domingo, 19 de agosto de 2018

Tópicos sobre depressão

00:47 0 Comments


Eu ainda lembro do dia que o pai de santo disse que tinha uma energia de morte perto de mim. Pediu, por favor, que eu nem pensasse em suicídio, porque ele não resolveria o meu problema.

Eu não pensava em suicídio. Aliás, eu ficava desesperada só de pensar na possibilidade. Eu não podia morrer e largar minha filha aqui. Além disso, eu queria viver pra caralho. Queria ver minha filha crescer, queria concretizar meus sonhos, ficar feliz com as minhas conquistas. Eu queria estar viva para viajar, sorrir, andar de mãos dadas com alguém por aí. Sim, eu queria viver.

Mas, ter depressão não é viver. É sobreviver. Para cada dia se faz necessário um esforço sobre-humano para seguir em frente.

O corpo deixa de ser funcional, como antes. Você quer abrir os olhos. Os olhos não se abrem. Dói abrir os olhos. Dói o olho, dói a cabeça, dói o coração, dói a coluna, dói até a barriga. A dor física e emocional é generalizada.

Levantar da cama era um tormento diário. Lembro do dia que demorei 2 horas pra conseguir sair da cama. Quando achei que tinha vencido uma batalha, eu fraquejei. Sentei no chão, depois deitei. Fiquei lá por 5 horas. Eu precisava ir trabalhar, precisava levar minha filha na escola, precisava comer, precisava fazer xixi. Não fiz nada disso.

Em algum momento eu puxei a coberta que estava em cima da cama. O celular veio junto. Foi um alívio porque agora eu poderia pedir ajuda. Mas não pedi. Mandei mensagem no trabalho avisando que não ia trabalhar porque não estava me sentindo bem. Essa solução, porém, me causou mais um problema. Eu estava mal, mas não tinha um atestado para justificar a falta.

Alice disse que estava com fome. Disse que ela poderia buscar um pacote de biscoito no armário mas que ela não podia comer nada sem olhar a validade antes. Eu sabia que várias coisas ali estavam estragadas há meses. Ela me perguntou se ela não ia pra escola. Eu disse que não. Ela chorou. Mas não por causa da escola, ela nunca gostou de escola. Eu, deitada no chão, chorei também. Ela deitou no meu peito e perguntou o que eu estava sentindo. Eu disse que não sabia. Era enxaqueca, dor de estômago, dor na alma, dor no coração, até dor no rim apareceu. Ela não entenderia.

- Liga pra sua avó e pede pra ela vir te buscar pra eu poder ir ao médico.

Ela estava especialmente obediente no dia. E a gente sempre acha que criança é boba e não entende as coisas.

A vontade de fazer xixi ficou insuportável. Fui engatinhando para o banheiro. Na hora de dar descarga, percebi que meu xixi estava meio alaranjado. Deveria ser uma infecção urinária. Meu atestado.

- Obrigada, Senhor.

***

Eu demorei a perceber a depressão porque ela se misturou com a minha personalidade e com o meu corre diário. Normalmente, no estado depressivo, eu me sentia exausta. Mas eu achava que era o cansaço "normal" que uma mãe solo que trabalha e estuda sente. Bom, e quem é que dorme tendo uma filha pequena e tantas preocupações, não é mesmo? Normal não dormir bem. Trabalhando de madrugada então? Super normal. Lembro do dia que eu falei pra um amigo que eu não tinha motivos para ter depressão e a resposta dele foi:

- Com essa vida que você tem que levar, eu acho que até demorou.

***

Eu queria que inventassem nomes científicos para os sintomas da depressão. Talvez assim ela fosse levada mais a sério. Não é tristeza o que se sente. Aliás, pode até ser que exista um quê de tristeza, mas o que amplifica esse sentimento deveria ter outro nome. Quando eu estou numa crise depressiva eu não estou "triste". Eu estou [insira aqui um termo médico de respeito para a tristeza do depressivo].

