sexta-feira, 28 de novembro de 2014

# amizade # família

Diário de Viagem - Rio de Janeiro - A responsabilidade

É meio desesperador ser a adulta que tem que fingir segurança pra alguém quando se tem medo de avião. Alice lá, feliz da vida porque ia conhecer a praia e eu há duas noites sem conseguir dormir direito pensando que eu ia entrar num avião. É idiota? Sim. Mas é a vida. Respirei fundo, botei meus óculos escuros pra esconder o olhar de pânico e fui.

Passada a viagem de avião mais tranquila que eu já presenciei, começaram os outros desafios. Ser uma adulta 100% responsável por uma criança. Não ia ter minha mãe pra ficar com ela enquanto eu dou uma voltinha, não ia ter meu pai pra ficar com ela enquanto eu durmo um pouco, não ia ter minha irmã pra fazer as brincadeiras que eu não tenho paciência. Não me lembro se nós já havíamos ficado grudadas assim por tanto tempo, sem revezamento com outras pessoas.

Não sei como funciona com as outras mães solteiras, mas comigo é: eu enfrento o que tiver que enfrentar e, depois que passa, eu xingo, desabo, grito, choro, me acabo. Foi assim que eu carreguei duas malas e uma criança que insistia em tirar um cochilo toda vez que entrava num ônibus. Na volta, dentro do aeroporto, a Alice resolveu que não queria usar mais os tênis. Ficou sapateando de meia pelo saguão enquanto a companhia aérea resolvia onde nos colocaria depois de ter cancelado nosso voo. Eu simplesmente aceitei que aquela meia ia parar no lixo e não me preocupei. Até que ela se cansou e eu tive que carregar a criaturinha de cavalinho nas minhas costas porque as poucas duas mãos que eu tenho estavam ocupadas com as malas. A cena deveria estar engraçada, já que muita gente ficou olhando. Saldo desse peso todo: dores no quadril, dores na coluna, dores de cabeça, dores no pescoço. Eu disse, não tenho mais idade pra isso. Como eu dei conta? Não faço ideia.

Éramos nós duas fazendo uma viagem que nunca havíamos feito, numa cidade que não conhecíamos. Isso me assustou um pouco. Tinha tudo pra dar errado, todos os ingredientes para que uma mãe sem dom de ser mãe falhasse miseravelmente. Mas, de um modo geral, eu posso dizer que, se fosse um jogo, eu teria conquistado um troféu. Tivemos nossos vários momentos de briga, mas nada que superasse a alegria de vê-la gritando de emoção quando a onda gelada molhou seus pés pela primeira vez, ou ouvi-la dizendo, o dia todo, mesmo agora que já voltamos pra casa, o quanto ela me ama. "Você sabe, né? Você sabe o quanto eu te amo né?". Isso não tem preço.

Em alguns momentos eu só pensava que minha mãe, se estivesse ali, me mataria. Como no dia que nós almoçamos picolé, quando eu esqueci de passar repelente nela e ela só não foi carregada pelos pernilongos por pura sorte, ou ainda o dia que eu não espalhei direito o protetor nas costas da criança e ela ficou com várias marcas brancas dos meus lindos dedos nas costas bronzeadas. Mas sobrevivemos, isso que importa.

Quando chegamos em casa, com quase 3 horas de atraso, a sensação era de esgotamento total. Eu já estava delirando de cansaço. Abri a porta e começou a tocar We Are The Champions na rádio mental, enquanto eu queria beijar o meu chão como o Papa fez, além de entoar um mantra de "não há lugar como nosso lar", como a Dorothy.

Minha televisão, meu sofá, meu computador, meu banheiro, minha cama... ah, cama maravilhosa, que saudade de você. Alice olhava em volta e só dizia: "que saudade que eu estava da nossa casinha, das nossas coisinhas". Dormimos abraçadas durante horas. Depois recebi uma mensagem da amiga carioca que me hospedou. De algum modo, eu e Alice acendemos o fogo da maternidade nela. Quase rolou uma lagriminha, sabe. Fiquei feliz por ela e também por mim porque, aparentemente, eu fiz quase tudo direitinho.

Você leu a primeira parte? Não? Tá aqui, ó

Nenhum comentário:

Postar um comentário