quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Terrible 7



Existe uma idade das crianças que é rodeada de mistérios e desesperos por parte dos pais. Os "terrible 2", a crise dos dois anos, é conhecida e esperada por pais do mundo inteiro. Os bebês passam por uma fase rebelde, passam a se enxergar como um ser humano cheio de direitos e vontades. É o terror de cada pai, mãe, avós, tia da creche. Eu não me lembro de ter me preocupado com essa idade, quando a Alice era bebê. Eu estava me preparando para a fase em que eu achava que as crianças eram mais chatas: os 7 anos.

Eu defini essa margem muito antes de ter a Alice. Me sinto uma pessoa privilegiada por ainda ter lembranças sólidas da infância. Por isso, muito do meu comportamento como mãe se baseia em "como eu era nessa idade?" ou "como uma criança age nessa idade?". Foi assim que eu defini que as crianças de 7 anos (até os 13, mais ou menos), eram mais mais pentelhas que eu poderia conhecer. Cheias de opiniões, achavam que sabiam de tudo, já tinham perdido as feições fofas dos bebês, queriam ser independentes. Um terror.

Alice fez 7 anos.

E, de fato. Crianças de 7 anos são terríveis. Elas perderam as bochechas fofas de neném. A boca tem buracos de dentes que caíram, dentes que estão nascendo, dentes enormes contrastando com dentes de leite. Elas pensam. Raciocinam. Dialogam. Respondem. Criam seus próprios conceitos. Debatem. Querem saber o porquê de tudo. Não adianta mandar, tem que convencer, dialogar, mostrar os prós e contras, fazer uma lista, um gráfico, mostrar pesquisas, sei lá quais outros métodos.

Alice fez 7 anos. Ela virou uma mini eu.

Não é mais o meu bebê. Agora eu ensino significado das palavras, não mais ensino como elas devem ser faladas. Ensino as consequências de cada ação, não mais mando ela fazer qualquer coisa pelo motivo "porque sim, Alice". Ela já sabe que mal comportamento me dá margem pra que ela perca privilégios. Sabe que a viagem que ela sonha em fazer não vai se materializar na frente dela. Sabe que precisamos juntar dinheiro, que preciso esperar as férias do trabalho. Ela tem vontades bem definidas, tem gostos. Confesso que isso exige muita paciência, jogo de cintura, o que nem sempre eu tenho.

Mesmo assim, tem sido do caralho.

Ela não é só mais um ser humano cuja vida depende exclusivamente dos meus cuidados. Ela já tem um certo nível de independência que deixa nós vivermos juntas as experiências. Não é só eu tomando conta dela, ou ela do meu lado porque eu preciso estar em algum lugar. A gente compartilha as experiências. Uma verdadeira companheirinha.

A gente vê Harry Potter e conversa, por causa de um questionamento dela, sobre o que leva as pessoas a serem tão más umas com as outras. A gente joga Minecraft e conversa sobre soluções para a casa que ela está construindo. A gente anda na rua e ela entende que precisa atravessar na faixa de pedestres e fazer o sinal com a mão para que os carros parem. Entende as consequências de se atrasar pra aula.

Dia desses ela tava arrumando as coisas no quarto dela e encontrou alguma coisa:

- Mamãe, vem ver o que eu achei
- Peraí, Alice, já vou

Eu tava mexendo no celular, com preguiça de ir no quarto dela olhar.

- Mamãe, você tá vindo?
- Tô, Alice. Peraí.
- Você não tá vindo porque tá no celular né. Eu tenho certeza que você tá nesse celular, não larga pra nada.
- Aff Alice, claro que não, eu hein

Ela chega no meu quarto e eu estou mexendo na porcaria do celular. Ela não fala nada, só me olha com a cara de "não falei?". No que eu respondo:

- Eu peguei agora!

Ela já me conhece. Conhece meus hábitos. Não dá mais pra enganar. Ela já raciocina.

Outro dia a gente estava vendo Supergirl. E um cara da 5ª dimensão apareceu. Ele estava completamente apaixonado pela Supergirl e queria convencer ela, de qualquer jeito, a casar com ele. Um dos argumentos que ele usou foi o de que ele poderia dar à Supergirl o que ela quisesse, era só ela pedir que ele estalava os dedos.

- Ter tudo que deseja deve ter muito entediante.

Esse não é o nível de raciocínio que eu esperaria de uma criança. Eu não sabia nem que ela sabia o que era entediante. Por isso, perguntei:

- Entediante, Alice? Como assim?
- Ah, imagina, ter tudo o que quiser. Estala o dedo [aí ela fazia o movimento com os dedos] e vem tudo. Que sem graça. Pra que eu ia sair de casa?
- Nossa, é mesmo, né.

Eu dei a resposta mais idiota que eu poderia dar porque fiquei sem palavras. Educar uma criança, dar espaço para o convívio com outras pessoas, ler livros, ver filmes, internet e jogos são vivências que deixam uma bagagem na criança, afinal. Porque não foi eu quem ensinou esse raciocínio pra ela. Não diretamente. Foi ela quem o desenvolveu. Olha como a educação é uma arma poderosa. Ela poderia ter aprendido, por exemplo, que matar seus inimigos é o caminho para se conquistar o que deseja. Ou que ela tem que ser uma princesa e esperar o príncipe estalar os dedos e dar tudo que ela quiser.

Os "terrible 7" não tem sido tão terríveis, afinal. Digo isso sem qualquer romantização, já que ela tá de castigo por causa de um escândalo que aprontou na hora do almoço de ontem. Eu perdi o meu bebê, aquela bolinha fofa que dá vontade de apertar. Mas ganhei uma pessoinha com uma visão de mundo muito divertida. Um pouco dramática, talvez. Mas com certeza ganhei alguém com quem vai ser legal dividir o resto da vida.

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