segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Vinte e seis

Aniversário é uma época de análise, né? Se não é pra você, deveria ser, eu aconselho. É bom olhar pra trás e ver como é bem provável que nada daquilo que você planejou saiu como esperado.

Volto uns cinco anos no tempo e percebo que eu sou uma pessoa bem diferente do que eu era e bem diferente do que eu imaginava que seria. A garota que queria fazer as malas e partir pra Nova York a qualquer custo deu lugar a uma mulher com casa, carro, filha, "emprego estável" e, vez em quando, uma vontade louca de ter um gato e um cachorro. A garota que não queria ter endereço, ser uma autêntica cidadã do mundo, hoje em dia tem uma caixa de correios onde as contas não param de chegar.

Aos 26 anos eu soprei as velas do meu bolo do Batman e meu único pedido foi: garota, sem decisões equivocadas daqui pra frente. Acho que já era hora. Demorei alguns anos pra perceber que era muito equivocado se deixar levar pelos sentimentos. Seja ele raiva, seja ele amor. Aquele ditado que diz que o ódio é um copo de veneno que nós tomamos esperando que o outro morra é a mais pura verdade. Ódio é veneno. Tomar porre de veneno é uma decisão equivocada.

Na autoanálise eu me assumi como uma pessoa completamente aleatória, sem medo de ser feliz. Sou dessas que sai de casa tocando guitarra imaginária com Foo Fighters e volta segurando o quadril pra não dançar arrocha no metrô. Sou dessas que curte fossa ouvindo o quarteto Só Pra Contrariar, Raça Negra, Nina Simone e Frank Sinatra. Sim, todos juntos. Uso vestido com Allstar e as pessoas olham como se fosse revolucionário (não é, gente). Sou o tipo de amiga que aconselha, briga, dá colo e começa a zoeira, tudo ao mesmo tempo. E não pode reclamar, é o pacote completo. Sou muito tímida mas não tenho medo de falar o que penso e o que sinto. Passo a maior parte do tempo dando respostas secas, de cara fechada ou fazendo piadinhas idiotas, mas sou muito chorona. Quando me fizeram surpresa de aniversário no trabalho e eu encontrei a minha mesa toda decorada com Batman, Molejo, É O Tchan e coxinha eu simplesmente caí no choro. "Ela é humana!", disseram.

Cheguei aos 26 com carinha de 16 e eu não sei se vejo vantagem nisso. É por causa da cara de novinha que eu ouço:

- Você é estagiária?

- Nossa, tão nova e já com filho!

- Esse cartão de crédito é seu?

- Estão contratando Menor Aprendiz aqui?

- Menina, você é maior de idade? Identidade, por favor.

É por causa da cara de menor de idade que os caras evitam chegar nas baladas. Ou isso ou é a cara de brava. Não sei, quem tiver uma resposta mais concreta, a caixa de comentários tá aí. Acho muito mais fácil falar que é isso do que confessar a minha inaptidão pro flerte.

Foi aos 26 que eu descobri que tem um montão de gente que me usa como exemplo e eu fiquei meio chocada, sabe. A minha vontade é dizer pra esse povo: gente, não me segue, não. Eu também tô perdida. Acordo todos os dias e tenho que repassar o dia anterior pra ter certeza que não tomei nenhuma das decisões equivocadas, que não dei nenhum passo maior que a perna. Mas, ao mesmo tempo, é um afago na alma. Gosto de poder dizer pras pessoas: ó, tá uma merda agora, mas vai ficar tudo bem, tá? Se eu dei conta você também dá. E nem é tão difícil assim. Vejo pessoas inventando certas condições ideais pra poder dar o próximo passo na vida. Só que as condições ideais vão chegar sabe quando? Não vão. É provável que você tenha que criar essas condições ou seguir a lógica do "é o que tem pra hoje". Muitas pessoas empacam no meio do caminho. Custa nada dar um passo na penumbra de vez em quando, em prol de um bem maior.

1/4 de século e mais 365 dias vividos e eu quase entrei numa briga com um cara, já bati boca com um ladrão que tentou roubar o celular de um namorado (e ele não conseguiu levar o celular), nunca bati o carro, saí da faculdade sem histórias loucas pra contar, já peguei um avião pra conhecer um cara que eu nunca tinha visto pessoalmente, passei muita vergonha alcoolizada, dei muito colo pras amigas (e recebi muito, também). Conheci pessoas incríveis. Umas estão comigo até hoje. Outras vieram pra deixar uma mensagem e eu sei que, assim como eu guardo um pouco delas em mim, elas guardam um pouco de mim nelas. Já chorei que nem criança num show do Só Pra Contrariar e do Raça Negra, já me acabei de dançar num show do É O Tchan, já paguei de tiete num show do Molejo. 26 anos e eu tenho receio de viajar de avião. 26 anos e faz uns 6, pelo menos, que não vou à praia por falta de companhia.

