terça-feira, 1 de março de 2016

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Tem que ter fé

- Moça, me dá um dinheiro pra comprar comida? Eu tô desde seis e meia da manhã sem comer nada. 

Era um garoto que deveria ter uns 10 anos acompanhado de um irmão mais novo. Eu, que estava jantando, perdi a fome na hora e o que eu já tinha comido ficou entalado na garganta.

- Cadê a mãe de vocês?
- Ficou em casa.
- E o que vocês estão fazendo aqui?
- Eu vim jogar a final, moça. A gente ganhou o campeonato. Eles disseram que vão me contratar. Eu vou ganhar mil e quinhentos reais mas agora eu não tenho dinheiro pra comer e nem pra voltar pra casa.
- Mas o que vocês estão fazendo sozinhos aqui no shopping?
- Uma moça ofereceu um prato de comida mas a gente não tá achando ela.
- ...
- ...
- Olha, o moço do cinema deu um ingresso do cinema pra gente. Você já viu Deadpool, moça?

O irmão mais novo resolveu se pronunciar, enquanto o mais velho tirava um cupom dobrado várias vezes de dentro da mochila com o que parecia ser a assinatura do gerente.

- Ainda não.
- A gente vai ver, mas só quando for seis e quarenta.

- Olha, moça. Eu tenho um desconto do Mc Donalds que você compra um sanduíche e leva outro. Se eu te der um, você dá o outro pra gente?

Me rendi à simplicidade da dupla. Era uma promoção do Quarteirão por 29 reais. Fomos ao Mc Donalds.

- O que é isso verde na foto?
- Picles.
- É bom?
- Eu gosto, mas tem gente que não gosta. Você quer que tire do seu?
- Eu não, eu quero tudo.

- Tá animado pra ver o Deadpool?
- Tô... mas eu tô mais animado pra ver sabe o que? Batman x Superman.
- Ah, é? E quem você acha que ganha?
- O Superman né. Ele é o homem de aço.
- Pois eu acho que o Batman ganha.
- Pensando bem, o Batman sabe o segredo da kriptonita do Superman né. Ele é o único que sabe.
- Mas eu acho que pode terminar em empate.
- Moça, a senhora sabe dizer se o meu sanduíche vem com brinquedo?
- Não vem.
- Ah...
- Toma, pega a bandeja.

O irmão menor tinha ficado na mesa tomando conta dos nossos lugares. Deu pra ver o brilho nos olhos do garoto se transformar em decepção quando descobriu que tinha queijo, "a pior coisa do mundo", segundo ele, no hambúrguer. Enquanto o irmão mais novo se distraía com o queijo, o mais velho guardava o seu na mochila.

- Que foi, não gostou?
- Gostei, mas vou guardar pra comer mais tarde.
- Achei que você estivesse com fome.
- Eu tô. Mas vou levar pra casa pra dividir com a minha mãe e a minha irmãzinha. Eu não posso pensar só em mim, moça.
- Mas você vai ficar com fome?
- Eu vou pedir pra outra pessoa comprar alguma coisa pra mim. Na verdade o que eu queria mesmo agora era um prato de comida.
- Pô, cara. Você devia ter falado antes.
- Eu só quis te ajudar, com o desconto, moça.
- Mas e se você não conseguir?
- Tem que ter fé, né.

Então ele contou de novo que vai ser contratado como jogador de futebol por mil e quinhentos reais e eu só torcia para que ele não estivesse sendo enganado. Imaginei quantas expectativas a família dele teria com esse salário. Lembrei da reportagem que li no trabalho que dizia que 80%  dos jogadores adultos recebem até R$ 1 mil de salário e que ele poderia mesmo estar sendo enganado. Contou também da família, da mãe, da irmãzinha, do irmão com Síndrome de Down que não vai comer do hambúrguer porque tem que tomar um leite especial. Falou da irmã mais velha que já se vira sozinha. Não falou de pai. Ninguém acompanhando aquelas duas crianças e isso me apertou o peito de um modo que eu tive que ir embora.

Vai dar três da manhã e eu não consigo parar de pensar nos dois. Pensar se conseguiram dinheiro da passagem, se conseguiram pegar o ônibus certo pra chegar em casa. Pensar na preocupação da mãe enquanto os meninos não chegam em casa. Pensar se não encontraram alguém escroto pelo caminho que tentaram tirar vantagem deles. Pensar no que eu poderia ter feito a mais por eles. Mas agora não tem muito o que fazer. Eu nunca mais vou encontrar esses dois mas torço para que estejam bem. Tem que ter fé.

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