segunda-feira, 9 de junho de 2014

# baseado em sentimentos reais # relacionamentos

A consulta

- Doutor, eu vim aqui pra pedir um atestado.

- O que você tem? Eu não posso dar um atestado sem uma doença que necessite de repouso, ou que corra risco de contagiar outras pessoas.

- Não é contagioso, eu acho. Mas tá doendo, doutor.

- Onde?

- Aqui, ó.

- Tá com dor no peito?

- Não, doutor, é no coração mesmo, tá partido.

- Coração partido não é doença.

- Acompanha meu raciocínio, doutor. Você já teve o coração partido? Ele dói de verdade. Não sei explicar como, mas é uma dor real. Junto com ela vem uma vontade incontrolável de chorar, em qualquer lugar, a qualquer momento. Já tentou trabalhar com os olhos cheios de lágrimas o tempo todo? Sem contar a necessidade de ficar em posição fetal o dia todo, também. Não é sono, é uma vontade de ficar imóvel, na posição mais acolhedora que o ventre das nossas mães nos ensinou, sem falar, gastando energia só pensando na vida, limpando as lágrimas e o catarro. Ah, doutor, o catarro. É vergonhoso. Ele se multiplica, escorre, vira cola, até. Imagina se eu me descontrolo no meio da firma, doutor. O que o meu chefe vai pensar de mim? Além disso, não existe concentração suficiente para exercer qualquer atividade. Minha carreira está correndo sérios riscos. Eu só preciso de um tempo pra me recompor. Passar uns dias na fossa, sem tomar banho e alternando horas sem sequer olhar pra comida e depois horas comendo sem parar. Quero um tempo pra chorar vendo Querido John sozinha, sem incomodar o resto do mundo. Chorar e soluçar até ter ânsia de vômito e crise de enxaqueca. Mas eu sei que depois disso, depois de chegar no fundo do poço emocional, eu vou conseguir me levantar e, assim, estarei apta para o convívio social. Me ajuda, doutor.

- Isso pode ser uma virose.

- Serve. Quantos dias?

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