Além disso, não é cansaço. É mais que isso. É outra coisa diferente de fadiga. Afinal, não foi feito nenhum esforço físico para chegar nesse estado. O depressivo não sai da cama porque está numa condição de [insira aqui um sintoma com nome em latim para quem tem a sensação de carregar o peso do mundo nos ombros]

Eu ficava aliviada quando os sintomas físicos apareciam. Primeiro para me provar que eu não tava inventando coisas na minha cabeça. Segundo porque era possível provar os sintomas que as pessoas conseguiam ver. Tipo taquicardia. É só botar a mão no peito que ela tá lá. É respeitável. Pico ou queda de pressão. Se não estiver aparente, qualquer aparelho de medir pressão mostraria. Agora tristeza. Vai lá dizer pro seu chefe que você não conseguiu levantar da cama porque tava "triste". Cadê o termo médico para a condição do depressivo que pode passar um dia inteiro chorando?

***

Eu nunca pensei em suicídio. Mas os dias estavam cada dia mais pesados. Eu só queria chegar em casa e tomar meu remédio pra dormir. A gente não pensa quando dorme. Principalmente medicada. Eu me autorizei a tomar uma dose extra completamente não recomendada pelo médico em dias que eu considerava "mais pesado" que os outros.

Depois de alguns meses, eu comecei a questionar se essa minha vontade de dormir tanto não seria um eufemismo para querer morrer. Enquanto dormia, eu não vivia. Ou até pensando objetivamente em como eu estava sendo irresponsável, porque não sabia se uma superdosagem poderia me matar.

Mas eu vou confessar que o barato dos remédios para dormir é bom. Para uma pessoa que não dormia uma noite inteira há anos, é um alívio. Deitar a cabeça no travesseiro e não pensar em mais nada, a não ser na própria respiração e adormecer minutos depois é bom demais. Meus parabéns para vocês que conseguem fazer isso naturalmente.

Passei vários anos dormindo mal achando que eu era daquele jeito. Até que eu passei a acordar 5 vezes numa noite. Na quarta eu já tava chorando de desespero. Eu queria bater a cabeça na parede até desmaiar e, assim, voltar a dormir. O coração tava sempre acelerado. Não tem como dormir em paz desse jeito.

***

Lembro da primeira vez que eu senti o combo terapia e remédios pra ansiedade, depressão e insônia fazendo efeito. Era como se eu estivesse presa há muito tempo em um engarrafamento. O stress, a agitação, as buzinas constantes. Em alguns dias eu realmente conseguia ouvir buzinas na minha cabeça. Mas aí, numa manhã tudo estava silencioso. Eu respirei, o coração não acelerou. Não apertou também. Eu conseguia acompanhar meus próprios pensamentos. Eu estava serena. Lembro que pensei: Uau, é assim que as pessoas normais acordam?

Existia uma luz no fim do túnel.

sábado, 18 de agosto de 2018

Liberdade

23:33 0 Comments


Dia desses durante alguma conversa de bar, eu percebi que as mulheres tem dificuldade em fazer cocô e em falar sobre. Os homens, normalmente, olham com surpresa e contam que fazem cocô uma, duas vezes por dia. As moças contam, como se fosse distinção de caráter, que nunca cagam no banheiro do trabalho. Já os homens possuem hora marcada e até uma cabine preferida pra largar o barro no trampo. Alguns relatam, inclusive, que usam esse tempo no trono para relaxar, ou aproveitar o momento para jogar, fazer relatório e até ligar para a namorada.

As mulheres, não. Só fazem em casa. Sem outra pessoa presenciando do outro lado da porta. É muita vulnerabilidade. Cocô é sujo. Vai que fede? Assim nos foi ensinado. Fazer em qualquer lugar não é coisa de menina. Deve ser por isso que eu vejo tantos relatos de mulheres com prisão de ventre. Sei de mulheres que fazem cocô uma vez por semana e só. A sociedade não nos deixa nem cagar em paz. Fazer cocô se tornou um ato de resistência.

Eu gosto muito da expressão "estar enfezado". O sujeito enfezado está puto, mal humorado, rabugento, desgostoso da vida porque precisa dar uma cagada para ficar em paz. Estar enfezado quer dizer estar "cheio de fezes". Faz todo sentido. Já ouvi falar que essa pode não ser a origem real da palavra. Mas, sinceramente, eu não quero saber o real. Esse significado é muito melhor.

