terça-feira, 30 de julho de 2013

Medo revelado

Meus pais costumam levar a Alice num parque aqui perto de casa e ela volta feliz da vida, dizendo que viu os patinhos, que deu comida pra eles e fica horas fazendo QUÁ QUÁ QUÁ enquanto abre e fecha a mão, representando o bico deles. Dessa vez eu resolvi ir. Eu já tinha visto os tais patos perambulando pelos arredores do lago e confesso que me causou um certo estranhamento ver tanto pato junto. Mas deixei pra lá.

Chegamos ao lago. Alice, numa felicidade que dava gosto de ver. E eu com uma sensação que eu ainda não sabia o que era. Mas não foi difícil entender.

Na beira do lago havia um ganso ENORME grasnando furiosamente para os visitantes, enquanto batia as asas e esticava o seu pescoço. Era um recado do tipo “vocês estão invadindo o meu território, saiam já daqui”. E, aparentemente, só eu entendi, porque as outras pessoas sorriam e apontavam, apenas.

Foi quando eu travei vergonhosamente diante da cena do ganso que eu percebi: cara, eu tenho medo de pato.

O ganso maior parecia o líder da gangue e continou lá grasnando por um tempo, enquanto os gansos menores se mantinham atrás dele e os patos, mais atrás ainda. Era uma clara demarcação de território por parte dele e de respeito à hierarquia por parte do resto. Quando ele achou que tinha proclamado seu reino por tempo suficiente, voltou pro lago e os outros badgansos foram atrás. E aí a plebe da comunidade do lago pôde chegar à beira.

Achei que a experiência já tinha sido suficiente e sentei no banquinho pra pensar sobre o assunto. E aí lembrei que eu ficava extremamente desconfortável perto de galinhas, galos, pintinhos e que senti um frio na espinha quando vi um pavão voando. Talvez meu medo pudesse ser extendido a todos esses bichos de penas. E tudo passou a fazer sentido.

Só que os patos perceberam que eu estava distraída e tentaram armar uma pra mim. Três deles saíram da água e tentaram me cercar. Medo medo medo PRA ONDE EU VOU? E foi assim, que no auge dos meus 24 anos eu levantei, discretamente, e fui procurar abrigo... atrás do meu pai. Vergonha e segurança se misturavam dentro de mim. Ele percebeu meus movimentos e apenas sorriu. Não quis me expor.

Minha mãe, ao contrário, enquanto ela estava lá na beira do lago alimentando os patos com a Alice, ficava dizendo em alto e bom som:

- Eu não acredito que você tá com medo dos patos! Não tem vergonha na cara?
- Oxi mãe, eles estão vindo atrás de mim.
- E você não sabe correr?
- Eles também sabem.

Tenho, mãe. Tô sentindo bastante vergonha em ver esse povo todo me olhando, mas nada que me faça sair de trás da fortaleza de proteção do meu pai. Não dá pra confiar num animal que transita facilmente entre a água, a terra e o ar. Só imaginava que, a qualquer momento, um deles correia/voaria atrás de mim, enquanto alguém filmaria pra colocar no Youtube. E que depois viraria gif. E, depois de 15 anos, o vídeo seria exibido nas videocassetadas do Faustão.

Ao longe eu via a cena da Alice com os patos e ficava imaginando que eu precisava estar preparada para salvá-la de um ataque. Porque só eu havia percebido a índole daqueles seres e tava sentindo que eles estavam armando pra ela, como armaram pra mim. Eu precisava fazer alguma coisa. Tipo quando a mãe, que não sabe nadar, pula na água pra salvar o filho. E eu só pensava: eu preciso tirar ela de lá. Porque eu realmente não queria confrontar aqueles animais. (cara, eram muitos patos. E GANSOS.). Foi assim que inventei pra Alice que nós iríamos procurar patinhos em outros lugares.

- Vem cá, Alice, bora ali, ó!
- Vem aqui buscar ela! (gritava minha mãe)
- Traz você ela aqui, ninguém mandou levar.

- Onde, a gente vai, mamãe?
- Bem ali, Alice.


Bem ali, pertinho da saída, no caminho de casa. Pra nunca mais voltar.




- Ganso doido! Ganso doido!

@erickacris

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