domingo, 31 de julho de 2016

Fósforo



Era uma noite agradável de fevereiro. Ou não. Pode ter sido uma daquelas em que a gente não entende como faz tanto calor durante a noite e fica abanando o suvaco pra ver se para de suar um pouco. Pode ter sido também um dia de muito frio em que eu não quis tirar as meias. Uma vez eu li num livro do Stephen King que a gente sempre escreve ficção quando está falando do passado porque a gente nunca tem certeza do que realmente aconteceu. E por isso eu prefiro dizer que era uma noite agradável de fevereiro, mesmo sem lembrar se era esse mesmo o mês. Eu só sei que era uma noite agradável.

A gente tomou um vinho que era muito bom, mas que tinha custado o dobro do preço que eu pagaria normalmente, mas não quis falar sobre esse detalhe. A gente se abraçou na fila do caixa como se fosse um casal recém apaixonado que só queria curtir a sexta (era sexta?) sossegados em casa. Acho que era a segunda vez (ou terceira?) que a gente saía.

Em casa, a internet parou de funcionar e eu falei que na minha TV eu só assistia Netflix e Youtube, que nem na antena coletiva ela está ligada. Com toda a calma do mundo ele tirou o celular do bolso pra gente ouvir as músicas sincronizadas no Spotify dele. 

- Você curte coisas antigas, né?

Eu ia abrir a boca pra perguntar de onde ele tinha tirado essa ideia, mas aí olhei pro lado e vi os fusquinhas, o quadro de telefone antigo, as câmeras antigas, o criado-mudo em forma de livro antigo e lembrei da máquina de escrever que eu ainda quero comprar.

- Eu acho que gosto, mas não tinha percebido até você falar.

A noite continuou agradável, mesmo quando eu debochei do gosto dele pelas bandas de rock nacional dos anos 2000 que cantam uma sofrência maior do que eu, amante da sofrência sertaneja, poderia suportar. Mas suportei. Até ouvi umas músicas depois.

Ele contava das coisas que tinha deixado pra trás, das coisas que queria fazer no futuro e de como o presente o incomodava. Eu não faço ideia do que eu falei. Eu só lembro das músicas. Talvez eu não tenha falado nada mesmo. Eu não me surpreenderia se tivesse sido assim.

A noite acabou com os primeiros raios do dia. Eu não sei por que diabos alguém precisava estar acordado às 7 da manhã de um sábado. Disse que ele podia ficar mais se quisesse e ele disse que não queria. Ofereci carona, pois iria para o mesmo rumo que ele mais ou menos uma hora depois. Ele também não quis. Disse que queria fumar um pouco e pensar na vida.

- Tem fósforo?

Eu abri a porta do armário automaticamente, mas não me lembro em qualquer momento da vida de ter comprado uma caixa de fósforos, mas ela estava lá. Escondi a cara de surpresa e entreguei pra ele.

- Ela tá nova, tem certeza que você vai me dar?

- Depois você me devolve.

E o jeito que ele me olhou deixou claro que não haveria uma outra oportunidade para que a caixa fosse devolvida. Abri a porta e ele foi embora, com a mesma tranquilidade que havia entrado. Mas poderia ter ficado, eu não me importaria.

Dia desses minha mãe perguntou pela caixa de fósforos dela.

- Quais as chances dela ter ido parar lá em casa?

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