segunda-feira, 23 de novembro de 2015

24 meses

Esse mês o banco fez a 24ª limpa na minha conta corrente. Se eu não errei as contas, faz dois anos que eu estou morando sozinha. Ele não deixa muita coisa pra trás, mas é o suficiente para que eu alimente minha filha, meus vícios e não tenha vontade nem necessidade de voltar a morar com meus pais.

Dois anos. E antes mesmo de começar eu tive que ouvir de pessoas que eu não ia dar conta. Há dois anos a faxineira, que eu chamava uma vez por mês, não conseguia terminar de limpar tudo, tamanha a minha desorganização. Hoje, quando ela vem, uma vez a cada seis meses ou quando eu realmente peço arrego, ela diz que não sabe como eu consigo manter tudo arrumado. Faz dois anos que não moro com meus pais mas a Alice ainda questiona o motivo de não morar mais com os avós. Já se passaram dois anos mas meus pais ainda devem sentir minha falta, pois volta e meia me chamam pra dormir na casa deles.

Morar só pode ser um paraíso, mas também pode te enlouquecer. Você não tem mais a sua mãe implorando para que você arrume seu quarto. Pode ser um alívio. Mas você também não tem quem arrume a sua cama. Se você pegar no sono no meio de uma maratona de séries na sala, você não vai mais acordar magicamente na sua cama. O máximo que vai conseguir é uma bela dor nas costas.

Morar só é não precisar mais da autorização dos pais para levar uns amigos em casa. É poder chamar 20 pessoas das quais metade você nem conhece pra sua casa, e beber até amanhecer. Morar só é também ser responsável por elas, atender o interfone quando o porteiro vier reclamar e possivelmente pagar uma multa pela perturbação no condomínio.

O silêncio é incrível. Mas você pode passar um fim de semana inteiro sem pronunciar uma só palavra com um ser humano. Você ainda pode falar com a TV ou com o animal de estimação, mas nem sempre tem o mesmo efeito.

Não morar com os seus pais abre a oportunidade de fazer coisas que você não podia fazer antes, como sair de casa no horário que você deveria estar voltando, ou mesmo sair em dia de semana. Até hoje, quando faço isso, ainda sinto um certo peso na consciência. Mas não deixo de fazer, se eu quiser.

"Se eu quiser". É uma frase motivacional. Eu vou lavar a louça: se eu quiser. Eu vou arrumar a casa: se eu quiser. Eu vou dormir no chão, se eu quiser. Eu vou dormir o dia todo, se eu quiser. Eu vou comer até passar mal, se eu quiser. Ninguém vai te impedir.

Morar só é precisar fazer comida. É pensar no que fazer antes de dar fome ou você vai acabar comendo miojo de novo. É ter que ir até o salão de beleza mais próximo da sua casa buscar ajuda pra fechar o zíper do vestido porque suas mãos não alcançam.

Você pode largar a louça pela metade porque deu vontade de aprender a nova coreografia da música da Anitta no Youtube, rebolar e dançar como se ninguém estivesse olhando porque provavelmente ninguém está mesmo. O problema é que quando você cansar, ainda vai ter a louça na pia te esperando.

Você também pode chegar em casa depois daquela bad, depois daquele dia horroroso no trabalho, depois de um fora, depois de um término, depois de um dia triste e chorar o quanto quiser. É libertador. Pode chorar baixinho, pode gritar, pode espernear, pode abafar os gritos no travesseiro, pode deixar as lágrimas e o catarro tomarem conta do travesseiro, remoer tudo até dormir e no outro dia acordar mais leve. Para o bem e para o mal, ninguém vai bater na sua porta perguntando o que aconteceu. 

Morar só às vezes é ter que escolher qual conta pagar. Mas às vezes é ver uma grana extra entrando que paga tudo e ainda sobra para uma extravagância tipo China in Box.

Depois de 24 meses eu ainda não terminei a decoração, não tenho prato fundo e não faço feijão por uma fobia adquirida da panela de pressão. Já não me pergunto como diabos eu dou conta de manter essa casa. Eu só sei que tenho mantido e tá tudo bem.

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