terça-feira, 21 de outubro de 2014

# retrospectiva

Vinte e seis

Aniversário é uma época de análise, né? Se não é pra você, deveria ser, eu aconselho. É bom olhar pra trás e ver como é bem provável que nada daquilo que você planejou saiu como esperado.

Volto uns cinco anos no tempo e percebo que eu sou uma pessoa bem diferente do que eu era e bem diferente do que eu imaginava que seria. A garota que queria fazer as malas e partir pra Nova York a qualquer custo deu lugar a uma mulher com casa, carro, filha, "emprego estável" e, vez em quando, uma vontade louca de ter um gato e um cachorro. A garota que não queria ter endereço, ser uma autêntica cidadã do mundo, hoje em dia tem uma caixa de correios onde as contas não param de chegar.

Aos 26 anos eu soprei as velas do meu bolo do Batman e meu único pedido foi: garota, sem decisões equivocadas daqui pra frente. Acho que já era hora. Demorei alguns anos pra perceber que era muito equivocado se deixar levar pelos sentimentos. Seja ele raiva, seja ele amor. Aquele ditado que diz que o ódio é um copo de veneno que nós tomamos esperando que o outro morra é a mais pura verdade. Ódio é veneno. Tomar porre de veneno é uma decisão equivocada.

Na autoanálise eu me assumi como uma pessoa completamente aleatória, sem medo de ser feliz. Sou dessas que sai de casa tocando guitarra imaginária com Foo Fighters e volta segurando o quadril pra não dançar arrocha no metrô. Sou dessas que curte fossa ouvindo o quarteto Só Pra Contrariar, Raça Negra, Nina Simone e Frank Sinatra. Sim, todos juntos. Uso vestido com Allstar e as pessoas olham como se fosse revolucionário (não é, gente). Sou o tipo de amiga que aconselha, briga, dá colo e começa a zoeira, tudo ao mesmo tempo. E não pode reclamar, é o pacote completo. Sou muito tímida mas não tenho medo de falar o que penso e o que sinto. Passo a maior parte do tempo dando respostas secas, de cara fechada ou fazendo piadinhas idiotas, mas sou muito chorona. Quando me fizeram surpresa de aniversário no trabalho e eu encontrei a minha mesa toda decorada com Batman, Molejo, É O Tchan e coxinha eu simplesmente caí no choro. "Ela é humana!", disseram.

Cheguei aos 26 com carinha de 16 e eu não sei se vejo vantagem nisso. É por causa da cara de novinha que eu ouço:

- Você é estagiária?

- Nossa, tão nova e já com filho!

- Esse cartão de crédito é seu?

- Estão contratando Menor Aprendiz aqui?

- Menina, você é maior de idade? Identidade, por favor.

É por causa da cara de menor de idade que os caras evitam chegar nas baladas. Ou isso ou é a cara de brava. Não sei, quem tiver uma resposta mais concreta, a caixa de comentários tá aí. Acho muito mais fácil falar que é isso do que confessar a minha inaptidão pro flerte.

Foi aos 26 que eu descobri que tem um montão de gente que me usa como exemplo e eu fiquei meio chocada, sabe. A minha vontade é dizer pra esse povo: gente, não me segue, não. Eu também tô perdida. Acordo todos os dias e tenho que repassar o dia anterior pra ter certeza que não tomei nenhuma das decisões equivocadas, que não dei nenhum passo maior que a perna. Mas, ao mesmo tempo, é um afago na alma. Gosto de poder dizer pras pessoas: ó, tá uma merda agora, mas vai ficar tudo bem, tá? Se eu dei conta você também dá. E nem é tão difícil assim. Vejo pessoas inventando certas condições ideais pra poder dar o próximo passo na vida. Só que as condições ideais vão chegar sabe quando? Não vão. É provável que você tenha que criar essas condições ou seguir a lógica do "é o que tem pra hoje". Muitas pessoas empacam no meio do caminho. Custa nada dar um passo na penumbra de vez em quando, em prol de um bem maior.

1/4 de século e mais 365 dias vividos e eu quase entrei numa briga com um cara, já bati boca com um ladrão que tentou roubar o celular de um namorado (e ele não conseguiu levar o celular), nunca bati o carro, saí da faculdade sem histórias loucas pra contar, já peguei um avião pra conhecer um cara que eu nunca tinha visto pessoalmente, passei muita vergonha alcoolizada, dei muito colo pras amigas (e recebi muito, também). Conheci pessoas incríveis. Umas estão comigo até hoje. Outras vieram pra deixar uma mensagem e eu sei que, assim como eu guardo um pouco delas em mim, elas guardam um pouco de mim nelas. Já chorei que nem criança num show do Só Pra Contrariar e do Raça Negra, já me acabei de dançar num show do É O Tchan, já paguei de tiete num show do Molejo. 26 anos e eu tenho receio de viajar de avião. 26 anos e faz uns 6, pelo menos, que não vou à praia por falta de companhia.

No final das contas, é essa bagunça toda que me fez viver bons 26 anos. E que venham os próximos.


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