domingo, 16 de novembro de 2014

# família

O monociclo

Eu não sei em que momento da infância eu aprendi a andar de bicicleta. Lembro que a minha primeira era rosa e que eu pentelhava muito meu pai pra que ele tirasse as rodinhas. Eu achava que não precisava delas. Meu pai, sabendo que eu ainda precisava, demorou um pouco pra me atender. Mas acho que eu pedi tanto que uma hora ele resolveu tirar. Devo ter caído bastante até aprender.

Tenho várias lembranças. Como da vez que meu pai carregou a minha bicicleta e a da minha irmã nos ombros e, por alguns segundos, eu achei que ele fosse o Superman. Era a única forma de explicar ele estar carregando bicicletas nos ombros sem qualquer dificuldade. Teve também a vez em que eu estava apostando corrida e me achava muito adulta pra usar os freios. Preferi fazer um drift. Mas, no meio do caminho tinha uma pedra. Foi assim que eu ganhei um machucado enorme no queixo. Parecia uma barba. Superei o bullying com muita maturidade dizendo: "HA HA que engraçado" pra todas as piadas.

Talvez eu tenha apenas passeado de bicicleta por um bom tempo da minha vida. Até que, num certo momento, me fizeram trocar a bicicleta por um monociclo. Cara, que desespero. Nunca soube andar de monociclo. Eu nem queria andar de monociclo! Na verdade eu estava me preparando pra comprar uma aro 26, 18 marchas. Ia conquistar o mundo em duas rodas. Mas não há certezas ou segurança em cima de uma roda só. Você apenas continua pedalando porque se parar, cai. Eu não ia querer outro machucado no queixo.

Andar de monociclo foi difícil pra cacete. Vejo gente andando por aí com desenvoltura e até fazendo uns malabarismos. Eu me pergunto como é que essas pessoas dão conta. Eu tive pessoas ao meu lado durante todo o processo de aprendizagem. Mas devia ser cansativo pra elas. Imagina, ter suas próprias bicicletas pra guiar e ainda ter que tomar conta de mim. Foi aí que eu tive a ideia de colocar umas rodinhas no monociclo, iguais as da minha primeira bicicleta. E até que deu certo. Eu não cairia pros lados, mas ainda não podia parar de pedalar.

Até que eu consegui ser bem sucedida na Missão Monociclo. Às vezes aparece alguém perguntando como eu dei conta ou pedindo dicas porque tem certeza que não vai conseguir. Eu respondo: "Olha, vai pedalando, não para. Se eu consegui, você também consegue, com certeza".

Lembro que na transição do monociclo eu tive uma bicicleta bem simples, sem marcha nem nada. E bem, vez ou outra uma ladeira aparecia no meu caminho. Era meio foda subir sozinha. Mas eu tava lá, no meu ritmo. De vez em quando aparecia alguém propondo ajuda. Mas essas pessoas não davam conta das próprias bicicletas, é claro que não iam me aguentar também. Por isso muitas ficaram pelo caminho. Ou porque pararam pra descansar, ou porque decidiram voltar pra base da ladeira. Eu não me arrependo de não ter parado porque eu ganhei experiência e pernas grossas maravilhosas que não me abandonam na hora do aperto da subida.

Hoje em dia eu ando de bicicleta elétrica. É bem confortável. A parte ruim é que ela te deixa meio mal acostumada, sabe. Não tem muita aventura. Não tem corrida, nem drift. Só que tem morro ali na frente, me encarando. Tá me chamando pra curtir uma trilha. Quem sabe até fazer umas manobras de bicicross. Depois de tanta luta desde a época do monociclo, eu acho que dou conta. Talvez esteja chegando a hora de encostar a elétrica por uns tempos e comprar aquela 18 marchas que eu queria.

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