segunda-feira, 20 de abril de 2015

# ser mãe

Kate e Marie















Eu não era fã de brincar de boneca quando criança. Não entendia muito bem a lógica de tratar um brinquedo como se fosse gente, de conversar com ele se ele não respondia. Achava que fazia papel de idiota falando com ele e eu mesma respondendo. Talvez eu fosse uma criança meio chatinha, mas isso não vem ao caso.

Alice adora brincar de boneca e isso me faz sofrer um pouquinho porque ela me chama pra brincar e eu fico tipo "ah nem, vamos desenhar ou ver TV". Ela brinca num jeitinho todo Alice de ser.

- Alice, o que a sua boneca te disse?
- Nada. Ela é uma boneca e não fala.

- Alice, sua boneca não tá com fome?
- Boneca não é gente, ela não come.

- Alice, qual o nome da sua boneca?
- Boneca.

Acho que ela fazia isso quando eu me intrometia na brincadeira. Era só eu virar as costas que ela voltava para o mundo dela, fazendo várias vozes diferentes, uma para cada boneca e/ou brinquedo participante no momento. Mas isso mudou há alguns dias.

- Mamãe, cadê a Kate?
- Quem é Kate, Alice?
- Minha boneca, ué.

A boneca agora tem nome. E ela tem uma irmã, a Marie (se fala Marrí). Não, não sei de onde ela tirou esses nomes. Talvez Marie seja por causa da prima. Mas Kate, não faço ideia.

A parte legal de ver as crianças brincando de faz de conta é que elas costumam representar aquilo que vivenciam e presenciam na "vida real". Chega a ser um espelho das relações dela com as outras pessoas. Por isso fiquei espantada quando ela me contou que Kate e Marie tinham brigado feio e "uma não está olhando na cara da outra". Fiquei me perguntando se a professora estava colocando a turma pra assistir Casos de Família durante a aula.

No outro dia, quando estávamos entrando no carro ela me confidenciou que estava muito cansada porque a Kate tava dando trabalho pra comer. A minha reação, muito madura por sinal, foi dizer: "Hummmmmm é mesmo? Quer dizer que cansa né quando a nossa filha dá trabalho pra comer né".

Aparentemente, Kate não é fácil. Mãe Alice passou o trajeto tentando se entender com a filha Kate.

- Kate, você precisa pôr o cinto.
- Kate, não põe o pé no banco.
- Kate, você tem que obedecer, tá ficando difícil.
- Kate, por favor!

Tive que olhar pro outro lado e controlar a gargalhada, porque ela estava me imitando. Por um lado eu fiquei meio preocupada porque eu não sei se a Kate realmente estava dando tanto trabalho que fosse proporcional à bronca, o que poderia insinuar que eu brigo demais com ela. Por outro, eu pude ver que eu "brigo" por coisas normais e objetivas, não pratico nenhuma daquelas coisas horríveis que alguns pais fazem em denegrir a imagem da criança.

Se nesse exercício eu pude enxergar como eu me comporto com ela, espero que ela tenha sentido na pele o que é ter uma filha que quer obedecer apenas às próprias vontades. Mãe Alice, você sabe como eu me sinto agora. Vamos praticar um pouco de empatia, faz favor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário