domingo, 15 de janeiro de 2017

Mãe jovem, filha adulta

- Mamãe, eu quero ir embora.
- Tá bom, a gente já vai. Dá só uma encostadinha aqui.
- Eu não vou dormir aqui, mamãe
- Não, não é pra dormir, é só pra dar uma descansadinha pra gente ir pra casa depois.
- Tá bom.

Não era só uma descansadinha. Era uma mãe bêbada e cansada de ter trabalhado a semana inteira e que não conseguiria voltar pra casa naquele momento. O que era uma noite pra juntar as crias se tornou uma agradável noite em que as crianças brincavam e as mulheres secavam três garrafas de vinho.

Eu sempre me perguntei qual seria a influência da minha idade e da minha falta de maturidade na criação da Alice. Eu sou a mãe que aparece toda bagunçada pra deixar a filha na escola e não se importa com isso. A mãe que aparece com cara de ressaca e de óculos escuros na reunião de pais. A mãe que chega na escola chupando geladinho com a filha e dá um sorriso azul pra professora. A mãe que compra um carrinho de controle remoto pra ela mesma poder participar da brincadeira da filha. A mãe que enche a cara em locais seguros para a filha e depois dorme com ela num canto. A mãe que toma Yakult da filha pra curar ressaca. A que lê livros de adulto em voz alta pra filha ficar entediada e dormir mais rápido.

- Mamãe, você me enganou! Você falou que era só uma descansadinha! O dia já tá claro!
- Eu sei, eu sei, mas eu tô descansando ainda, dorme mais um pouco.
- Ai, quanta preguiça.

Aí eu estava contando toda essa história pra uma amiga do trabalho e ela me contou que já passou muito por isso. Ela nasceu quando a mãe tinha 15 anos. De acordo com a minha amiga, a mãe dela dizia que não ia deixar de sair por causa dela e levava ela junto pros pagodes. Me identifiquei. Ela contou também que ficou muito brava com a mãe porque queria uma “mãe normal”, como as outras. Depois de adulta ela teve uma conversa com a mãe e pediu desculpas, pois hoje ela entendia o que a mãe tava passando. Não por ter uma filha, mas por ser uma mulher adulta agora e saber que aquele modelo de mãe ideal e também de mulher adulta é muito difícil de ser seguido.

A Alice me dá muitas broncas. A coitada quase sempre tem razão. Ela briga comigo porque eu esqueço das coisas. E ela tem um jeito todo especial de fazer isso, que é botando uma mão na cintura, a outra apontando pra mim e me chamando de “senhora”. É a única hora que ela me chama assim.

Mas depois que a minha amiga falou que conseguiu perdoar a mãe por ser “jovem”, eu percebi que ainda tenho esperanças, que nem tudo está perdido. Os danos não são permanentes. As crianças sobrevivem a mães às vezes ébrias e quase sempre sem maturidade.

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