Eu sempre fui uma pessoa enfezada. Principalmente no fim do dia. Eu sei, tinha o cansaço, tinha a fome, mas tinha também a vontade de cagar. Aí, se você sai com a galera pra tomar uma cerveja no fim do expediente, acaba acumulando ainda mais gases e triplicando a vontade de ir correndo pra casa. Em algum momento de pré-cerveja, eu decidi que faria parte da resistência. Ia cagar no trabalho, sim. E foi um alívio. Ahh, mas o cheiro? Ahh mas e se alguém ouve o barulho da bosta na água? Bom, essa é a hora de praticar o mantra milenar chamado "fooooda-seeeee". Cagar no horário de trabalho é um ato de resistência ainda maior. É como se o seu patrão estivesse te pagando para fazer aquilo.

Arthur

22:49 0 Comments
Era um dia em que eu estava me sentindo meio maternal. Talvez por culpa dos hormônios. Aliás, é claro que foram os hormônios. Só eles seriam capazes de me fazer querer levar quatro crianças ao cinema, sozinha.

Eu tentei ser racional. Levar só uma. Levar metade do grupo. Só os meninos. Só as meninas. Eu deveria ter considerado levar só o Arthur, ou só as outras crianças. Porque o Arthur demanda muita atenção de um ser humano. Pois eu levei todas porque era isso que meu coração cheio de amor para dar estava exigindo.

No shopping, eu era mais uma entre as crianças. Pedi um Mc Lanche Feliz, apontei para vitrines, fingi ter desejos impossíveis, como uma camiseta do Wolverine que alguém teria que me dar de aniversário ou de Natal. O problema de se comportar como uma criança é que você acaba tomando decisões precipitadas, como comprar quatro pacotes de pipoca que eu não tinha quaisquer condições de carregar sozinha.

Enquanto eu fazia esse malabarismo, recebi olhares interessantes dos moços na fila. Deixei pra lá, pois eu estava ali como guardiã de quatro seres vivos. Minutos depois eu percebi que não eram olhares de flerte e sim de deboche, já que eu estava com um adesivo colado na testa. Pestinhas!

Acomodei a garotada nas cadeiras com os sacos de pipoca e as bebidas. Tive que descobrir, no escuro, qual sabor pertencia a cada criança. Eu não sei o porquê, mas, suco de uva, suco de laranja, Coca e Guaraná sem gás, no escuro, tem o mesmo gosto. Eu não sei como acabei sobrando com duas Cocas.

Me faltou um pouco de malícia porque obviamente os pentelhos e pentelhas começaram a querer ir ao banheiro. Levei uma, levei duas. Levei o Arthur três vezes.



O que eu não contei sobre o Arthur é que ele tinha quatro anos, não sabia se limpar sozinho e tem uma tradição de fazer cocô em banheiros que ele visita pela primeira vez. Eu só lembrei desse detalhe quando ele demorou a sair do banheiro masculino.

- Arthur, tá tudo bem, cara? - perguntei, do lado de fora do banheiro
- Tá tudo bem, tia Ericka, eu vou fazer cocô.
- Não, Arthur! Não faz cocô aí, cara! Eu não posso entrar!
- Tia Ericka, eu já tô fazendo.

Dois homens saíram de dentro do banheiro do cinema rindo, por causa de um garoto que estava fazendo cocô de porta aberta. 

- Tia Erickaaa, eu termineeeei!

Não teve jeito, eu ia ter que entrar no banheiro masculino. Dei uma olhadela sem maldade lá pra dentro e contei seis homens. Esperei cada um deles sair, enquanto gritava pro Arthur ficar calmo que eu já tava chegando. Para o último homem que saiu, eu dei uma missão: ficar na porta do banheiro e impedir a entrada de outros caras enquanto eu estivesse lá. 

