sábado, 27 de agosto de 2016

# baseado em sentimentos reais # relacionamentos

Despedida

Eu não lembro a idade que eu tinha quando assisti Uma Mente Brilhante no cinema. Eu não sei nem o porquê desse filme. Eu não sabia quem era John Nash, eu não sabia que era um filme biográfico. Eu só lembro que saí impactada do cinema. Lembrei do filme porque esses dias me peguei me despedindo de algumas lembranças.

John Nash era do caralho. Matemático, economista, sei lá. Só sei que ele era estranho. E fazia contas. E tinha poucos amigos. E eu já falei que ele era estranho? Pois é. Tão estranho que as pessoas demoraram a perceber os sintomas da esquizofrenia dele.

Ele tinha um amigo imaginário, que ele não sabia que era imaginário, fruto da esquizofrenia. Era um colega de faculdade, ele dizia. No decorrer do filme a gente descobre que ele nunca teve colega de faculdade e isso é um grande choque. Ele também andava com uma menininha. Que abria os braços sempre que via o John, a espera de um grande abraço.

No momento em que ele começou a enxergar que eles não faziam parte do mundo real e aceitou que não podia mais conviver com os dois, ele decidiu se despedir. Entendeu que a cabeça estava pregando uma peça nele, mas que as coisas não mudariam. O amigo da época de faculdade e a menininha nunca desapareceriam. Ele é que deixaria de dar moral pra eles. Então ele se despede, docemente, avisando que não conversaria mais com os dois.

E era isso que eu tava fazendo. Me despedindo de lembranças. De um alguém que eu achei que estaria presente, mas que não estava. E as lembranças começaram a me torturar. Elas não eram lembranças ruins. Pelo contrário. E por isso era tão fácil revisitá-las sempre que eu podia. Mas, naquele momento, eu não quis mais.

E assim como John, eu me despedi, docemente, das minhas lembranças. Eu sabia que não ia esquecer. Era tudo muito bonito, foi especial. Mas foi isso. Foi. Não é mais. Eu estava avisando que não visitaria mais aquelas memórias, que não daria moral pra elas.

Num determinado momento eu percebi que eu já não estava mais me despedindo das memórias, mas de lembranças que eu havia criado. Diálogos que nunca aconteceram, declarações que nunca foram feitas, olhares que não se concretizaram. O ser humano deve ser o único imbecil na face da Terra que se apega a lembranças fabricadas. E sofre com elas. E até sente saudade daquilo que nem chegou a viver.

Bom, eu me despedi das lembranças, mas assim como os amigos de John, elas não foram embora. Elas estão sempre por perto. Num cantinho em que eu vejo com a visão periférica, mas que não olho diretamente pra elas. Eu decidi não dar moral.

E, como John, vez ou outra eu tenho que me convencer que eu não posso mais viver no mundo daquelas lembranças. Ele se tocou dos seus delírios quando percebeu que a menininha nunca havia crescido, esses anos todos. Ele estava velho, a criança não envelheceu um dia:

- Ela nunca foi real, ela nunca envelhece. Ela não cresceu.

E assim John Nash, homem do caralho, que ganhou uma caralhada de prêmios na Matemática, na Economia e lutou contra uma doença séria, criou um mantra pra mim:

- Não era real. Nunca cresceu.

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