segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

# família

A venda do Carlinhos

Minha avó tinha um caderninho de pendurar conta na venda do Carlinhos. Lá ele anotava tudo que minha avó comprava e, em algum momento do mês, ela acertava o valor devido e logo abria outra conta. Uma relação duradoura.

Na venda do Carlinhos tinha de tudo um pouco. De carne moída a prego pra consertar as Havaianas que arrebentavam. De macarrão a caderno. De biscoito de doce de leite a linha. Era um salva vidas quando sobrava mês no fim do dinheiro.

Eu achava incrível a confiança que esse caderninho exigia um do outro. Ele, de não acrescentar nada que não havia sido levado. Ela, de honrar o compromisso de pagar a dívida todo mês. Um dia, minha avó não voltou pra acertar a conta. Ela já estava acertando suas outras contas nas instâncias divinas e sobrou pra quem ficou por aqui acertar o resto. Lembro de ter visto o Carlinhos chorar enquanto minha tia assinava o cheque.

De repente fiquei na dúvida se tinha sido minha tia ou meu avô quem pagou a conta. Aí passei a duvidar se eu tinha visto o Carlinhos chorando, se era cheque e se eu realmente tinha presenciado essa cena. De repente eu me toquei que faz quase 15 anos que minha avó morreu e que eu não consegui manter todas as lembranças.

Minha avó era uma mulher foda. E eu me acho no direito de usar esse palavrão porque todos os que eu conheço e falo hoje, eu ouvi saindo da boca da Dona Iracema, minha avó, em algum momento. Ela e meu avô construíram a casa em que moravam com as próprias mãos. Pintava a calçada de verde e amarelo em toda Copa. Teve três filhos. Viu e criou três netos. Hoje seriam cinco no total, além de uma bisneta. Fico me perguntando como seria a relação com as crianças que ela não conheceu, ou como seria com os netos crescidos. Era uma tortura ter que ir embora da casa dela. Hoje, quando a Alice abre o berreiro porque quer ficar na casa da avó, eu me lembro que fazia a mesma coisa 20 anos atrás e tento entender o lado dela.

Se eu gosto de Copa e de Olimpíadas hoje, foi por influência dela. Se eu joguei vôlei por 7 anos da minha vida, com certeza foi por influência dela. Dona Iracema transformava as festas de fim de ano em algo mágico. Mais do que os especiais de fim de ano da Globo, mais que as propagandas da Coca Cola.

Era uma matriarca. Pegava o salário do meu avô e administrava cada centavo. Não tinha vaidade. Usava camiseta de político se quisesse. Não pintava o cabelo e xingava muito quando tinha que usar dentadura em algum evento social. Ela cuidava tanto e tão bem de todo mundo que, quando ela morreu, todo mundo precisou amadurecer um pouco, já que não poderiam mais contar com os superpoderes da vó.

Lembro que não fui ver minha avó no hospital. Tive medo de chegar lá e ver um ser humano frágil como qualquer outro. Eu achei que fosse me sentir culpada com a minha atitude infantil, por não ter me despedido dela, como todos fizeram. Mas eu não fiquei. Tive o prazer de ter todas as imagens boas dela. Imagens que eu tô esquecendo, infelizmente. Mas certas coisas ficam marcadas na alma, muito melhor que confiar na memória. O que eu me arrependo mesmo foi de nunca ter comido a rabanada que ela fazia. Eu confundia rabanada com rabada e não chegava nem perto do que eu considero hoje ser uma das melhores coisas do natal.

Vó, se hoje eu como rabanada até passar mal, é em homenagem a você.


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