domingo, 8 de novembro de 2015

# família # filhos

Pode até parecer fraqueza, pois que seja fraqueza então

Pode ser uma análise superficial, mas eu tenho a impressão de que quem grita felicidade ostensivamente não é tão feliz assim. Talvez seja um recurso de auto enganação, ou algo comum nas redes sociais de enganar os outros ao mostrar como a sua vida é perfeita e melhor que a dos outros.

Tem uma conhecida na minha lista de amigos que, depois que teve filho, não para de dizer o quanto a maternidade é perfeita, o quanto ela é maravilhosa e forte por ser mãe, o quanto ela está tirando a experiência de letra. Ela aparenta ser mãe solteira e mais nova que eu. Eu tenho vários bloqueios dessa época, mas lembro que passou longe de ser fácil. Aliás, ainda não é.

Dia desses ela postou algo como não poder ser triste, já que filho era uma bênção e eu enxerguei naquela frase uma boa parte das raízes do sentimento de culpa que as mães costumam carregar o tempo todo. Cinco anos depois eu não posso me considerar livre da culpa. Culpa de que? De sair para trabalhar, de não sorrir 24 horas por ver todos falando que filho é uma dádiva e nem sempre de sentir assim. De não ser boa o suficiente, de não se dedicar o suficiente, de não colocar a cria em primeiro plano todos os segundos do dia, de querer tomar um remédio pra dormir a noite toda e não poder porque você pode ter que acordar e socorrer alguma emergência. Culpa por não ser a Mãe Maravilha.

Eu queria dizer pra ela que, olha, tá liberado sim ficar triste. Pode ficar com raiva também. A maternidade vai forçar os limites da sua sanidade mental. Pode sentir cansaço sim, e cansaço em dobro quando você tem que cobrir o espaço de outra pessoa. Pode se sentir esgotada. Pode não querer estar por perto do filho por alguns minutos. Pode querer entrar no banheiro e trancar a porta para que ele não venha atrás e ter uns minutos de sossego pelo menos enquanto caga.

Nós somos ensinadas que ser mãe é ser forte, é dar conta de tudo, é ser maravilhosa em tudo, abdicar das próprias vontades em prol do filho e sempre se sentir bem com isso. Retiraram a humanidade da mãe. Quando me dizem o quanto eu sou forte eu me questiono internamente: "a que preço?". Ser forte não é qualidade, é questão de sobrevivência. Eu preferiria não ser tão forte e poder levar a vida numa boa. Queria não ter precisado me tornar forte. E se você não tem um laço nem um avião invisível você não é a Mulher Maravilha, não precisa agir como tal.

Não pensem que eu deixo de amar a minha filha por causa desses sentimentos. Isso não é sobre ela, não é o que eu sinto sobre ela. É sobre mim. É sobre o que eu sinto sobre mim mesma. É sobre ser mãe, sobre a solidão de ser mãe.

Levei alguns anos para entender a ilusão e o porquê de me sentir tão sozinha e nunca mais ignorei esses sentimentos. Não estou dizendo que me deixo derrubar por eles. Nem que aprendi a fórmula para a perfeição. Essa eu descobri que não existe e vivo bem sabendo que, se ela não existe, eu não tenho como ser perfeita. Aceitei que sou imperfeita. Estou dizendo que, quando a filha passa 4 horas fazendo birra por qualquer coisa que aparece e você só tem vontade de dizer: "Eu só quero que você entre no chuveiro, mais nada, pelo amor de Deus" e sair correndo, você pode sair correndo sim. Você pode chorar um pouco sim. Enquanto você chora você vai lembrar das outras pessoas dizendo que "filho meu nunca vai fazer uma birra" e vai dar vontade de chorar mais um pouco. Pode chorar mais se quiser.

Você não vai fugir pra sempre. E ter vontade de fugir não é sinônimo de fraqueza. É sinal de que você está aguentando muito mais do que conseguiria. E se for sinal de fraqueza, o que que tem? Todo ser humano se sente assim em algum momento. Mãe também é ser humano. Devolvam a humanidade das mães. Deixem que sejam tristes, que sintam raiva. Em vez de criticar, de achar que faz melhor, por que não ajudar? Por que não um apoio? Por que não oferecer um ombro pra descansar a cabeça e um ouvido para ouvir os desabafos? O resultado pode ser mais forte do que aquela choradinha que a gente dá no cantinho e ajuda a recuperar um pouco da sanidade. (Você já chorou num cantinho, eu sei.)

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