domingo, 2 de novembro de 2014

# amizades

Um banheiro pra chamar de meu

Pessoas que não fazem xixi e cocô em qualquer lugar passam por vários apertos. Eu sou uma dessas pessoas. Não me orgulho. Queria ser dessas meninas que conseguem abaixar atrás do carro e fazer xixi na angulação correta pra não molhar a calcinha nem deixar escorrer pelas pernas. E de modo tão eficiente que provavelmente ninguém tenha tempo de ver qualquer coisa. Me pouparia alguns problemas. Também deve ser legal ser homem e ter equipamento pra poder mijar dentro de uma garrafa, se for necessário.

Tipo dia desses. Estava com uns amigos na porta de uma festa e deu aquela vontadezinha de mijar. "Faz aqui no cantinho, ó", disse um amigo. Mas eu, versada na arte de segurar xixi pensei que era completamente desnecessária tamanha medida desesperada. "Vamos entrar, eu faço lá dentro". Acontece que a fila da entrada estava simplesmente enorme. "Ih, caralho" foi o que eu pensei. E, naquele momento, eu comecei a concentrar as minhas energias em não mijar na roupa.

- Caralho, eu preciso mijar.

- Calma, a gente já tá chegando.

- Eu tô calma.

- Pensa em coisas sólidas. Monte Rushmore. [hahaha eu amo meus amigos, sério]

- Se eu mijar na roupa, na porta da balada, vocês ainda vão me amar?

- [...]

Naquele momento eu já estava arrependidíssima de não ter feito no cantinho sugerido anteriormente, mas ele já não era mais opção, porque eu não conseguia andar. O que eu fazia era dar alguns passos com as pernas cruzadas com a maior força que eu tinha. As lágrimas escorriam pelo meu rosto sem que eu pudesse controlar. É claro que ter contato com qualquer coisa líquida não ajudava. Pensei em recorrer a algum santo dos desesperados pra fazer uma promessa. Mas o desespero era tanto que eu não conseguia pensar em nenhum, nem formular uma promessa. Eu não tinha condições de formular uma frase.

Passamos pela entrada e, enquanto a moça fazia o meu cadastro, eu me contorcia e chorava copiosamente. A moça do caixa perguntou se eu estava bem e eu respondi com o resto de força que me restava: "Eu preciso ir ao banheiro". Ela ficou tocada com o meu desespero e tentou fazer tudo o mais rápido o possível. Mas, nessas horas, nada é rápido. O leitor de impressões digitais resolveu que não conseguia ler a minha. Uma, duas, três vezes. Até que a moça começou ela mesma a colocar meus dedos incontáveis vezes no leitor. Deu certo.

Entrei na festa e uma força e rapidez que eu não conhecia tomaram conta de mim. A festa já estava cheia de gente e eu corria como uma maluca procurando o banheiro, já que os seguranças não sabiam informar onde ficava. Trombei com pessoas, fiz malabarismos, derrubaram bebida em mim, mas nada importava. Eu não estava raciocinando. Era apenas o instinto de sobrevivência agindo.

Em algum momento eu encontrei. Lá estava a porta do banheiro. De longe, eu via o meu amigo, que acompanhou todo o meu sofrimento na fila, me apontando o caminho da felicidade, como quem diz: "vem!". E eu fui. Corri. Entrei no banheiro derrapando no chão úmido. Entrei numa cabine que não tinha fechadura, então assim que me agachei (não se pode sentar, não se esqueçam disso) a porta abriu e eu fiquei vulnerável, naquela posição constrangedora. Mas eu liguei? Não. Eu estava feliz, aliviada. É bem possível que eu estivesse sorrindo de olhos fechados enquanto aproveitava o momento.

Saí do banheiro e meu amigo estava lá, me esperando de braços abertos, para comemorarmos a vitória. Corri, me joguei nos braços dele. Talvez ele tenha me girado. Talvez não. Era um momento tão mágico que eu não tenho certeza do que aconteceu mesmo e o que foi delírio. Mas eu sobrevivi. Sem passar (muita) vergonha.

Queria poder dizer que eu aprendi a lição, mas como eu já passei por essa situação outras vezes, não só com xixi, eu sei que, a qualquer momento, vai acontecer de novo.

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