sábado, 23 de maio de 2015

# família # ser mãe

Luz
















Dia desses faltou luz no prédio. E, não importa quantos anos eu tenha, eu sempre vou lembrar dos meus avós e da casa deles.

No momento em que ficava tudo escuro era normal ouvir a vizinhança "comemorando". Comemorando não sei o que. Mas que havia urros e assobios, disso eu tenho certeza. Aí a minha avó ligava para a CEB. Nunca vi qualquer tipo de retorno dessa ligação, como a luz voltando imediatamente ou alguém aparecendo para resolver o problema. Lá pela 3ª ligação, meu avô afirmava que não era pra ligar mais, pois eles tinham "tirado o telefone do gancho" de tanto que minha avó havia ligado.

Logo depois das ligações meu avô costumava queimar palha benta, que eram galhos de árvores e plantas quaisquer benzidas no domingo de ramos, se não me engano. De acordo com ele, isso iria afastar a possível chuva que derrubou um poste em algum lugar. (Meu avô morria de medo de chuva).

Pouco a pouco a vizinhança começava a aparecer nas portas das casas atrás de algum movimento. E aí os vizinhos se juntavam para contar os seus causos, as últimas fofocas, história de gente que morreu ou da menina que assombrava o parquinho e gostava de brincar nos brinquedos do parquinho de madrugada. "Eu vi uma menina loirinha toda de branco no escorregador ontem de madrugada". "Ficou sabendo que a fulana botou o marido pra fora de casa?" "E o filho da siclana que foi preso com drogas?".

Quando o assunto do presente acabava, era a hora dos assuntos do passado. E assim, os mais velhos contavam como era a vida deles sem energia elétrica. Depois contavam da época que se mudaram para as casas em que moravam. "Quando a gente chegou aqui, era tudo mato". Depois vinham as histórias sobre as estrelas e os nomes delas. Se a luz não voltasse, todos iriam dormir no silêncio, olhando para o teto, ou pensando na vida. E sem banho.

Como eu disse, faltou luz por aqui. Não teve mágica, não teve comemoração, ninguém sentou na calçada pra contar as fofocas do vizinho. O que eu tive que fazer foi explicar pra Alice porque a TV não ligava, porque não tinha internet, porque ela não podia acender a luz. A energia elétrica e a internet são coisas tão presentes na vida dela que foi difícil fazer com que ela entendesse o conceito de "acabar" a luz. Não sei se consegui. Mas até que ela curtiu a parte de ficar sem banho.

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