sábado, 25 de julho de 2015

Esquecida

Cheguei em casa e pela 28ª vez eu vi que esqueci a luz do banheiro ligada. Você já sentiu uma dor vindo diretamente do seu bolso? Mesmo o bolso não fazendo parte do seu corpo? Mesmo você usando uma roupa sem bolso? Pois eu vos digo: é possível, é real a dor. É a dor do seu dinheiro indo embora.

Mas, sinceramente, eu não me surpreendo mais. Eu esqueço uma lâmpada acesa quase todo dia, e olha que eu costumo olhar em todos os cômodos antes de sair de casa. É um problema sério. Não o de esquecer a luz acesa, mas o de ser esquecida, de modo geral.

Eu já esqueci o ferro de passar roupa ligado.

Já estraguei duas mamadeiras da Alice porque deixei dentro da panela com água no fogo pra esterilizar. Quando voltei na cozinha, a água tinha evaporado, a mamadeira foi reduzida a um pedaço de plástico no fundo da panela e a fumaça tomou conta do recinto.

Minha mãe me pergunta: Minha filha, pelo amor de Deus, como você consegue viver desse jeito? E eu respondo: olha, mãe. eu não sei.

Eu já esqueci de ir trabalhar.

Eu já esqueci o dia do aniversário de uma amiga, mas lembrei em cima da hora e saí correndo pro bar onde ela estaria. Cheguei lá e não tinha ninguém. Errei o dia.

Morro de medo de esquecer a Alice dentro do carro. Eu tenho que ficar me certificando o tempo todo que ela ainda tá ali ou que eu já deixei ela em outro lugar ou que ela não saiu comigo naquele dia.

Esqueço de pagar contas o tempo todo. E aí você deixa de ser apenas esquecida pra ser trouxa.

Já tentei anotar compromissos e afazeres numa agenda, mas, com esse histórico, alguém ficaria surpreso se eu dissesse que esquecia de olhar a agenda?

Esqueço de almoçar pelo menos uma vez por semana, só lembro quando bate uma dor de cabeça ou uma tontura.

Nesse momento eu tenho uma lista de 8 afazeres. Que deveriam ter sido providenciados... ontem. Esqueci.

Dia desses eu tava na livraria sendo a Louca do Batman e fiz o maior drama do universo porque o quadrinho que eu queria comprar tinha esgotado. Nossa, mas foi um drama horroroso. Vergonhoso. Cheguei em casa frustradíssima. Olhei pra minha prateleira e tive vontade de bater com a cabeça na parede quando vi que eu já havia comprado a porra do quadrinho. Quando? Não sei, não lembro.

Já paguei a mesma conta duas vezes. A parte boa é que, no cartão, você fica com o crédito na fatura e eles vão descontando.

Uma pessoa como eu que assiste Para Sempre Alice já começa a procurar o número do neurologista pra marcar consulta, porque se identifica e pensa que isso não pode ser normal.

Quando eu esqueço alguma coisa a minha Alice diz: mamãe, você é engraçada. Acho que a palavra que ela procura é "idiota", mas tal palavra ainda não faz parte do vocabulário dela.

Aí hoje eu acordei lembrando de um telefone. Quem, em pleno 2015, com celulares que fazem tudo por nós, lembra de cabeça de um telefone? Fiquei surpresa de ter lembrado. Achei que minha memória estava mudando, até que percebi que esqueci de resolver algo super importante no banco. Voltei a ser eu mesma.


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