quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Pedaços de mim

Tem aquele ditado que diz "azar no amor, sorte no jogo" ou o contrário, não sei. Eu tenho azar no jogo e no amor. O ditado, no meu caso, seria outro: "azar no amor, sorte nas amizades". Não sou de conversar com todo mundo, de ter um milhão de amigos, mas os que me conquistaram eu vou levar junto comigo até onde eu puder. Eu digo que me conquistaram porque eu não faço ideia do que eu fiz pra merecer essas pessoas.

A vida de adulto às vezes é uma bosta porque os compromissos impedem que você veja quem gosta sempre que quer e precisa. E é assim que você acaba se encontrando com as amigas da época de escola, e que permanecem amigas até hoje, numa quarta-feira à noite, num restaurante que fica aberto até meia-noite, até os atendentes expulsarem gentilmente do local.

Eu tenho uma amiga que tem escova de dentes na minha casa. Tenho um amigo que está usando o cinto do meu pai e provavelmente só vai lembrar de devolver quando ler esse texto. Com esses amigos, inclusive, eu tenho planos sérios de morar junto com eles quando nada mais der certo nas nossas vidas. É bom saber que mesmo que tudo desabe, eu vou poder contar com eles.

Ser amiga é num dia percorrer uma distância considerável para ser apoio moral de uma amiga que precisa fazer um teste de gravidez. É ficar feliz pelas conquistas da outra pessoa. Sentir uma dor que não é sua, mas é como se fosse. Ter consideração pela família como se fosse a sua. Entrar numa briga com alguém bem maior e mais forte que você só pra defender a pessoa e não se arrepender disso.

Dia desses eu senti que minha casa estava grande demais e, mesmo assim, me sufocando. Fugi da minha casa e corri pra casa de uma amiga que me ofereceu um ombro pra chorar por várias horas seguidas e depois um sofá pra deitar e chorar um pouquinho só. Se tem algo que ajuda a curar um coração partido esse algo não é a bebida, não é ficar com outras pessoas, é ter amigos por perto. São eles que vão te lembrar que a vida continua, que você já sobreviveu uma vez, vai continuar sobrevivendo e que você é especial.

Com algumas dessas pessoas que fazem parte da sua vida de forma tão profunda você só encontra uma vez no ano, fala umas duas ou três, mas sabe que, não importa a distância, você sempre vai poder contar com elas e o carinho não vai diminuir. Como aquela amiga que foi a primeira que soube da sua gravidez e sutilmente consultava os sintomas com o irmão médico para ter certeza do resultado. Ou aquela vez que você chorou quando soube que o cachorro da amiga, que era um pouco seu, que você levava pra passear quando ela viajava, havia morrido e você só queria cancelar todos os compromissos e sair correndo pra casa dela.

Tem aquele amigo que vocês se comunicam pelo olhar, como quando a balada tá bem mais ou menos e vocês percebem, ao mesmo tempo, que vocês estariam mais felizes na fila do drive thru do Mc Donalds.

Tem aquela amiga que vai na sua casa e te ajuda a lavar a louça. Apenas porque sim, porque ela sabe que você nem sempre dá conta e porque Ericka, essa comida aqui na panela tá estragada, caralho, que nojo.

Eu tenho amiga que nunca vi pessoalmente, mas que trocamos longos emails, conselhos e risadas diariamente. É uma confiança, um carinho, um querer bem gratuito. A pessoa podia simplesmente parar de responder os emails, as mensagens malucas e desesperadas se quisesse cortar contato, porque eu não saberia nem por onde começar e procurar por ela. Mas ela responde, toda vez, todos os dias.

Tem também aqueles amigos que se envolvem com a sua família e que seus pais perguntam sobre eles quando ficam muito tempo sem aparecer. Perguntam se estão trabalhando, se estão namorando, se um dia terão a chance de ir ao casamento deles. São os que você chama pra festinha de aniversário da sua filha.

Ter aquela amiga que vai segurar sua barra quando você está completamente fora de si por causa de bebida é essencial. É o clássico segurar o cabelo enquanto você vomita, fazer proteção enquanto você mija na rua, tirar a cabeça da pessoa de dentro da privada e levar pra um lugar minimamente confortável, te esperar na porta do banheiro da balada até você se recuperar, carregar uma pessoa muito maior que você porque ela mesma não dá conta do próprio corpo.

Alguns amigos te apoiam em tudo que você faz. Não por cegueira, mas por saber que você vai passar por certas coisas, não importa o quanto você seja avisada. E o que eles fazem é esperar lá embaixo, com aquela rede de segurança que a gente vê nos filmes os bombeiros usando quando alguém precisa pular de um prédio em chamas. É isso que os amigos são: aquela rede de segurança quando você precisa saltar de um prédio em chamas. Você não pensa duas vezes, você confia e apenas pula.

Falem o que quiser da tecnologia, das redes sociais, do vício no celular, porque eu agradeço diariamente a oportunidade de falar todo dia e o dia todo com os meus amigos, se eu quiser. Não é menos amizade por isso. Eu, sem os meus amigos, não sou eu. Falta um monte de pedaço.

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