tem o mesmo gosto. Eu não sei como acabei sobrando com duas Cocas.

Me faltou um pouco de malícia porque obviamente os pentelhos e pentelhas começaram a querer ir ao banheiro. Levei uma, levei duas. Levei o Arthur três vezes.



O que eu não contei sobre o Arthur é que ele tinha quatro anos, não sabia se limpar sozinho e tem uma tradição de fazer cocô em banheiros que ele visita pela primeira vez. Eu só lembrei desse detalhe quando ele demorou a sair do banheiro masculino.

- Arthur, tá tudo bem, cara? - perguntei, do lado de fora do banheiro
- Tá tudo bem, tia Ericka, eu vou fazer cocô.
- Não, Arthur! Não faz cocô aí, cara! Eu não posso entrar!
- Tia Ericka, eu já tô fazendo.

Dois homens saíram de dentro do banheiro do cinema rindo, por causa de um garoto que estava fazendo cocô de porta aberta. 

- Tia Erickaaa, eu termineeeei!

Não teve jeito, eu ia ter que entrar no banheiro masculino. Dei uma olhadela sem maldade lá pra dentro e contei seis homens. Esperei cada um deles sair, enquanto gritava pro Arthur ficar calmo que eu já tava chegando. Para o último homem que saiu, eu dei uma missão: ficar na porta do banheiro e impedir a entrada de outros caras enquanto eu estivesse lá. 

Encontrei Arthur na última cabine, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto nas mãos, como quem caga e depois fica pensando na vida. Chegou a hora do trabalho sujo. Confesso que ser mãe faz você subir os seus parâmetros de nojo. Eu tava mais incomodada com o garoto sentado no vaso do que com a limpeza do cocô, em si. Enquanto isso, começou um burburinho lá fora.

- Calma, galera, tô acabando! - gritei para a multidão impaciente do lado de fora. Só depois fui perceber que, dizendo essa frase, parecia que era eu quem estava cagando.

Sem ter muito o que fazer, além de lavar as minhas mãos e as do Arthur, terminei o meu serviço e fui até a porta me explicar pela bagunça. Mas não tinha muito o que dizer. Estava estampado na testa de todos os homens da fila que eles se perguntavam por que diabos uma mulher estava cagando no banheiro masculino. Depois de ser a mulher doida que anda com um adesivo no meio da testa, eu agora era a mulher que caga no banheiro dos homens. 

Voltamos para a sala de cinema. Eu havia perdido metade do filme. Aliás, não só a metade, como, de acordo com a minha filha, "a melhor parte". A criança mais velha ficou com pena de mim e disse que queria que o filme acabasse logo só pra eu não precisar levar mais ninguém ao banheiro. Mas adulto tem isso de ser meio besta às vezes. Perdi o filme mas fiquei satisfeita em ver a gurizada toda feliz, fingindo que eram os personagens dos filmes, ensaiando lutas, escolhendo os preferidos. Quando contei que aquele filme era baseado numa série que eu assistia quando criança, recebi olhares espantados:

- Mas tão velho assim?

Não tem hormônio que resista. Acabou o amor. Cadê os pais dessas crianças?

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