quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Lucas, o primeiro de poucos

Tenho algumas lembranças da época que eu entrei na escola. A sensação é que eu entrei na escola assim que nasci, aí fica difícil mesmo guardar muitas recordações daquela época. Tinha a hora do parquinho, tinha a hora do lanche, tinha privada pequena para gente pequena. Tinha a pastinha amarela, que era a cor do Jardim I. Tinha a Tia Wanda, com um sorriso meigo com um dente ligeiramente amarelo e um topete que Chitão e Xororó se orgulhariam. Mas também tinha o Lucas.

O Lucas era um menino que brincava de lutinha em todos os momentos possíveis. Loiro, cabelo estilo cogumelo que ele jogava de lado de vez em quando, pra tirar dos olhos. Um galãzinho. Por algum motivo, um dia, ele disse pra mim:

- Quer ser minha namorada?
Eu olhei pra ele e respondi:
- Tá bom.
Via Pinterest
Nosso relacionamento não tinha juras de amor, não andávamos de mãos dadas pelo pátio, nem brincávamos juntos no parquinho. Era, basicamente, ele me contando os filmes de luta que ele via na TV e eu tentando ensinar ele a ler (o que me irritava horrores, porque ele não acreditava que o que estava escrito era o que eu estava dizendo pra ele).

Enquanto ele corria e ensaiava golpes com os coleguinhas, eu ficava com as minhas amigas, brincando de qualquer coisa (não de boneca). Vez ou outra ele vinha se exibir na minha frente e as minhas amigas riam e diziam:

- Olha lá seu namorado!
Eu só sorria e voltava para o que eu estava fazendo.

O Lucas um dia me deu um presente. Uma caneta verde, com brilho. Foi lindo o gesto. Até eu chegar em casa e mostrar pra minha mãe:

- Devolve já isso pro menino!
- Mas mãããe...

Como eu ia explicar que eu havia ganhado a caneta do meu namorado? Não podia contar. Nem devolver. Eu não devolvi a caneta (desculpa, mãe!), mas tive que parar de usá-la. Guardei a caneta no meio dos meus brinquedos e o gesto no lado esquerdo do peito. Entre um Jardim e outro, o Lucas sumiu. Devo ter sentido a falta dele por algum tempo, mas nessa época é tudo tão novo, são tantas descobertas para além do jardim que não tive tempo de sofrer.

Eis que um dia, lá na 1ª série, estava eu brincando no recreio quando ouço uma amiga comentando:

- Olha que lindo aquele menino! (sim, meninas na 1ª série falam sobre meninos).

Quando olhei, meu coração parou. Era o Lucas. Meu namorado que sumiu por 10 anos. (eu devia ter uns 8, mas o tempo passa de um modo diferente nessa época). Ele olhou pra mim. Ou não me reconheceu ou fingiu que não me viu. Aquilo deu uma ligeira trincada no meu coração. Enquanto as meninas admiravam o meu Lucas, eu soltei a seguinte pérola:

- Olha, se eu fosse vocês, nem chegava perto desse garoto.
- Mas por queeeeee???
- Ele era meu namorado e me abandonou. Um crápula.

Hoje eu percebo que conheci vários "crápulas" e que o Lucas não merecia esse título. Na verdade, em nenhum lugar que não fosse uma novela mexicana dublada pelo SBT essa palavra seria usada. Uma garota com o coração partido (ou ligeiramente trincado, como o meu) é capaz de dizer coisas horríveis.

Mas ó, Lucas, mesmo que você não se lembre de mim ou de toda essa história, te desejo tudo de bom. Sem rancor, tá? Beijo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário