domingo, 18 de agosto de 2013

Morando com uma criança

Crianças são criaturinhas tão pequenas, mas que exigem um espaço físico tão grande que me assusta.

Tudo começou quando a Alice nem havia nascido ainda. Como se não bastasse querer ocupar o espaço destinado aos meus órgãos internos, tive que abrir mão de uma escrivaninha e um computador pra colocar o berço dela.

Nasceu. Saiu da minha barriga. Entrou na minha casa, entrou na minha vida e ocupou todos os espaços possíveis. A minha cama não é mais minha, nos meus cabides tem roupas dela. No Netflix só tem sugestões de desenhos pra ela. No Youtube, a mesma coisa. Na minha estante, Alice no País das Maravilhas disputa lugar com meus Woody Allen. Gabriel Garcia Marquez e o Batman lutam diariamente contra o que a gente apelidou, carinhosamente, de Livro das Cabeças, o livro da Dora e até a Bíblia da Turma da Mônica.

Morar com uma criança é acordar todo dia e, antes mesmo de abrir os olhos completamente, torcer pra não pisar numa peça de Lego ou não protagonizar uma daquelas cenas em que você pisa em um brinquedo e sai deslizando cômodo afora (sim, é possível. não, não é divertido). É passar o dia cantarolando The Fresh Beat Band, ou fazendo a dancinha do Hi-5. É saber de cabeça o canal do Discovery Kids e sofrer pra lembrar o da Warner. É perceber que já não há mais espaço pra bicicleta no quarto e procurar um cantinho pra ficar na sala, ou na cozinha, se necessário for. É desistir de andar pela sala porque a casinha que você montou ficou uma graça e ela tá adorando.

Quando você mora com uma criança, não existe mais meu e seu. É tudo uma bagunça só. A Nessa tá aqui na minha cama, enquanto eu uso a penteadeira das princesas pra apoiar o livro que eu tô lendo e o copo de refrigerante. Na gaveta dela tem brinquedos e documentos. No meu guarda-roupa eu escondo as minhas bagunças e as delas. Na hora de lavar roupa, é bom se certificar que não tem nenhuma meia colorida indo por engano no meio das roupas brancas porque é bem normal isso acontecer.

Morar com criança é pegar aquele livro que você deixou em cima da penteadeira das princesas e descobrir que tem uma "dedicatória" feita com giz de cera e talvez um pouco de macarrão do almoço. É o risco que se corre. É ver a criaturinha pegando uma roupa sua pra dormir e achar uma graça daquele camisolão que se forma. É saber que o seu almoço e janta nunca vão ser 100% seus, porque mesmo que ela tenha acabado de comer exatamente a mesma coisa, ela vai querer comer aquilo que está no seu prato, independente do que seja.

Mas, depois que eu passei a dividir o meu espaço e a minha vida com um projeto de gente que tem só metade do meu tamanho (por enquanto), depois de ocupar todos os espaços possíveis, necessários e desnecessários, quando a criança se vai, mesmo que momentaneamente, tudo fica grande demais. A cama tá tão grande que eu aceito dormir com a Nessa, sem problemas. O quarto fica vazio, a casa silenciosa. Mas o trambolho da bicicleta, esse eu continuo sem saber onde colocar.



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