sexta-feira, 2 de junho de 2017

Tia Sol, tem dó de mim



Ontem foi um dia considerado "sucesso" na minha rotina. Eu acordei cedo. Fui para o Pilates (isso quer dizer que tive ali 40 minutos só com foco em mim), fiz compras do mês, arrumei a cria na hora certa, deixei na escola na hora certa, cheguei no trabalho na hora certa, dei vários "ok" na minha lista de afazeres. O cabelo estava lindo, eu estava me sentindo bonita, estava bem humorada.

Até que voltei pra casa.

Alice, que me esperava há horas, como faz todos os dias, não tinha feito o dever de casa. Ou o "prazer de casa", como a tia Sol da escola gosta de chamar. Era de matemática. Era pra Alice, que está sendo alfabetizada, escrever os números de 1 a 100. A Tia Sol, meus amigos, não está pra brincadeira. A tia Sol não tem dó de mim.

Eu odeio os deveres de casa da Alice porque eles acabam sendo deveres pra mim também. Eu não quero fazer dever de casa. Eu fiz os meus, 20 anos atrás. Eu tenho outros deveres de casa agora, chamam lavar louça, arrumar a sala, catar brinquedo pela sala.

Alice também não gosta de fazer dever de casa. Aliás, escrever de 1 até 100 numa folha de papel não é das tarefas mais animadoras.

- Eu posso escrever o 1, colocar um tracinho e depois o 100?
- Não, Alice, não pode. Você tem que escrever todos os números.

Lá foi ela, com lápis e borracha em mãos. Do 1 ao 20 ela foi rápida e me fez criar expectativas antes da hora. Depois, do 20 ao 30, foram dez minutos entre reclamações e vontade de ir ao banheiro, sede, mais reclamação, cansaço de escrever, críticas ao lápis.

No 35 o peso do dia bateu. Eu não tinha qualquer sanidade para acompanhar minha filha no dever de casa. Eram 23h. Essa é a hora que eu chego do trabalho. Mas eu não podia dizer que não queria fazer.

Aí eu lembrei do que a minha psicóloga questionou: "Você nunca tem tempo pra você? Você não tem tempo de ócio? Esse tempo é extremamente necessário para o ser humano".

- Você precisa se organizar.

Essa é a frase que eu mais ouço das pessoas. E a que eu mais incorporei nas minhas metas de vida. Porque parece certa. Se eu me organizar, eu vou conseguir fazer tudo que eu preciso. Mas ontem, eu ocupei todas as horas do meu dia de forma organizada. Eu fui uma boa mãe e boa profissional das 7 da manhã às 11 da noite.

Não é só me organizar. O peso continua sendo muito grande.

Lá pelos 50 ela desacreditou da própria capacidade. Achou que não ia conseguir, que não ia dar conta. Segundos antes eu pensei em deixar ela sozinha terminando e tirar um cochilo no sofá. Mas aí percebi que se eu não ficasse ali, monitorando e incentivando, como uma líder de torcida, ela não faria.

- É claro que você dá conta! Isso aí é molezinha pra você. Você conhece todos os números, é só continuar. Não para. Por favor, não para.

Eu revisava o meu dia mentalmente pra descobrir onde eu teria errado. Não achei. Passei do cansaço para a raiva de quem tá muito cansada. Fiz planos de largar Alice uma semana na casa do pai, mas eu não sei nem dizer se ela seria levada pra escola todos os dias.

Quando ela chegou nos 70 eu percebi que ela tinha feito o 7 para o lado errado.

- Alice, o 7 tá pro lado errado.
- Ai mas será que TODOS os meus setes estão errados?

A preocupação dela me fez rir. Não só rir. Eu gargalhei de perder o ar, como quem perde o controle da própria vida. Eu ri sem conseguir parar e ela riu comigo porque provavelmente eu estava com cara de doida. Eu ri até deixar escapar uma lágrima no canto do olho. Era o sinal da exaustão.

Olhei todos os setes e vi que, Graças a Deus, era só aquele que estava escrito errado.

- Vai Alice, continua. Tá acabando.
- Não vai acabar nunca
- Vai sim, é só até o 100, não é infinito.

Cada número era escrito com mais dificuldade e eu sempre mandando ela continuar porque não sabia mais o que fazer.

Nem eu acreditava mais que um dia o 100 chegaria, mas ele chegou. Eu gritei um OBRIGADA, SENHOR! com todo alívio que eu senti no meu coração. Ela dançou ao som de uma música que ela mesma fez na hora, que só tinha uma palavra: LIBERDADE.

Fui dormir com aquele choro de cansaço preso. Acordei com o despertador e com enxaqueca. Graças a Deus é sexta-feira. Que Oxalá me dê forças. Que ninguém caia em grampo da Polícia Federal. Que ninguém peça demissão. Que a gasolina não aumente. Que a internet colabore. Amém.


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