quarta-feira, 4 de junho de 2014

# racismo # retrospectiva

O dia que eu me libertei

Bucha. Cabelo ruim. Juba. Cabelo de vassoura. Vassoura de varrer teto. Cabelo duro. Isso foi o que eu ouvi a vida inteira sobre o meu cabelo. Por mais que eu até gostasse dele, sempre tinha aquele sentimento de exclusão por ter cabelo cacheado. Odiava ir ao salão porque era só um cabeleireiro colocar as mãos no meu cabelo pra dizer o quanto ele era ressecado, indicar mil hidratações que eu precisaria fazer, ou pior, quando faziam cara feia na hora de pentear, porque “é muito embaraçado”, “ai, como é difícil, até dói o braço”.

Sempre tive cabelo comprido. Uma das razões era pra que o peso do cabelo fizesse a sua parte na gravidade e puxasse o meu cabelo pra baixo, pra que não fosse “tão volumoso”. Olha, ser criança com todas essas restrições dá um certo trabalho. Eu tinha que arrumar o cabelo todo dia antes de ir pra rua. Mas não podia simplesmente pentear ele seco. Ou eu tomava banho (tomar banho antes mesmo de se sujar, era uma perda de tempo) ou enfiava a cabeça debaixo da torneira pra molhar, pentear e aí sim, poder sair pra brincar. Uma hora a menos na rua só com esse procedimento. 

Esse era o procedimento na hora de ir pra escola também. Imagina uma garota de 12, 13 anos, enfiando a cabeça debaixo da água fria às 6 da manhã pra poder arrumar o cabelo. Ou ter que acordar mais cedo pra tomar banho e dar um jeito na “juba”.

Por um tempo, na escola, eu só usei cabelo preso. Esticava tanto o cabelo no rabo de cavalo que o olho dava uma puxada. Ou então, quando estava solto, estava melecado com 2kg de creme, pra não correr o risco de que outras pessoas vissem meu cabelo volumoso. Dia desses uma amiga me contou que nem a cabeça eu mexia, pra não tirar o cabelo do lugar.

Até que um dia eu resolvi me libertar. Ou, pelo menos, começar o processo. Depois que a Alice nasceu, meu cabelo começou a cair. Reza a lenda que era efeito da anestesia do parto. Além disso, sobrou nada de tempo na minha vida pra cuidar de cabelo. Foi aí que começou o processo de encurtamento e de ligar o foda-se pra opinião alheia. Um dedo aqui, meio palmo ali. Até que um dia eu falei: corta no ombro. A cabeleireira, a mesma que acompanhou todo meu drama de ter que manter meu cabelo grande na parte da infância e adolescência, ficou chocada. Não cortou o tanto que eu pedi. Eu insisti: tá economizando por que? Passa a tesoura. (Só quem tem cabelo cacheado vai sacar que, ao cortar o cabelo no ombro, ele subiu até quase na orelha).

Foi nesse dia que eu me libertei da ditadura do cabelo comportado. Foi maravilhoso. Fiquei lembrando de quanto tempo eu perdi tentando manter o cabelo no lugar, ou deixando de ir a lugares porque meu cabelo não estava arrumado o suficiente e eu não teria tempo de passar por todo o processo, morrendo de medo de vento, deixando de me divertir e dançar como gostaria pra não ficar descabelada e tendo certeza que as meninas de cabelo liso eram mais bonitas que eu. "Você fica mais bonita de cabelo liso". Não, eu fico bonita do jeito que eu quiser. Isso é muito difícil de aceitar, num mundo tão racista, em que os padrões de beleza exigem da gente uma pele clara, um cabelo liso e olho claro.

Eu aprendi, aos 20 e tantos anos, a realmente gostar do meu cabelo. Aprendi a cuidar com produtos que valorizam, a ignorar cabeleireiro, já que eu faço minhas próprias hidratações e sei quando meu cabelo está precisando de cuidado. Não, moço, eu não preciso de uma hidratação pra “abrir os cachos”. Isso é um eufemismo pra “bora esticar esse cabelo até ele ficar liso”. Moça, tá achando ruim pentear meu cabelo? Você, como profissional da área, deveria saber que pentear cabelo cacheado com um pente fino desses dá um trabalhão mesmo. Deixa que eu penteio.

Minha alegria hoje é me olhar no espelho e fazer coisas que me deixariam “de cabelo em pé” uns anos atrás, como sair de casa sem precisar pentear o cabelo, amassar bastante ou jogar ele todo pra frente pra ativar os cachos, sair de casa sem precisar molhar o cabelo.

Lembro que, quando terminava todo o processo de controlar o cabelo, pensava: acho que vai ficar no lugar. Hoje o pensamento é: tô linda, tô gata, tô arrasando. E saio desfilando como se fosse Beyoncé em Crazy In Love. Porém, com cachos. ;)

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