segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sobre estar nua

Eu posso escrever sobre um monte de coisa, contar sobre as ciladas em tom de tragicomédia na mesa do bar, posso dar mil e um conselhos sobre diversas situações. Mas o que me paralisa de verdade é ficar nua para alguém. Não tô falando de sensualmente tirar a minha camiseta branca da Hering, seguida do meu jeans batido e depois me equilibrar em pé tirando meu All Star e a meia do Batman. Fico nua quando deixo cair as peças da armadura que eu precisei aprender a usar esse tempo todo.

Às vezes eu me enxergo como uma daquelas garotas insuportáveis que se acham donas da verdade. Fico me perguntando quem diabos sou eu pra dar conselhos pra alguém. Mas aí eu lembro que eu só falo daquilo que sei, daquilo que presenciei ou que vivi. E se tem uma coisa que eu vivi bastante, vocês sabem, eu não preciso nem dizer o que é. E nesses 26 anos de vida, com uns 10 de relacionamentos fodidos, eu acabei ficando calejada e criei uma armadura pra mim. A parte ruim é que ela é bem grossa e nem sempre quem está perto consegue me tocar. A parte boa é que eu não caio mais em qualquer lorota.

Usando a minha armadura eu me dou o direito de não falar sobre os meus sentimentos. Convenhamos que é uma boa forma de proteção. O problema é que, vez ou outra, você encontra alguém que deseja tocar, com a qual deseja falar sobre sentimento porque ela despertou algo que você não consegue mais guardar. Mas, assim como a armadura não deixa que outras pessoas me toquem, não me deixa também tocar outras pessoas.

A sensação é a mesma de quando você tem uma piscina de água gelada na sua frente. Você quer pular e sabe que tá fria pra cacete. Pode não estar tão frio quanto você imaginava; uma hora você acaba se acostumando com o frio. Ou você pode nadar até a borda, sair correndo de lá e talvez o vento que você vai enfrentar depois que sair da piscina seja realmente paralisante e faça você não querer enfrentar uma piscina daquelas novamente.

Mas aí, tô lá, eu, de armadura. Pesada pra caramba, às vezes. Analisando se vale a pena a trabalheira por causa daquele toque. Um passo pra frente, um pra trás, tiro uma peça por vez. Um ritual de autoconhecimento e de planejamento, porque o "e se der errado?" não sai da cabeça. Mas tô ali. Sigo porque, afinal, já tirei boa parte do equipamento e poxa, é bem mais leve andar sem ele. Respiro fundo porque só falta a última peça. Afasto o pensamento de como eu estou vulnerável no momento e posso me machucar feio de novo. Fecho os olhos e penso que não tem volta. É agora. Tirei.

- Cara, eu gosto de você. Muito.

E aí eu tô nua e percebo que caí naquela piscina de água gelada. O coração acelera, falta ar, eu não consigo encostar o pé no chão e vejo que me joguei em algo muito mais fundo do que eu imaginava. Estou sozinha e nua, tremendo, no escuro, falhando miseravelmente na tentativa de segurar o choro, escutando apenas os ecos conflitantes dos meus pensamentos, que alternam entre "olha a merda que você fez" e "não desiste!". Eu não sei nadar, tô ficando desesperada. Eu tô nua, alguém me socorre!

É solitário o momento de dizer que gosta de alguém, sem saber se a pessoa vai te jogar um bote salva-vidas e te esperar na borda com uma toalha ou se vai dizer "Ow, pra que tu pulou? Tô indo embora, não quero me molhar". Quando se usa uma armadura por muito tempo, a impressão é de que as pessoas não querem se molhar e você, tonta, vai se afogar. Não seria a primeira vez.

Tá frio aqui. Sigo esperando meu bote. 

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