No final das contas, é essa bagunça toda que me fez viver bons 26 anos. E que venham os próximos.


domingo, 12 de outubro de 2014

Senta que lá vem história

Quase três anos de Cilada e eu nunca contei publicamente como este espaço surgiu, né? Pois então, chega mais.

Pé na bunda é uma coisa que, apesar de tudo, tem que empurrar a gente pra frente. Afinal, uma cilada que não gera nem aprendizado é desperdício de vida.

Eu entrei numa cilada que me deixou muito da desorientada. Sabe aquela paulada que você recebe pelas costas? Pois é. Só que eu já tinha alugado tanto o ouvido dos meus amigos com o assunto que tivemos que fazer um acordo de não falar mais sobre isso. Mas eu ainda queria falar. Juntei isso ao fato de que eu estava me sentindo enferrujada e emburrecendo porque não produzia, não escrevia. Escrever não é como andar de bicicleta, gente. É sofrido, tem que praticar, sofrer, investir.

- Preciso de um blog.

O nome do blog, pra mim, é um cartão de visitas. Se encontro um chamado "Mundo Encantado de Uma Princesinha em Apuros" eu já passo longe. Já um que chama "No fundo eu sou otimista (mas eu sempre imagino o pior)" ganha a minha simpatia automaticamente. Não ia pagar de jornalistona séria porque não sou assim e não ia colar. Alguns dias de brainstorm e ideias que me acordavam no meio da madrugada e surgiu "Não era amor, era cilada". CARA! Nome perfeito para o que eu tava passando. E o que significa? Significa que essa é minha vida, esse é meu clube. Além, é claro, de uma homenagem à banda que é melhor que Beatles.

Foi esse o post em que eu desabafei sobre a minha (ridícula) vida amorosa naquele momento. Sim, só isso. Me dei por satisfeita. E aí percebi que eu poderia usar esse espaço pra falar sobre coisas melhores, né? Foi assim que eu me diverti escrevendo o post em que eu conto sobre o medo de pato, sobre a minha "primeira vez", falei de infância, de maternidade. Falei de coisa séria, como o Estatuto do Nascituro e toda aquela treta com a Crescer. Desabafei, amadureci. E continuo aqui vivendo. Recebi muitos desejos de "mais amor e menos cilada na sua vida" no meu aniversário e olha, eu também espero muito isso. Vamos aguardar.

Então, se você curte o que eu escrevo por aqui, independente do motivo ou da temática, você deve agradecer ao cara que dizia que queria ficar comigo, ser um homem digno pra mim mas estava saindo com mais duas garotas. Tudo bem que eu não falo mais com ele, que ele pode ter mudado ou que nem se lembra mais de mim. Mas o pontapé pra iniciar tudo isso veio dali. Valeu, cara!

Este post faz parte da blogagem coletiva do Rotaroots um grupo das interwebs empenhado em manter a blogosfera marota, blogosfera de raiz. Vem brincar com a gente, ó!

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Eu te desejo não parar tão cedo

Queria muito falar que eu quero mais é que você se foda. Que você tem mais é que sofrer mesmo. Que tem que passar por tudo que me fez passar. Mas não dá. Se eu já não desejo mal pra outras pessoas, pra você eu não desejaria mesmo. Quero mais é que você seja bem feliz.

Que você perca esse medo de se relacionar com alguém. Que encontre a felicidade em você mesmo. Que você encontre nela o que procurou em mim e não encontrou. Que sua nova namorada possa te abraçar sempre que você quiser, que possa te beijar sempre que puder. Que você não tenha vergonha de sair com ela na rua, que tenha orgulho de dizer "minha namorada".

Que ela tenha uma paciência maior que a minha, que faça por você muito mais do que eu fiz. Porque, apesar de tudo, você é uma pessoa que merece ter alguém especial ao lado. Que você perca o medo de se abrir, de se envolver. Você pode até quebrar a cara algumas vezes, mas se você não se jogar, não vai viver coisa alguma. Nem as coisas boas. Você precisa de coisas boas.

Que você encontre alguém que valorize o que você é. Que faça você rir até apertar o olho. Que faça você perder o medo. Que não te deixe parar nem andar pra trás. Alguém que seja aquela força quando você estiver esgotado.

