segunda-feira, 15 de outubro de 2012

# racismo

Momento épico: uma criança negra na capa da Crescer


É isso aí, minhas caras, meus caros. Vocês viveram o suficiente pra ver uma criança negra na capa da Crescer. Isso não acontecia, pelo menos, desde maio de 2008 (valeu, Adriana Silva, pela informação!). O que aconteceu antes desta data, só os leitores e colecionadores da revista podem nos dizer.

Quase 40 mil visualizações, 300 e tantos comentários, uma grande movimentação em torno do assunto e os responsáveis pela revista não se posicionaram. Eles deram sinal de vida, aliás, quando apagaram comentários meus e de alguns amigos deixados no Facebook da Crescer e deixaram outros comentários bem preconceituosos vindos de outros leitores. A ingenuidade não me lembrou de fazer print da conversa. Infelizmente.

Mas eis que outubro chega e eu sou presenteada com esta capa sensacional. Eu quero ver quem vai ter coragem de falar agora que capa com negro não vende. Essa coisa linda não vende, sério mesmo? Independente de cor, foi uma capa bem feita, assim como as outras. Tá vendo, gente, não ficou feio! Não vai fazer as vendas despencarem! Tá liberado colocar crianças negras nas capas das suas revistas!

Claro que eu fui, novamente, me comunicar com a Daniela Tófoli, Diretora de Redação da Crescer. Mandei um email pra ela.


Olá, Daniela!

Gostaria, primeiramente, de parabenizar pela criança negra na capa da Crescer de outubro, o que não acontecia há, pelo menos, 4 anos.


Em segundo lugar, gostaria de perguntar se as reivindicações feitas entre agosto e setembro nas redes sociais tiveram peso na decisão da capa e se há algum compromisso assumido para que a diversidade e a cultura brasileira sejam mostradas com mais ênfase na revista (o que é, aliás, é um dos princípios editoriais da Editora Globo). 


Super objetivo. A chance de eles mostrarem que ouviram tudo que foi falado por aqui e no Facebook, no Twitter e em vários sites por aí.

Curtam a resposta:


Ericka, obrigada pelo seu email.

A Crescer tem como valor acreditar que somente a diversidade cria ambientes democráticos e saudáveis. E, ao acompanhar a revista, também fica claro que incentivamos a arte e a cultura como instrumentos de felicidade e cidadania. Todos os meses na revista, e todos os dias no site, esses valores estão presentes.
Abraço,
Daniela

Eu estava esperando que o meu email nem fosse respondido. Agora, resposta automática me surpreendeu. Ela apenas copiou um trecho do que está escrito na seção Nossos Valores, na mesma página do índice (viu, Daniela, eu acompanho sim a revista!).

Não se deixem menosprezar. É uma vitória nossa. Eles nos ouviram sim. Só não assumem.

Podemos tirar algumas conclusões dessa grande história:

Reclamar adianta sim! Não estamos mais no tempo em que era necessário ligar num Serviço de Atendimento ao Consumidor para fazer uma reclamação. Na internet todos têm voz e qualquer sussurro pode virar um tremendo barulho. Não estou aqui defendendo o ativismo de sofá. Mas você não precisa aguentar calado algo que não te agrada só por achar que não tem quem ouça o que você quer dizer.

A outra lição é que, por mais que você não conviva com preconceito, ele existe. Aparentemente uma capa não tem o poder de mudar o mundo, mas com pequenos passos a gente pode caminhar para um futuro melhor. É isso que eu quero para a minha Alice, para a Luísa que acabou de nascer, para a Helena que nem nasceu ainda, para a Emily, para o Luís Felipe, para o Yves, para a Maitê, pro Arthur, pra todos os meus primos, filhos e sobrinhos, que chegaram e vão chegar, para todas as crianças que vão conviver com eles e para as crianças que vão conviver com as crianças que vão conviver com os meus primos, filhos e sobrinhos... e por aí vai. Corrente do bem funciona! E, quem sabe, não serão as nossas crianças que ensinarão os adultos como racismo e preconceito são inaceitáveis?

Termino com um email que acabei de receber de uma leitora, a Thais. Esse é o meu Brasil, país sem racismo! Só que não.

Olá, encontrei seu blog por acaso e ADOREI  a discussão sobre crianças de outras etnias, eu mestiça sinto na pele essa diferença: quantas vezes não fui bem tratada em uma loja quando estava acompanhada de uma amiga loirinha, branca de olhos claros? quantas vezes me falaram para alisar meu cabelo de "negro", que supostamente chamam de ruim? Perdi a conta de quantas vezes fui chamada de feia por causa da minha cor... e sabe, isso acontece no meio familiar: meu pai, mestiço também, não cansa de pedir para mudar cabelo, ir no dermatologista clarear pele, usar um batom que não destaca minha boca (gigante). Olha, em um país como o Brasil, que para cada "branco" existe o triplo de negros ou mestiços, isso é uma vergonha! As vezes fico pensando nesta enorme contradição e me pergunto o que faço aqui, já que "levo ferrada" muitas vezes por algo que é meu, nasceu comigo e vai ficar comigo. 
O que tem de errado ser negro, amarelo, vermelho, cadeirante, gordo, magrelo? NADA, viva a diversidade, que por sinal eu acho uma das coisas mais lindas da humanidade. Não é "ser diferente é legal", é "ser eu é mais legal".
Boa parte dessas imbecilidades que eu escutei poderiam ser evitadas se prestássemos atenção em nosso país e não nos jovens "lindos" e brancos europeus. Eu acho uma tremenda SACANAGEM obrigar leitores ou espectadores (eu trabalho com cinema e tenho que lidar com essas questões também) a verem ou almejarem algo que não é o nosso! Essa ditadura da "beleza" ainda vai magoar (ou matar) muita gente. Temos que começar a mudar isso já, a começar pelas crianças que eu acho (não tenho filhos) que são menos suscetíveis a essas bobeiras da mídia.
E nós como adultos (pensantes) precisamos nos mover!
Eu juro que gostaria que isso acabasse...pelo meu bem, pelo bem dos meus futuros filhos (que serão mestiços independente do pai), pelo bem da nossa sociedade...um abraço e seu blog está de parabéns!


Ah, menção super honrosa para a revista Kids In que também colocou uma criança negra na capa da edição de outubro e para a Pais e Filhos, que colocou uma criança com traços orientais. Coincidência, apenas? Acho que não. =)

Fonte: Facebook da revista Kids In




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