Encontrei Arthur na última cabine, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto nas mãos, como quem caga e depois fica pensando na vida. Chegou a hora do trabalho sujo. Confesso que ser mãe faz você subir os seus parâmetros de nojo. Eu tava mais incomodada com o garoto sentado no vaso do que com a limpeza do cocô, em si. Enquanto isso, começou um burburinho lá fora.

- Calma, galera, tô acabando! - gritei para a multidão impaciente do lado de fora. Só depois fui perceber que, dizendo essa frase, parecia que era eu quem estava cagando.

Sem ter muito o que fazer, além de lavar as minhas mãos e as do Arthur, terminei o meu serviço e fui até a porta me explicar pela bagunça. Mas não tinha muito o que dizer. Estava estampado na testa de todos os homens da fila que eles se perguntavam por que diabos uma mulher estava cagando no banheiro masculino. Depois de ser a mulher doida que anda com um adesivo no meio da testa, eu agora era a mulher que caga no banheiro dos homens. 

Voltamos para a sala de cinema. Eu havia perdido metade do filme. Aliás, não só a metade, como, de acordo com a minha filha, "a melhor parte". A criança mais velha ficou com pena de mim e disse que queria que o filme acabasse logo só pra eu não precisar levar mais ninguém ao banheiro. Mas adulto tem isso de ser meio besta às vezes. Perdi o filme mas fiquei satisfeita em ver a gurizada toda feliz, fingindo que eram os personagens dos filmes, ensaiando lutas, escolhendo os preferidos. Quando contei que aquele filme era baseado numa série que eu assistia quando criança, recebi olhares espantados:

- Mas tão velho assim?

Não tem hormônio que resista. Acabou o amor. Cadê os pais dessas crianças?

terça-feira, 8 de maio de 2018

Pensar no outro

11:17 0 Comments


Eu segurei até onde pude. Não queria ser a pessoa que começa qualquer coisa com "a minha psicóloga disse...", mas não vai ter jeito. Como jornalista, eu não posso tomar a frase dela pra mim. Eu nunca teria pensado nisso sozinha.

A minha psicóloga disse, uma vez, que se preocupar com alguém é abrir mão de um pouquinho de você. Nós estávamos falando sobre expectativas, e ela me dizia que, para pensar no outro, as pessoas precisavam deixar de pensar em si por alguns instantes. E que nem sempre as pessoas estavam dispostas a isso.

*
Um dia, uma amiga apareceu lá casa no meio de uma crise de ansiedade minha. Eu estava sentada no chão, controlando o choro, de pé quebrado, envolta por uma zona de uma bagunça indescritível. Nós havíamos marcado uma limpeza de pele no salão da rua de cima. Bem dondocas mesmo. Vendo aquela cena de uma casa que parecia ter sido revirada por alguém, ela respirou, olhou a extensão do estrago e pediu pra cancelar a limpeza de pele. Trocou um dia de madame por um dia de faxina.

Enquanto isso, eu continuava sentada no chão, parecendo uma acumuladora em surto como as que a gente vê naqueles programas. Chorava quando ela mexia onde eu não deixava, ordenava que não jogasse coisas fora, que não entrasse nos cômodos. Ela entrou. E limpou. E onde não deu conta, chamou o irmão pra ajudar. Doeu como poucas coisas na vida e ainda dói só de lembrar. E aposto que doeu neles também.

As pessoas precisam deixar de pensar em si para pensar nos outros. Essa frase fica martelando em minha cabeça toda vez que eu relembro esse dia. Ela abriu mão de um sábado inteiro por mim. O irmão dela, que nada tinha a ver com a história, se moveu de onde estava para me ajudar também. Um dia em que duas pessoas abriram mão delas só para pensar em mim e eu não sei nem se um dia vou conseguir retribuir.

Por quem você abriria mão de pensar em você por uns momentos?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Os dentes da Gabi

02:09 1 Comments



A Gabi é uma mulher fantástica. Divertida, simpática, despachada, alta, morena, cabelos lindos, gostosa. Mas eu queria falar do sorriso, que é enorme e cativante, além da auto estima. Se ela fosse uma música do Charlie Brown o cara já tava perdendo a linha na primeira. 

