terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

# Desafio Literário

É assim que você a perde - Junot Diaz

Terceiro livro do Desafio Literário: um livro de contos















Eu não costumo trocar presentes. Desde o meu aniversário de 16 anos em que eu troquei absolutamente todos os presentes que ganhei. Todos. No fim das trocas eu fiquei me perguntando o porquê de ter feito tudo aquilo. Não eram vales-presente que eu havia ganhado e que eu deveria voltar na loja e escolher algo que eu queria. As pessoas haviam usado tempo, dinheiro e talvez até um pouco de criatividade pra pensar em algo que eu fosse gostar. Tinha significado. E assim eu decidi que não trocaria mais presentes. Porque é uma forma de ver como as pessoas me enxergam e porque é uma forma de respeitar o trabalho que elas tiveram. é assim que você a perde eu ganhei de um colega de trabalho, num amigo oculto no fim do ano passado. Mesmo sem saber do que se tratava, quem era o autor, nem pensei em trocar. Só quis mergulhar nessa experiência que o moço quis que eu vivenciasse. E assim foi feito.

Yunior, personagem e narrador do livro, é um cara que toma muitas decisões equivocadas e que, por isso, perde muitas pessoas especiais que passaram pela vida dele. É como aquele namorado imbecil que consegue estragar um namoro que vai muito bem com uma traição sem sentido e sem significado. E aí você pergunta pra ele o motivo de ter feito aquilo e nem ele sabe ao certo explicar. Este é Yunior. 

O personagem, que nasceu na República Dominicana, em Santo Domingo (assim como o autor), mudou-se com a família para os Estados Unidos quando era criança. O local que ele nasceu mas que talvez tenha poucas lembranças é quase um guia de caráter e de vida não só para Yunior, mas para todos os imigrantes que atravessaram a fronteira em busca de uma vida melhor, ou apenas em busca de outra vida. Mostra muito daquela segregação cultural e racial que a gente costuma ver nos filmes. Além do preconceito em cada estereótipo de cada "tipo" de latino, de negro, de branco.

A capa do livro, branca, com o título em vermelho e um grande coração, como se tivesse sido pintado com tinta, tudo em alto relevo, me fez imaginar alguma dessas tragédias amorosas em que o personagem sofre pela amada e tenta recuperar o amor dela a qualquer custo e tudo fica bem no final. Não é. Yunior é mestre da autossabotagem. Ele tá bem, ele faz merda, ele nada na merda que fez, tenta sair da merda, sai todo sujo e tenta ficar bem de novo. Até que faz merda.

Uma das coisas que me atraiu no livro foi a forma que o autor escreve. Ele não é dado a dois pontos, travessões, ponto final, letra maiúscula, aspas e essas formalidades todas. Tem pensamento misturado com diálogo, diálogo com pensamento. Acho que o fato do personagem ser também o narrador (que fala com você, que fala com ele mesmo, que às vezes é apenas narrador) abre essa possibilidade. Além disso ele usa muitas expressões da cidade natal, o que dá aquele toque de latino-ganhando-a-vida-na-américa, que mistura inglês e sua língua materna.

O livro é composto de nove contos que podem até ser lidos aleatoriamente. Juntos, formam a vida de Yunior, o cara que queria ser escritor, mas a vida aconteceu.

Este livro faz parte do Desafio Literário 2015. Se você pegou o bonde andando, pode ler sobre ele aqui

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