sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sobre cartas secretas, diários e aniversário atrasado

Acordei cantando uma música que compus com umas amigas e minha irmã na nossa época pré-adolescente de amores platônicos e provavelmente não correspondidos.

Quando te vejo
Me fascino pelo seu olhar
Fico nas nuvens
Adoro te amar
Você não me nota
Fico toda descontrolada
Isolada do mundo
Eu nunca soube o que é amar de verdade
Você é minha cara metade
Quando cheguei perto de você
Olhei pra você e você pra mim
Não tive coragem de dizer
Te amo
(acho que tinha uma parte que dizia não tive coragem de te dar um beijo, mas não me lembro onde)

A letra foi escrita numa folha de um caderno qualquer de uma matéria subutilizada na escola. Para guardar a composição, nós escondíamos a folha dentro de um urso de pelúcia. Mas às vezes a gente curtia o perigo  e levávamos para onde estivéssemos indo. Certa vez, o papel caiu do bolso de alguém e o desespero foi geral. Achamos na semana seguinte, dentro do carro da minha tia. O carro tinha sido lavado e eu fiquei imaginando o cara do posto dando gostosas gargalhadas às nossas custas e depois entregando a obra nas mãos da minha tia que, constrangida, tinha jogado o papel dentro do carro novamente para uma de nós achar.

Essas e outras escrituras secretas também foram guardadas no buraco da árvore que nós costumávamos subir, como cartinhas de amor recebidas e uma outra letra de música que falava sobre o volume incomum que um garoto tinha na bermuda da escola.

Secreto também, eram os meus diários, mas que eu fiquei meio traumatizada de escrever depois que, certa vez, meu irmão ameaçou entregar meu diário para o garoto que eu gostava. Não foi uma ameaça discreta, já que ocorreu no meio da rua, na frente dos meninos que estavam brincando na rua. Claro que o garoto-alvo ouviu. Fiquei desesperada, mas tentei manter a pose. No que eu considerei uma saída discreta, fui em casa ver se o diário ainda estava escondido. Estava. Mas, naquele momento, eu havia revelado o esconderijo para o meu irmão, que estava na porta. Ele puxou o diário da minha mão e levou para o garoto. Eu não tive outra alternativa, a não ser chorar um pouquinho e depois acompanhar a leitura e evitar qualquer má interpretação, além de garantir que o garoto que eu gostava e estava lendo meu diário não percebesse que às vezes eu não estava falando dele, mas do outro garoto que eu gostava.

Depois dos monólogos nos diários, vieram as cartas trocadas entre amigas. Como a gente escrevia. Muitas confissões foram feitas em folhas de fichário, escritas com caneta colorida e cheiro artificial de fruta. Às vezes era complicado ler e escrever na escola porque tinha sempre um engraçadinho de butuca. Um irmão meu chegou a ler algumas cartas escondido. É, meus irmãos não davam sossego mesmo.

Relembrando todo esse pavor de descobrirem o que eu penso e o que eu sinto, dessa necessidade do segredo eu percebo que hoje eu tô aqui, contando publicamente meus pensamentos, os desamores, as ciladas desde 31 de janeiro de 2012, escrevendo coisas que a Ericka garota não teria coragem nem de admitir em voz alta. Teria sido mais legal se eu tivesse lembrado do aniversário do blog na data certa, mas antes tarde do que nunca. Aos que me aguentam há 3 anos, o meu muito obrigada. A quem chegou agora, fica à vontade, a casa é sua.

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