A Gabi ama carnaval. Leva a sério a história de entrar num personagem criativo.

Em um desses dias de folia a Gabi perdeu o dente numa luta por um pirulito com um outro folião. A tentativa de furto ocorre quando o moço puxa o pirulito da boca da moça. Eu não falei ali em cima, mas a Gabi é bicha arretada, mulher barraqueira quando necessário. Ela travou os dentes e defendeu seu patrimônio. Ele puxou mais, ela travou sem chance de ceder. Quem perdeu a batalha foi o dente. Aquele da frente, o atacante, o menino Bebeto, aquele primeiro que é visto na hora do sorriso. Gabriella agora era dona de metade de um pirulito e um dente quebrado que era impossível de esconder.

Quando ela me contou, achei que a noite havia acabado por ali. Mas a noite só havia começado. Gabriela usou sua auto estima do caralho pra não perder o seu sorriso tão característico. Ela sorria ainda mais do o normal. Aparentemente, a fantasia da auto estima que ela estava usando a deixava ainda mais bonita porque ela passou o rodo no bloquinho, mesmo quando o cara chegava nela e ela apontava pro dente. Eles simplesmente não ligavam porque ela mesma também não estava nem aí. Inclusive postou várias fotos nas redes sociais.

A noite da Gabriella terminou muito bem e até acompanhada. Eu tirei uma lição e confirmei outra dessa história. A primeira lição foi a de que a auto estima é a melhor roupa que você pode vestir pra se sentir bem. Tudo fica interessante quando a pessoa é interessante.

A lição que eu confirmei é que eu agora me arrumo pra mim. E isso quer dizer que eu posso não me arrumar e me sentir bem se eu estiver com a auto estima em alta. Foi assim que saí com vários caras sem tomar banho para o evento específico, sem estar com uma roupa que chamasse atenção ou sem passar perfume, por exemplo. E eles diziam que eu estava muito cheirosa. Eu podia soltar a frase que eu uso quando tô insegura: "ah é? tô suada, nem tomei banho hoje". Mas eu deixei sentir só o cheirinho da minha auto estima tomando conta.

Até adotei um mantra: Se a Gabi pegou 5 banguela, eu posso pegar um sem pentear o cabelo. Faça a sua versão e seja feliz.

Mulheres com alta auto estima vão longe. Mulheres com alta auto estima e um dente quebrado vão a lugares que a gente nem imagina.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Terrible 7

11:34 0 Comments


Existe uma idade das crianças que é rodeada de mistérios e desesperos por parte dos pais. Os "terrible 2", a crise dos dois anos, é conhecida e esperada por pais do mundo inteiro. Os bebês passam por uma fase rebelde, passam a se enxergar como um ser humano cheio de direitos e vontades. É o terror de cada pai, mãe, avós, tia da creche. Eu não me lembro de ter me preocupado com essa idade, quando a Alice era bebê. Eu estava me preparando para a fase em que eu achava que as crianças eram mais chatas: os 7 anos.

Eu defini essa margem muito antes de ter a Alice. Me sinto uma pessoa privilegiada por ainda ter lembranças sólidas da infância. Por isso, muito do meu comportamento como mãe se baseia em "como eu era nessa idade?" ou "como uma criança age nessa idade?". Foi assim que eu defini que as crianças de 7 anos (até os 13, mais ou menos), eram mais mais pentelhas que eu poderia conhecer. Cheias de opiniões, achavam que sabiam de tudo, já tinham perdido as feições fofas dos bebês, queriam ser independentes. Um terror.

Alice fez 7 anos.

E, de fato. Crianças de 7 anos são terríveis. Elas perderam as bochechas fofas de neném. A boca tem buracos de dentes que caíram, dentes que estão nascendo, dentes enormes contrastando com dentes de leite. Elas pensam. Raciocinam. Dialogam. Respondem. Criam seus próprios conceitos. Debatem. Querem saber o porquê de tudo. Não adianta mandar, tem que convencer, dialogar, mostrar os prós e contras, fazer uma lista, um gráfico, mostrar pesquisas, sei lá quais outros métodos.