Desejo que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansado que ainda exista amor pra recomeçar. Porque eu ia te dar tudo isso e um pouco mais. Mas se foi com outra pessoa que você escolheu ficar, que você seja a pessoa mais feliz do mundo, foi o que eu sempre te desejei. Que você fosse feliz. E é o que eu espero que você seja. Porque esse sofrimento todo tem que valer a pena pra alguém.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

The One With The Dirty Girl

Hoje eu abri a porta de casa e, antes de acender a luz, pisei num brinquedo. Percebi que era a Peppa pelo barulho irritante. Tratei de levar a mão ao interruptor antes de dar o próximo passo porque eu sabia que a probabilidade de encontrar uma peça de Lego pelo caminho era alta.

- Assim que eu trocar de roupa, eu volto e arrumo.

Faz uma semana que eu digo isso.

A porta da cozinha está fechada. O que os olhos não veem (a louça suja), o coração não sente (peso na consciência).

- Hoje eu lavo. Assim que terminar de guardar as compras.

(A minha sorte é que eu adoro ir ao mercado)

Abro a geladeira e vejo a caixa de leite que ficou pela metade depois da última receita frustrada. Não mexo porque já deve ter estragado. Que desperdício de dinheiro. Tem gente passando fome e a besta aqui deixando comida estragar.

Sento no sofá depois de guardar as compras. Obviamente não lavei a louça ainda. Escolho uma trilha sonora adequada para arrumar a casa numa quinta à noite e encontro Bruno e Marrone.

- Agora vai!

Não foi. Fiquei no sofá, assistindo ao show.

Olho ao redor e vejo um cenário pós apocalíptico e me pergunto como as pessoas normais dão conta. Não é possível. Eu nunca dei conta da minha própria bagunça e a bagunça de uma criança, filha de uma mãe bagunceira, é pior que a zuera, ela não tem fim. Só pode ser genético. Bagunça é uma coisa tão pessoal, né? Fico imaginando quem poderia entrar aqui, neste momento, sem que me causasse constrangimento.

- É melhor eu arrumar essa zona antes que alguém apareça por aqui.

Lembro que algumas pessoas tiveram acesso a esse universo paralelo e ficaram transtornadas. "Como você consegue?" "Você nunca vai poder morar sozinha"; "Como a gente vai conseguir morar na mesma casa desse jeito?"

- Foda-se. Vai ficar bagunçado mesmo.

E aí eu me vejo naquele episódio de Friends em que o Ross finalmente consegue sair com a mulher mais gata do museu e quando eles chegam na casa da moça, é a maior zona.

Ross: You know how you throw your jacket on a chair at the end of the day?

Joey: Yeah...

Ross: Well, like that, only that instead of a chair it's a pile of garbage. And instead of a jacket it's a pile of garbage. And instead of the end of the day it's the end of time, and garbage is all that has survived. 

O-fim-dos-tempos.

- Nossa, eu preciso arrumar isso.

A sala está arrumada. Sento no sofá com alguns segundos de sensação do dever cumprido. São segundos mesmo. Lembro que é dia de pagar o condomínio, o aluguel, a luz, a água, o telefone, vai dar meia noite. Corro pro computador. Se não resolver isso a tempo, vou ter que pagar no banco.

- Putz, no banco não.

E da preocupação com a bagunça eu passo para a preocupação com dinheiro. De repente até a louça perdeu a importância diante do grande malabarismo financeiro que estou prestes a executar.

- Não paguei o cartão, putz.

Faz conta daqui, aperta de lá, se arrepende dos livros que comprou, das roupas. Faz promessa de não comprar nada pelos próximos 3 ou 4 meses, cata moedinha pela casa, assalta o cofre da criança.

- Mês que vem vai dar tudo certo. Como é que meu pai dá conta?

Chego no quarto, exausta fisica e mentalmente por causa do trabalho, do mercado, do metrô, da cria, da semana, da fossa, da enxaqueca, do sono e dou de cara com duas pilhas de roupa. Uma de roupa suja, outra de roupa sem passar.

- Amanhã eu passo isso.

E foi assim que eu terminei a semana usando a mesma roupa duas vezes. E dessa vez não foi por falta de tentativa. Tentei passar umas camisas e ficou, ó: uma bosta. Vida que segue.

