quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

# ser mãe

A arte de botar meu bloco na rua

Ficar em casa é ótimo. A cama não te olha com espanto se você está com olheiras, a TV não te julga se você já está no segundo pacote gigante de Doritos, acompanhado de molho de cebola. Salvo maiores extravagâncias, a cria também está livre pra fazer o que quiser, como andar só de calcinha pela casa porque tá calor ou rolar pelo chão brincando de natação, ou qualquer outra coisa.

Mas existe uma vida lá fora. Pulsando. Existem pessoas que você sente saudade e que tem tantos assuntos pra colocar em dia que dá preguiça de contar pelo Whatsapp. Existe comida diferente, boa, não tão cheia de conservantes como a combinação do Doritos. Existe também a necessidade de sair pra comprar mais Doritos. Existe vida real fora da TV. O enredo pode até ser parecido, mas os personagens costumam ser mais interessantes. Mas, sair com criança é sempre uma aventura. Que pode ser das boas ou das terríveis. Depois da saga do desfralde, a saga para sair de casa precisa ser vencida diariamente.

E essa aventura já começa dentro de casa. Dá banho, coloca a roupa, arruma o cabelo e deixa a criança sentada, bonitinha, na frente da TV enquanto se arruma. Isso, claro, depois de um desfile de moda até dona Alice escolher a roupa que ela realmente quer usar. Que nunca coincide com a que eu escolho. Claro que o sentadinha na frente da TV inclui uma corrida pela casa, o cabelo que precisou ser penteado umas três vezes e o sapato que se perdeu no meio do caminho. Aparentemente o meu ritual de beleza é muito importante, já que a ela curte sentar na tampa da privada e ficar me olhando. O que parece ser um ato de contemplação é apenas um plano. Assim que eu der o primeiro vacilo, lá está ela, com a cara cheia de sombra e rímel até na sobrancelha. Lá se foi a paleta de sombra de 120 cores importada.

Saio de casa ensaiando todos os discursos possíveis como o famoso não-pode-desobedecer-a-mamãe ou o não-pode-brigar-com-os-amiguinhos ou ainda tem-que-comer-tudo.

Restaurante que quer ganhar meu amor eterno precisa ter manobrista e playground. Imagina uma moça sozinha à noite tendo que sair do carro carregando criança, bolsa, mochila, ursinho de pelúcia e todo o zoológico só pra distrair a criança. E depois disso tudo, imagina a moça correndo atrás da criança pelo restaurante porque ela ficou entediada e decidiu explorar novos ambientes. Parece frescura mas é ó, a salvação.

Quando a saída e para ir ao mercado, o modo de lidar com a situação muda um pouco. O discurso ensaiado passa a ser o não-pode-mexer-em-nada e não-pode-abrir-nada e um super importante não-pode-sair-do-carrinho-nem-fazer-birra.

O desafio é tornar esse passeio atraente pra criança. Vale carrinho de compras com cara de carrinho de brinquedo, incluir o projeto de gente nos afazeres, como segurar a sacola do tomate, contar as cenouras, escolher o biscoito, o sabor do suco, contar as latas de milho e até prometer um agrado pelo bom comportamento. Bom mesmo é quando eles adormecem logo no início. Mas a vida tá longe de ser fácil, então isso quase nunca acontece comigo.

Idas ao shopping costumam ser estressantes. O paraíso do consumo não deixa as crianças de fora. É um "eu quero!" a cada loja que pareça infantil (e um choro depois de cada "não, alice"); é o cansaço; é a vontade de sair correndo naquele espaço tão amplo; são as pessoas mal educadas. Difícil olhar vitrines, comprar (experimentar roupa? nunca!) e ficar de olho no pimpolho tomando cuidado com a cabeça do pimpolho, tudo ao mesmo tempo.

Depois disso tudo tem a gritaria de não querer voltar pra casa. Chora, argumenta, faz manha, faz birra. Trava uma luta pra sentar na cadeirinha e colocar o cinto. Continua esperneando. Até que uma hora dorme. E você respira aliviada. Tem sossego. Consegue ouvir a música que tá tocando e até os próprios pensamentos. Faz planos para o vale-night que você acaba de receber. Pensa no filme que vai assistir enquanto devora o Doritos nosso de cada dia, no banho prolongado que vai tomar. Pensa até em dar uma ajeitada nas coisas, tamanha a felicidade pelo sossego.

Mas aí ela acorda. Fim de vale night.

(aos amigos que marcam encontro comigo e eu chego atrasada: as minhas sinceras desculpas e o meu muito obrigada por não desistirem de mim)

(eu não tenho vício nenhum com Doritos, eu paro de comer quando eu quiser)

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