segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Mina de Fé

Eu tenho um fraco por homens artistas, confesso. Aqueles que escrevem, que cantam, que chegam nas festas já trazendo um violão, que pintam, que dançam, já ganham vários pontos comigo. Eu não entendo o que acontece.

Lembro que na 4ª série o garoto que eu gostava foi fazer uma apresentação. E aí eu descobri que ele tocava violão e cantava. Separou uma música do Karametade, seu grupo favorito, e cantou pra turma. Eu fiquei hipnotizada. Semanas repassando a letra da música pra ver se encontrava alguma indireta pra mim, repassando o momento pra ver se achava algum ponto em que ele tinha retribuído os meus olhares.

Eu despertei algumas paixões platônicas na minha pré-adolescência. Eles me cortejavam escrevendo poesias. Meu problema era não conseguir separar ter gostado da poesia e ter gostado do moço, ficava tudo embaralhado. Tinha também um moço mais velho que tocava violão e eu suspirava que nem donzela de filme antigo.

Agora eu entendo porque achava tão fantástico quando um namorado meu dizia que compunha letras de rap e rimas em minha homenagem. Eu me achava a própria musa inspiradora dele. Imagina só: o cara tem o dom de usar palavras certas, no momento certo e elas além de passar uma mensagem forte e romântica, ainda rimavam. Meu astro.

Lembro do dia que ele me entregou a letra de “Mina de Fé”. Nela, ele contava (rimando!), todos os problemas que a gente passava (as traições deles, as mentiras dele, as mulheres que "tentavam" acabar com o nosso namoro) e mostrava como o nosso relacionamento era forte. Que ele havia errado muito, mas queria fazer tudo certo naquele momento. Como eu era a Mina de Fé, aquelas que aturava todas as loucuras dele sendo muito mulher. A briga acabou ali mesmo.

Numa parte da letra ele dizia que as mulheres se interessavam pelo carro dele, e que ele queria deixar a vida de drogas e armas. Eu fiquei meio WHAT? Mas depois achei que ele tinha usado uma licença poética, que ele só tava sendo o mano da perifa que ele achava que era.

Eu era A Mina de Fé. Via as meninas me olhando torto por eu estar com um dos pseudo malandros mais famosos da escola. Os amigos tentando nos separar. Mas eu seguia forte porque ele tinha me dito: eu era a mina de fé dele e ponto.

Pois eu acabei decorando a letra de Mina de Fé. Era realmente muito boa. Me sentia orgulhosa por ter inspirado aquilo tudo. Mas o espírito jornalista, meus amigos, ele não nos abandona. Eu nem era jornalista ainda, mas o faro já estava presente. Um dia, acordei no meio da noite lembrando de um verso e tentando entender onde eu já tinha ouvido. Joguei no Google.

E foi assim que eu descobri que eu não era a Mina de Fé da música, já que o autor era o MV Bill e não o meu namorado. A mentira durou um bom tempo e quando eu descobri, não tive vontade de confrontá-lo. Era a minha piada particular. Mas você não consegue confiar numa pessoa que rouba música de gente famosa, né. É desonesto. Mas como eu era só uma patricinha, provavelmente ele achou que eu nunca saberia, já que não escutava esse estilo de música. Quase dez anos depois eu joguei sutilmente na cara dele que eu sabia e ele ficou tão sem graça que por um momento eu achei que minha piada particular perderia a graça. Não perdeu. Inclusive, cada vez que eu conto, fica melhor.

Coé, neguin! Copiando minhas músicas, tu tá maluco?

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