sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Vizinhos

Até o dia em que a minha vizinha bateu na minha porta desesperadamente pedindo ajuda pra socorrer a irmã, que havia desmaiado no banheiro, eu não tinha me tocado como a gente cria laços com os vizinhos, mesmo sem perceber.

A melhor amiga da minha avó era vizinha dela. Toda tarde elas se juntavam pra tomar café e falar da vida alheia. Minha vó morreu há mais de 15 anos, mas eu sempre lembro dela quando vejo a Vera, a vizinha. A minha outra avó era vizinha de prédio da avó de uma das minhas melhores amigas. A gente costumava se encontrar nos fins de semana. A vó dela já era minha vó também, de tanto tempo que a gente passava junto. Essa vó também se foi e, agora, quando passo pela antiga casa dela, lembro com carinho do tempo que passei brincando ali.

Você pode se tornar cúmplice ou mesmo amigo do seu vizinho apenas com o olhar. Aquela troca de olhares todo dia, no mesmo horário, indo ou vindo do trabalho, ou no meu caso, quando eu ficava na janela esperando o garoto do prédio da frente passar sem camisa, enquanto o irmão mais novo dele ficava na janela procurando a garota do prédio da frente. Viramos amigos. E algo mais. Vez ou outra eu ainda olho na direção da janela, mesmo sabendo que o garoto que eu procurava não mora mais lá. Não é que eu esteja procurando alguém, é só força do hábito.

A rotatividade em prédios parece ser mais alta que em casas. Eu já sou uma das moradoras da "velha guarda" do meu prédio, da época em que a nossa rua nem asfaltada era. A gente se cumprimenta, eles falam que a Alice tá enorme, eu sorrio porque não tem muito mais o que dizer. Vez ou outra rolava um climão quando eu entrava no elevador e dava de cara com um vizinho que eu já havia trocado mais do que bom dia no elevador e ele estava acompanhado. Acho que ele também já mudou, mas ainda lembro a cara de espanto dele, sempre que o elevador parava no 8º andar e ele dava de cara comigo lá dentro.

O pai da minha filha era meu vizinho. Agora tô enxergando um padrão e me perguntando se essa de flertar com vizinho é puro comodismo por estar perto.

Tava pensando nisso dentro do elevador quando dei de cara com o vizinho do 5º andar. O vizinho do 5º andar tinha uma família linda, esposa linda, filho lindo. O vizinho do 5º andar também é lindo. Acho que, até um dia desses, o vizinho do 5º andar não tinha reparado na minha existência. Aparentemente, o vizinho do 5º andar não tem mais uma esposa. Agora ele sorri pra mim e mentalmente eu ouço aquela música da Taylor Swift em que ela diz "Ai, meu Deus, olha esse rosto! Você parece meu próximo erro".

Nenhum comentário:

Postar um comentário