quarta-feira, 14 de maio de 2014

# batcaverna # relacionamentos

Ocupar espaços vazios

Decorar uma casa, pra mim, é, basicamente, saber quais e como ocupar os espaços vazios de uma casa (que pode ser apartamento, quitinete, flat, puxadinho, etc, mas eu sempre vou chamar de casa). Num dia você tem um quarto cheio de cacarecos acumulados da infância, adolescência, fase adulta e fase bebê do outro projeto de gente com quem dividia o quarto e que estão acomodado há tempos no lugar em que estão. No outro dia, há uma sala esperando um sofá e uma mesa, um quarto mais ou menos ocupado, um guarda-roupa sub utilizado.

Nos meus planos, eu mudaria com a casa completinha. Juntei dinheiro, pesquisei durante meses, fiz uma lista de prioridades com o preço mínimo e máximo que eu poderia pagar em cada móvel. No papel e na tela do tablet é tudo bonito, né? Enquanto a gente mora com pai e mãe e tem poucas contas pra pagar, o dinheiro sempre dá, né? Na prática, aparecem boletos de cantos inimagináveis que levam seu dinheiro embora. A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia, já diziam Mamonas.

A lista de prioridades eu já nem sei por onde anda. Deve ser por isso que, antes mesmo de mudar, eu já tinha uma TV pra sala, mas ainda não tinha cama nem sofá. Comprei a estante de quadrinhos antes da mesa. Comprei quadros sem nem saber se eles combinariam com a decoração. Comprei gravuras antes das molduras e, quando comprei as molduras, esqueci de comprar o martelo. Finalmente, quando consegui reunir tudo isso, faltou o prego.

Aos poucos o espaço-a-ser-preenchido pega a minha forma. Os puffs, que fazem o papel de sofá, estão colocados estrategicamente no melhor lugar: na frente da TV. A mesa da casa é a mesa da Barbie que a Alice ganhou de aniversário ano retrasado. O Kinect está numa distância razoável, que me permite usar o espaço vazio de várias formas (confesso que o Just Dance prevaleceu por muito tempo na disputa quero-um-sofá ou preciso de espaço-pra-jogar?).

Engraçado como, no espaço que é meu, eu deixei de ter medo do escuro. Sim, eu tenho 25 anos e tenho medo de escuro. Mas eu tenho medo de pato também, que eu considero muito mais anormal. No meu escuro eu me dou bem. Torço apenas para não encontrar nenhuma peça de Lego e nenhuma quina pelo caminho. De resto, tá tudo bem, agora.

A cozinha está quase toda ocupada. Só acho que preciso de mais panelas. Ficar revezando com duas panelas e uma frigideira me faz ter que lavar a louça mais vezes do que eu gostaria. O que não deixa de ser uma coisa boa, porque eu já descobri o que a anarquia numa cozinha pode fazer. Meu livro do Jamie Oliver me acompanha sempre, apesar de, na maior parte do tempo, quando eu invento de fazer uma receita específica, eu percebo que esqueci de comprar algum ingrediente.

O único espaço que eu achei que não fosse precisar me preocupar porque já estava devidamente, e muito bem ocupado, era o que você resolveu desocupar. Sinceramente, não sei o que fazer com ele, porque parece que só de pensar na ideia de mexer nele, dói. Optei por deixar ele assim. É como naqueles filmes em que uma pessoa leva uma facada, mas não podem retirar a faca porque causaria uma hemorragia e a pessoa morreria em questão de segundos. Ou como naquele episódio de Dexter (que você não viu - provavelmente nunca vai ver) em que a moça foi guardada toda esquartejada dentro de um armário bem pequeno. Aquilo foi o que salvou a vida dela, porque ficou tudo tão juntinho, tão intacto que o sangue se manteve dentro do corpo.

Vou manter o seu espaço do jeito que você deixou quando foi embora. Tem uma parte estúpida de mim que acha que você vai voltar e não quer que você tenha surpresas. A outra parte só não quer mexer porque seria doloroso demais. Vou ficar bem quietinha dentro de um armário bem pequeno para evitar maiores desastres.

Hoje resolvi não planejar tanto e comprei o meu sofá. Foi paixão à primeira vista. Ele vai combinar direitinho com minha outra paixão: Netflix. Dá pra passar horas vendo TV (no sentido mais amplo da expressão possível) e jogando. Você iria gostar.

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