sábado, 10 de janeiro de 2015

# batcaverna

Morando em Águas Claras você sabe como é

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Superlua, em setembro de 2014. Se a foto ficou boa, eu assumo que é minha. Se não ficou eu vou inventar que peguei no Google.

Quando eu mudei para essa cidade (ou bairro, ou Região Administrativa, nem sei mais como os Correios e o governo nos identificam), aqui era tudo mato. Não, na verdade não era pra tanto. Essa é só uma expressão que meu avô gostava de usar pra dizer que ele tinha visitado um local nos momentos anteriores à civilização. Quando meu avô esteve no território ocupado por Águas Claras, uns 40 anos atrás, ele trazia minha mãe e minha tia pra tomar banho nos lagos (de "águas claras", suponho eu) que aqui existiam. Quando eu mudei não era tudo mato, mas a minha rua era toda no barro e não havia iluminação pública.

Lembro que a referência que eu dava para os forasteiros chegarem até minha casa era "virar à direita no primeiro semáforo da rua principal". Era o único semáforo da rua principal. Quando eles adentravam nossa humilde residência, havia um constrangimento mútuo: o deles, ao sujar o chão branco com a lama da rua; o nosso de morar cercado por lama e potencialmente estragar o sapato da visita. Eram vários minutos de pedidos de desculpas até que ficasse acordado que ninguém era culpado pela lama, enquanto alguém limpava as pegadas.

As coisas evoluíram. Água pluviais, iluminação pública, sinal de celular que não se perde dentro do shopping, ônibus regulares pra várias cidades e o que eu considero ser a maior concentração de restaurantes de comida japonesa das redondezas. Poderia até dizer do DF, mas isso exigiria de mim um conhecimento que eu não tenho. A estatística é minha mesmo. Tem também comida árabe, mexicana e umas barraquinhas de cachorro quente aqui e acolá. Mc Donalds, Burguer King e Subway já chegaram por aqui também.

Falando em barraquinha, tem um cara que, há anos, vende pamonha na porta do metrô. Ele entoa a mesma ladainha todo santo dia. "Olha a pamonha de sal, de doce, queijo e pimenta, pamonha fresquinha! Eita, pamonha saborosa!" E termina com "Gente, vamos organizar essa fila, não precisa empurrar", mesmo sem ter qualquer fila.

Eu poderia estar descrevendo algum lugar no interior, mas esta cidade, de acordo com o último Censo, conta com uma média de renda per capita de R$ 10 mil. Existem vários apartamentos que já custam mais de R$ 1 milhão ainda na planta. Há uma mini bolha dos que se acham melhor que os outros pelo que possuem. É engraçado ver que, com o passar dos anos, os moradores novos respondem cada vez menos aos meus bom dia e boa noite. A impressão é que eles se acham muito importantes pra isso. Foi nessa mesma vizinhança que uma garotinha não quis brincar com a Alice porque ela não tem um iPhone. Lembrando que Alice tem 4 anos, só pra completar o absurdo. Foi aqui também onde eu ouvi pessoas falarem que a Lei das Domésticas era um abuso, que elas eram folgadas e tinham direitos demais. Há um certo prazer em estourar essa bolha de vez em quando dizendo algo como "A moça que trabalha na sua casa pode até ser folgada,  o que eu nem acredito que ela seja, mas existe gente no Brasil que trabalha por um prato de comida por dia, então essa lei é bastante adequada e necessária".   

Falando em empregada doméstica, o que tem de babás por aqui não é brincadeira. É só sentar no banco do parquinho que é possível identificá-las. Normalmente o grupo já se conhece por estar no local todos os dias no mesmo horário. Quando aparece gente nova (tipo eu) elas ficam se olhando e eu reconheço a interrogação do "É babá ou é mãe?". Quando eu digo que sou mãe elas logo questionam o porquê de não ter uma babá e indicam suas conhecidas que "são ótimas com criança".

Certa vez uma babá me contou um causo. Era época da Copa e ela disse que os patrões dela tinham a convidado pra ir assistir ao jogo da seleção brasileira em Salvador. Claro que não foi gentileza, era pra ela olhar o filho pequeno, mas enfim. Ela disse que não iria. De acordo com a moça, uma criança pastora havia revelado para o pastor da igreja dela que iria acontecer uma tragédia durante a Copa, dentro de um estádio. E que provavelmente era com a arquibancada, que cairia. Depois disso, a menina pastora teria morrido.  A moça não quis correr o risco. Hoje eu imagino que a tragédia não era na arquibancada. Era no campo com o 7x1. Mas, vida que segue.

Águas Claras é uma cidade (ou qualquer um daqueles nomes) de violência aleatória. Como quando durante 2014 inteiro um Ford Fusion ficou estacionado na minha rua (sem estar trancado!) e ninguém mexeu, mas a minha cunhada estacionou numa rua atrás do shopping por meia hora e teve o carro arrombado. Faço o trajeto casa-metrô todos os dias e nada me aconteceu, mas dia desses, cinco ruas acima, uma senhora foi estuprada fazendo o trajeto casa-metrô dela. Aqui o pessoal corre no parque até os últimos minutos para os portões se fecharem e voltam pra casa andando, o que é difícil de ver e de ser feito em outras cidades.

Aqui ainda é um lugar um pouco desconhecido para o pessoal que mora pras bandas de lá, mas é o meu dever, como moradora, de mostrar os encantos da cidadezinha tão cheia de restaurantes, tão cheia de prédios, com metrô na porta e um parque lindo (tem até pato, pra quem gosta), e um ótimo lugar pras crianças, com custo benefício melhor que das outras cidades que são wanna be Plano Piloto, que tem garagem pros carros, que tem piscina nos prédios, academia em todo canto e gente, vem beber aqui em casa, vem morar aqui. É assim que eu produzo boas memórias nas visitas e faço com que elas voltem. 

Mas se alguém vier pra cá de metrô, poderia, por favor, comprar a pamonha do moço e dizer se ela é saborosa mesmo? É pura curiosidade, já que nem de pamonha eu gosto. Mas eu torço pelo empreendedorismo e pelo sucesso do comércio local. Quem sabe um dia exista realmente uma fila de compradores pra ser organizada.

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