terça-feira, 8 de maio de 2018

# amizade

Pensar no outro



Eu segurei até onde pude. Não queria ser a pessoa que começa qualquer coisa com "a minha psicóloga disse...", mas não vai ter jeito. Como jornalista, eu não posso tomar a frase dela pra mim. Eu nunca teria pensado nisso sozinha.

A minha psicóloga disse, uma vez, que se preocupar com alguém é abrir mão de um pouquinho de você. Nós estávamos falando sobre expectativas, e ela me dizia que, para pensar no outro, as pessoas precisavam deixar de pensar em si por alguns instantes. E que nem sempre as pessoas estavam dispostas a isso.

*
Um dia, uma amiga apareceu lá casa no meio de uma crise de ansiedade minha. Eu estava sentada no chão, controlando o choro, de pé quebrado, envolta por uma zona de uma bagunça indescritível. Nós havíamos marcado uma limpeza de pele no salão da rua de cima. Bem dondocas mesmo. Vendo aquela cena de uma casa que parecia ter sido revirada por alguém, ela respirou, olhou a extensão do estrago e pediu pra cancelar a limpeza de pele. Trocou um dia de madame por um dia de faxina.

Enquanto isso, eu continuava sentada no chão, parecendo uma acumuladora em surto como as que a gente vê naqueles programas. Chorava quando ela mexia onde eu não deixava, ordenava que não jogasse coisas fora, que não entrasse nos cômodos. Ela entrou. E limpou. E onde não deu conta, chamou o irmão pra ajudar. Doeu como poucas coisas na vida e ainda dói só de lembrar. E aposto que doeu neles também.

As pessoas precisam deixar de pensar em si para pensar nos outros. Essa frase fica martelando em minha cabeça toda vez que eu relembro esse dia. Ela abriu mão de um sábado inteiro por mim. O irmão dela, que nada tinha a ver com a história, se moveu de onde estava para me ajudar também. Um dia em que duas pessoas abriram mão delas só para pensar em mim e eu não sei nem se um dia vou conseguir retribuir.

Por quem você abriria mão de pensar em você por uns momentos?

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