Mesmo que eu reclame, mesmo que minha mãe reclame, mesmo que você venha aqui em casa e reclame, o que importa é que eu vou chegar na minha casa, andar pela minha casa bagunçada, sentar no meu sofá, ver um filme na minha TV, depois deitar por cima das minhas roupas que estão em cima da minha cama. Tudo meu, meu canto, meu lar. São quase troféus. Não troco, não devolvo. Mas que vez ou outra dá vontade de chorar com tanta responsabilidade, isso dá.

- Amanhã eu arrumo isso.

domingo, 8 de junho de 2014

A consulta

- Doutor, eu vim aqui pra pedir um atestado.

- O que você tem? Eu não posso dar um atestado sem uma doença que necessite de repouso, ou que corra risco de contagiar outras pessoas.

- Não é contagioso, eu acho. Mas tá doendo, doutor.

- Onde?

- Aqui, ó.

- Tá com dor no peito?

- Não, doutor, é no coração mesmo, tá partido.

- Coração partido não é doença.

- Acompanha meu raciocínio, doutor. Você já teve o coração partido? Ele dói de verdade. Não sei explicar como, mas é uma dor real. Junto com ela vem uma vontade incontrolável de chorar, em qualquer lugar, a qualquer momento. Já tentou trabalhar com os olhos cheios de lágrimas o tempo todo? Sem contar a necessidade de ficar em posição fetal o dia todo, também. Não é sono, é uma vontade de ficar imóvel, na posição mais acolhedora que o ventre das nossas mães nos ensinou, sem falar, gastando energia só pensando na vida, limpando as lágrimas e o catarro. Ah, doutor, o catarro. É vergonhoso. Ele se multiplica, escorre, vira cola, até. Imagina se eu me descontrolo no meio da firma, doutor. O que o meu chefe vai pensar de mim? Além disso, não existe concentração suficiente para exercer qualquer atividade. Minha carreira está correndo sérios riscos. Eu só preciso de um tempo pra me recompor. Passar uns dias na fossa, sem tomar banho e alternando horas sem sequer olhar pra comida e depois horas comendo sem parar. Quero um tempo pra chorar vendo Querido John sozinha, sem incomodar o resto do mundo. Chorar e soluçar até ter ânsia de vômito e crise de enxaqueca. Mas eu sei que depois disso, depois de chegar no fundo do poço emocional, eu vou conseguir me levantar e, assim, estarei apta para o convívio social. Me ajuda, doutor.

- Isso pode ser uma virose.

- Serve. Quantos dias?

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O dia que eu me libertei

Bucha. Cabelo ruim. Juba. Cabelo de vassoura. Vassoura de varrer teto. Cabelo duro. Isso foi o que eu ouvi a vida inteira sobre o meu cabelo. Por mais que eu até gostasse dele, sempre tinha aquele sentimento de exclusão por ter cabelo cacheado. Odiava ir ao salão porque era só um cabeleireiro colocar as mãos no meu cabelo pra dizer o quanto ele era ressecado, indicar mil hidratações que eu precisaria fazer, ou pior, quando faziam cara feia na hora de pentear, porque “é muito embaraçado”, “ai, como é difícil, até dói o braço”.

Sempre tive cabelo comprido. Uma das razões era pra que o peso do cabelo fizesse a sua parte na gravidade e puxasse o meu cabelo pra baixo, pra que não fosse “tão volumoso”. Olha, ser criança com todas essas restrições dá um certo trabalho. Eu tinha que arrumar o cabelo todo dia antes de ir pra rua. Mas não podia simplesmente pentear ele seco. Ou eu tomava banho (tomar banho antes mesmo de se sujar, era uma perda de tempo) ou enfiava a cabeça debaixo da torneira pra molhar, pentear e aí sim, poder sair pra brincar. Uma hora a menos na rua só com esse procedimento. 

Esse era o procedimento na hora de ir pra escola também. Imagina uma garota de 12, 13 anos, enfiando a cabeça debaixo da água fria às 6 da manhã pra poder arrumar o cabelo. Ou ter que acordar mais cedo pra tomar banho e dar um jeito na “juba”.

Por um tempo, na escola, eu só usei cabelo preso. Esticava tanto o cabelo no rabo de cavalo que o olho dava uma puxada. Ou então, quando estava solto, estava melecado com 2kg de creme, pra não correr o risco de que outras pessoas vissem meu cabelo volumoso. Dia desses uma amiga me contou que nem a cabeça eu mexia, pra não tirar o cabelo do lugar.