Alice fez 7 anos. Ela virou uma mini eu.

Não é mais o meu bebê. Agora eu ensino significado das palavras, não mais ensino como elas devem ser faladas. Ensino as consequências de cada ação, não mais mando ela fazer qualquer coisa pelo motivo "porque sim, Alice". Ela já sabe que mal comportamento me dá margem pra que ela perca privilégios. Sabe que a viagem que ela sonha em fazer não vai se materializar na frente dela. Sabe que precisamos juntar dinheiro, que preciso esperar as férias do trabalho. Ela tem vontades bem definidas, tem gostos. Confesso que isso exige muita paciência, jogo de cintura, o que nem sempre eu tenho.

Mesmo assim, tem sido do caralho.

Ela não é só mais um ser humano cuja vida depende exclusivamente dos meus cuidados. Ela já tem um certo nível de independência que deixa nós vivermos juntas as experiências. Não é só eu tomando conta dela, ou ela do meu lado porque eu preciso estar em algum lugar. A gente compartilha as experiências. Uma verdadeira companheirinha.

A gente vê Harry Potter e conversa, por causa de um questionamento dela, sobre o que leva as pessoas a serem tão más umas com as outras. A gente joga Minecraft e conversa sobre soluções para a casa que ela está construindo. A gente anda na rua e ela entende que precisa atravessar na faixa de pedestres e fazer o sinal com a mão para que os carros parem. Entende as consequências de se atrasar pra aula.

Dia desses ela tava arrumando as coisas no quarto dela e encontrou alguma coisa:

- Mamãe, vem ver o que eu achei
- Peraí, Alice, já vou

Eu tava mexendo no celular, com preguiça de ir no quarto dela olhar.

- Mamãe, você tá vindo?
- Tô, Alice. Peraí.
- Você não tá vindo porque tá no celular né. Eu tenho certeza que você tá nesse celular, não larga pra nada.
- Aff Alice, claro que não, eu hein

Ela chega no meu quarto e eu estou mexendo na porcaria do celular. Ela não fala nada, só me olha com a cara de "não falei?". No que eu respondo:

- Eu peguei agora!

Ela já me conhece. Conhece meus hábitos. Não dá mais pra enganar. Ela já raciocina.

Outro dia a gente estava vendo Supergirl. E um cara da 5ª dimensão apareceu. Ele estava completamente apaixonado pela Supergirl e queria convencer ela, de qualquer jeito, a casar com ele. Um dos argumentos que ele usou foi o de que ele poderia dar à Supergirl o que ela quisesse, era só ela pedir que ele estalava os dedos.

- Ter tudo que deseja deve ter muito entediante.

Esse não é o nível de raciocínio que eu esperaria de uma criança. Eu não sabia nem que ela sabia o que era entediante. Por isso, perguntei:

- Entediante, Alice? Como assim?
- Ah, imagina, ter tudo o que quiser. Estala o dedo [aí ela fazia o movimento com os dedos] e vem tudo. Que sem graça. Pra que eu ia sair de casa?
- Nossa, é mesmo, né.

Eu dei a resposta mais idiota que eu poderia dar porque fiquei sem palavras. Educar uma criança, dar espaço para o convívio com outras pessoas, ler livros, ver filmes, internet e jogos são vivências que deixam uma bagagem na criança, afinal. Porque não foi eu quem ensinou esse raciocínio pra ela. Não diretamente. Foi ela quem o desenvolveu. Olha como a educação é uma arma poderosa. Ela poderia ter aprendido, por exemplo, que matar seus inimigos é o caminho para se conquistar o que deseja. Ou que ela tem que ser uma princesa e esperar o príncipe estalar os dedos e dar tudo que ela quiser.

Os "terrible 7" não tem sido tão terríveis, afinal. Digo isso sem qualquer romantização, já que ela tá de castigo por causa de um escândalo que aprontou na hora do almoço de ontem. Eu perdi o meu bebê, aquela bolinha fofa que dá vontade de apertar. Mas ganhei uma pessoinha com uma visão de mundo muito divertida. Um pouco dramática, talvez. Mas com certeza ganhei alguém com quem vai ser legal dividir o resto da vida.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ser mãe não me completa

08:50 0 Comments


Ser mãe não me completa. Eu já era um ser humano inteiro antes da maternidade me pegar de surpresa e me dar um sacode. Eu já era uma mulher cheia de sonhos e objetivos antes de ser mãe. Odeio esse papo de filho trazer, enfim, um significado para a vida de alguém, como se antes estivesse faltando um pedaço, ou um motivo para existir. Ser e existir já é um grande objetivo.

Essa noite eu cutuquei uma espinha no meio da testa e saiu sangue. Minha filha prontamente levantou da cama, avaliou o local com cuidado, foi até a caixinha de curativos e buscou um band aid do Batman. Com toda a delicadeza que as mãos de uma criança de seis anos pode ter, ela colocou o band aid na minha testa, passou os dedos e finalizou com um beijo. O fato de eu não querer tirar esse curativo feito por ela me mostra que a maternidade não me completa: ela me transborda.

A maternidade me transborda quando a minha filha me reconhece como um lugar seguro. Quando ela me espera chegar do trabalho, quando pede pra não sair naquele dia porque ela só quer ficar em casa comigo vendo TV e comendo coisas sem qualquer valor nutricional. Me transborda quando eu chego em casa e tem um bilhete "i lov yu" me esperando. Ser mãe me transborda porque todos os dias eu tenho que melhorar minhas estruturas pra receber tudo que a maternidade me traz, e mesmo assim, não cabe tudo.

Mas a maternidade me transborda também como se fosse uma fralda cheia de cocô. Daquele que vaza e mancha a roupa nova, que sobe até as costas. Me transborda quando ela me espera pra fazer o dever de casa porque, naquele momento, eu já não tenho um neurônio que possa ser usado e mesmo assim eu tenho que ajudá-la a fazer um robô com sucatas que eu tenho que inventar, como as caixas dos meus sapatos ou a caixa dos ovos que ainda está na geladeira.

A maternidade me transborda quando não me dá direito a uma noite tranquila de sono, já que eu preciso estar sempre alerta se algo acontecer. E assim a maternidade é capaz de transbordar de culpa quando você passa a precisar de remédios para dormir e ter o mínimo de sanidade.

Ser mãe me transborda de responsabilidades que não chegam ao fim. Não basta levar a minha vida, eu tenho que cuidar da vida de outro ser humano. Parece simples, até você se tocar que ele morre se você não cuidar direito.

A maternidade me transborda com choros, sangue, catarro, vômitos e diarreias que eu não tenho vocação pra cuidar, mas que eu tenho que fazer mesmo assim. Me transborda de força quando a cria está cansada, quer dormir e vocês não estão em casa ainda. É preciso força física para segurar aquele corpinho por algumas horas junto ao seu e às vezes, força emocional para segurar seu próprio cansaço.

Eu me transbordo em crises de ansiedade quando eu tenho que lidar com uma manha ou malcriação por parte dela. Me transbordo porque não me sinto apta a lidar com aquela situação, mas tenho que lidar mesmo assim. Me transbordo com as contas que não param de chegar. Com as roupas que não param de encolher. Com as cobranças que não param de se acumular nos meus ombros.

A parte boa é que transbordar de amor é o que faz a experiência toda valer a pena. Sorrir com o canto da boca cheio de ketchup, receber uma videochamada porque a pessoinha está com saudades, dormir abraçadas como "duas salsichinhas" em que nós somos as salsichas e a coberta, o pão. É, mesmo depois de uma briga, ouvir "eu te amo mais do que tudo nessa vida" (essa é uma atitude dela, eu não tenho maturidade para brigar e dizer que amo logo depois). É ver um ser humano crescer usando você como exemplo, como molde. É ganhar um beijo na ponta do nariz antes de entrar na sala de aula.

Toda a experiência transborda. A maternidade me transborda talvez porque ela já não coubesse em mim. Não havia espaço planejado para ela, mas aqui estamos, eu e ela.

Follow Us @soratemplates