quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

# família # filhos

Tinha que ter avisado



Dia desses a Alice colou as mãos com Super Bonder. Não foi nada desastroso, se pensar em tudo que podia ter acontecido, como ela colar a mão na cara, mas foram necessárias duas horas pra tirar toda a cola.

- Você tinha que ter avisado.
- Eu mandei você não mexer, por que desobedeceu?
- Você falou, mas não avisou que era ISSO que ia acontecer - disse ela, com as mãozinhas com os dedinhos colados bem próximos ao meu rosto. Não foi eu quem ensinou essa menina a ser dramática desse jeito.

Dizer "não mexe" não foi suficiente. Eu tinha que ter avisado.

Dias depois ela caiu da cama. Eu tinha pedido pra ela sair da beirada e ela se mexeu cerca de um milímetro pra dentro da cama. Minutos depois eu pude acompanhar a cena em câmera lenta. Ela foi virando e eu esticando meus braços numa vã tentativa de segurar aquele corpinho que ia de encontro ao chão. Ela caiu de cabeça.

Enquanto a cria chorava, eu tentava me livrar da culpa.

- Eu pedi pra você sair da beirada da cama.
- Eu tava dormindo, como eu ia ver?

Eu tinha que ter avisado.

Depois desse acontecimento eu fiquei me perguntando até quando eu teria que avisar as coisas, até quando eu teria que dar spoilers da vida dela e quando os erros dela serão apenas dela, e não mais meus.

Educar uma criança é abdicar das suas próprias vontades em prol do outro. A criança a gente educa pro mundo, não pra gente. Eu poderia alimentá-la de biscoito recheado em todas as refeições. Ela adoraria. Mas a coitada ia ficar podre por dentro e cheias de problemas de saúde só porque a madame aqui tem preguiça de cozinhar.

Ou ainda, imagina o desgosto de colocar no mundo aquela criatura que não sabe ouvir um "não" e por isso toca o terror na vida dos outros.

Não é por mim, é por vocês.

Dar ordens e deixar ela descobrir o que fazer é confuso pra mim, e deve ser pra ela também.

É deixar ela não almoçar, se não quiser, pra aprender que vai ficar com fome se não comer na hora certa, mas também exercer o poder enviado dos Céus chamado "Porque Eu Tô Mandando" caso ela teime em não querer dormir na hora porque quer ficar jogando ou vendo vídeos.

Por que não obrigar a comer e deixar dormir na hora que quiser? Sei lá, eu também não sou perfeita, não dou conta de tudo. Escolhi as minhas batalhas. Ter filho é que nem aquela música "Love is a battlefield":

"Nós somos jovens, dor de cabeça à dor de cabeça nos ficamos
Sem promessas, sem demandas
O amor é um campo de batalha"
Alguém tinha que ter avisado.

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