segunda-feira, 28 de abril de 2014

# racismo

#somostodosmacacos?

Racismo. É difícil saber até por onde começar a escrever o que eu penso sobre o assunto. E aí, num domingão, dia clássico de futebol na TV, pipoca nos meios de comunicação mais uma notícia de racismo nos campos. A bola da vez, se me permitem o trocadilho, foi o jogador brasileiro Daniel Alves. Jogaram uma banana para ele durante o jogo. Como ele reagiu? Comendo a banana. Achei a atitude genial. Ele calou a boca dos racistas duas vezes, porque também saiu dos pés dele o passe para o gol. O que veio depois disso foi uma "campanha" na internet intitulada #somostodosmacacos e isso me incomodou de um tanto que aqui estou, escrevendo sobre o assunto.

Eu até entendo a intenção de, ao dizer "somos todos macacos", é mostrar que "somos todos iguais". Porém, não é assim que a sociedade vê, e provavelmente não é assim que a maioria das pessoas que estão dizendo "somos todos macacos" veem também.

Pra início de conversa: você que diz, somos todos macacos, já foi chamado de macaco? Deixa eu te contar como é: humilhante. Parece bobo, mas é como se alguém dissesse que, por ser negro, você não evoluiu o suficiente para ser humano. É macaco. Atrasado. É bicho. É atração de zoológico. Somos todos macacos? Acho que não.

É fácil apoiar com uma hashtag a luta contra o racismo do jogador milionário que tá lá na Europa e depois, quando vai pras baladinhas, não chega nas "neguinhas" nem nas que tem "cara de favelada".

Diz que #somostodosmacacos mas ficou indignado com a eleição de Lupita Nyong'o como a mulher mais bonita do mundo. Afinal, ela, com aquela pele, com aquele cabelo, nem é tão bonita assim, não é mesmo?

Não adianta dizer que o racismo tem que acabar se você riu quando o Faustão chamou uma bailarina de "cabelo de vassoura de bruxa", ou achou que era só uma brincadeira. Todo racismo vira brincadeira uma hora, né?

Você que apoia o movimento #somostodosmacacos e se revolta contra a cotas para negros nas universidades: quão incoerente você consegue ser?

Diz que não é racista mas usa a expressão "ela é uma negra bonita!", como se fosse tão extraordinário uma mulher negra ser bonita que é necessário enfatizar a cor da pele no comentário.

Você, que desvia de um negro na rua por achar que é bandido, acha mesmo que #somostodosmacacos?

#somostodosmacacos até a hora de chegar na fila de adoção e escolher a criança mais clarinha pra levar pra casa, não é mesmo?

Você que não perde uma oportunidade de chamar negro de "preto safado", ou que se incomoda ao ver negros na televisão, que acha que cabelo enrolado e crespo é "ruim" e que precisa ser alisado, que acha que a mulher negra existe para estar à serviço do seu fetiche, que tem nojo de pele escura demais, que acredita que existe "cheiro de preto": pare.

Neymar, eu sei que você aí, sentado nos seus milhões de dólares no exterior deve achar que, pra diminuir o racismo, você tem que fazer piada dele. Não vejo assim. Não quero que o insulto de ser chamada de macaco seja institucionalizado, nem que vire brincadeira, porque não é. Eu moro num país em que um homem negro foi sequestrado por um branco mas foi morto pela polícia com CINCO TIROS porque acharam que ele era o bandido. No país de onde você veio, pessoas são mortas apenas por serem negras. Mais fácil atirar antes e perguntar depois.

Antes de apoiar uma campanha pela modinha, analise as suas próprias atitudes, o seu próprio discurso, o seu privilégio de viver numa sociedade que dá mais valor para a cor da pele acima de caráter e competência. Pode ser uma oportunidade de mudar. Os macacos que me desculpem (creio que eles também não gostariam de ser comparados com humanos), mas eu não sou macaco: sou humana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário