domingo, 20 de dezembro de 2015

# maternidade # ser mãe

Maturidade: não tenho

Um dos meus desafios na maternidade é ser a adulta, a parte madura da relação. Diariamente eu concluo que não tenho maturidade para ser mãe. Principalmente quando a filha é um cotoco de gente que é muito mais esperto que você.

Dia desses eu estava lá, bancando a madura no supermercado.

- Alice, você lembra que você só pode abrir depois que a gente passar no caixa, né?
- Eu não sei porque você tá me falando isso, porque quem esquece tudo é você e não eu. Ou você já esqueceu isso também? 

Me senti humilhada. Na minha cabeça passaram vários palavrões e insultos, porque é assim que eu lido com esse tipo de constrangimento. Mas engoli. Não só porque é minha filha, mas porque ela estava coberta de razão. Maturidade é isso, é saber quando o outro tem razão e simplesmente se calar.

Eu não soube explicar pra ela como os peixes se reproduziam. É óbvio que eu não tenho maturidade pra isso. Eu espero ela dormir pra comer besteira. Às vezes não me controlo e só viro pro lado escondendo a boca cheia de Fandangos. Um poço de maturidade.

E quando ela diz que não quer comer? O meu primeiro impulso é dizer: TÔ NEM AÍ, ENTÃO FICA COM FOME! Mas aí aquele lado adulto me lembra que eu sou responsável pelo bem estar dela e começo com as táticas da hora do almoço. Ser adulta é muito cansativo.

Mas semana passada ela apareceu com piolho. Isso definitivamente é uma coisa que eu não sei lidar, pois só de ouvir o nome do bicho eu já me coço toda. Tentei ser a adulta da relação e encarei aquilo como uma coisa normal, que acontece com toda criança, que já aconteceu comigo várias vezes e que eu não lembrava de ter passado piolho pra minha mãe.

Mais tarde, fui ser adulta na rua, enchendo a cara, dançando, me divertindo com as amigas. Cheguei em casa às 7 da manhã e... coçando a cabeça. Demorei alguns minutos pra entender o que tava acontecendo, não sei se por culpa da bebida ou se por distração mesmo. Mas quando eu percebi que estava coçando a cabeça mais que o normal, tive certeza que estava com piolho.

Lembrei que passei a noite toda pulando, abrançando e em contato com a cabeça das minhas amigas e vi que ia ter que avisar que elas poderiam estar com piolho também. Me vi na situação constrangedora de ter que ligar pra cada uma contando que eu tava com uma coceira estranha e que era melhor que ela comprasse um remédio. Imaginei que eu poderia ter ocasionado um surto de piolho na boate por causa de todas as pessoas com quem eu dancei.

Às 7 e meia da manhã, zonza de sono e de álcool e me coçando da cabeça aos pés, fui até à farmácia comprar o remédio para as duas piolhentas da casa. Voltei, bula na mão, pente fino no outro. Percebi que a vida de adulta solteira com piolho é muito solitária. Não tem ninguém pra catar piolho na sua cabeça enquanto você assiste à Sessão da Tarde porque não pôde ir pra escola. Enquanto eu procurava os piolhos em frente ao espelho, me deparava com os fios brancos, o que me trazia sensações contraditórias do tipo “Eu Não Tenho Mais Idade Pra Essa Merda” e “Eu Não Tenho Maturidade Pra Lidar com Piolho Aos 27 Anos”. Eu estava sozinha. Comecei a batalha. Passei o pente uma, duas, três vezes. Nada de piolho, nada de lêndeas. Magicamente, a coceira passou.

Eu não havia sido contaminada, afinal. Era coceira psicológica. Eu não ia precisar ter conversas constrangedoras com as pessoas da noite passada, mas não sabia se ria ou se apenas voltava pra cama, enfraquecida pela total vergonha de mim mesma.

Depois que passa, a gente ri, mas o nível de stress foi alto. A coceira psicológica eu passei pra várias pessoas e espero que elas tenham ficado bem sem precisar passar remédio de piolho pra confirmar que era tudo psicológico, coisa da cabeça da gente mesmo. Inclusive, termino esse texto digitando com uma mão só, pois a outra está ocupada coçando a minha cabeça.

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