Até que um dia eu resolvi me libertar. Ou, pelo menos, começar o processo. Depois que a Alice nasceu, meu cabelo começou a cair. Reza a lenda que era efeito da anestesia do parto. Além disso, sobrou nada de tempo na minha vida pra cuidar de cabelo. Foi aí que começou o processo de encurtamento e de ligar o foda-se pra opinião alheia. Um dedo aqui, meio palmo ali. Até que um dia eu falei: corta no ombro. A cabeleireira, a mesma que acompanhou todo meu drama de ter que manter meu cabelo grande na parte da infância e adolescência, ficou chocada. Não cortou o tanto que eu pedi. Eu insisti: tá economizando por que? Passa a tesoura. (Só quem tem cabelo cacheado vai sacar que, ao cortar o cabelo no ombro, ele subiu até quase na orelha).

Foi nesse dia que eu me libertei da ditadura do cabelo comportado. Foi maravilhoso. Fiquei lembrando de quanto tempo eu perdi tentando manter o cabelo no lugar, ou deixando de ir a lugares porque meu cabelo não estava arrumado o suficiente e eu não teria tempo de passar por todo o processo, morrendo de medo de vento, deixando de me divertir e dançar como gostaria pra não ficar descabelada e tendo certeza que as meninas de cabelo liso eram mais bonitas que eu. "Você fica mais bonita de cabelo liso". Não, eu fico bonita do jeito que eu quiser. Isso é muito difícil de aceitar, num mundo tão racista, em que os padrões de beleza exigem da gente uma pele clara, um cabelo liso e olho claro.

Eu aprendi, aos 20 e tantos anos, a realmente gostar do meu cabelo. Aprendi a cuidar com produtos que valorizam, a ignorar cabeleireiro, já que eu faço minhas próprias hidratações e sei quando meu cabelo está precisando de cuidado. Não, moço, eu não preciso de uma hidratação pra “abrir os cachos”. Isso é um eufemismo pra “bora esticar esse cabelo até ele ficar liso”. Moça, tá achando ruim pentear meu cabelo? Você, como profissional da área, deveria saber que pentear cabelo cacheado com um pente fino desses dá um trabalhão mesmo. Deixa que eu penteio.

Minha alegria hoje é me olhar no espelho e fazer coisas que me deixariam “de cabelo em pé” uns anos atrás, como sair de casa sem precisar pentear o cabelo, amassar bastante ou jogar ele todo pra frente pra ativar os cachos, sair de casa sem precisar molhar o cabelo.

Lembro que, quando terminava todo o processo de controlar o cabelo, pensava: acho que vai ficar no lugar. Hoje o pensamento é: tô linda, tô gata, tô arrasando. E saio desfilando como se fosse Beyoncé em Crazy In Love. Porém, com cachos. ;)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Ocupar espaços vazios

Decorar uma casa, pra mim, é, basicamente, saber quais e como ocupar os espaços vazios de uma casa (que pode ser apartamento, quitinete, flat, puxadinho, etc, mas eu sempre vou chamar de casa). Num dia você tem um quarto cheio de cacarecos acumulados da infância, adolescência, fase adulta e fase bebê do outro projeto de gente com quem dividia o quarto e que estão acomodado há tempos no lugar em que estão. No outro dia, há uma sala esperando um sofá e uma mesa, um quarto mais ou menos ocupado, um guarda-roupa sub utilizado.

Nos meus planos, eu mudaria com a casa completinha. Juntei dinheiro, pesquisei durante meses, fiz uma lista de prioridades com o preço mínimo e máximo que eu poderia pagar em cada móvel. No papel e na tela do tablet é tudo bonito, né? Enquanto a gente mora com pai e mãe e tem poucas contas pra pagar, o dinheiro sempre dá, né? Na prática, aparecem boletos de cantos inimagináveis que levam seu dinheiro embora. A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia, já diziam Mamonas.

A lista de prioridades eu já nem sei por onde anda. Deve ser por isso que, antes mesmo de mudar, eu já tinha uma TV pra sala, mas ainda não tinha cama nem sofá. Comprei a estante de quadrinhos antes da mesa. Comprei quadros sem nem saber se eles combinariam com a decoração. Comprei gravuras antes das molduras e, quando comprei as molduras, esqueci de comprar o martelo. Finalmente, quando consegui reunir tudo isso, faltou o prego.

Aos poucos o espaço-a-ser-preenchido pega a minha forma. Os puffs, que fazem o papel de sofá, estão colocados estrategicamente no melhor lugar: na frente da TV. A mesa da casa é a mesa da Barbie que a Alice ganhou de aniversário ano retrasado. O Kinect está numa distância razoável, que me permite usar o espaço vazio de várias formas (confesso que o Just Dance prevaleceu por muito tempo na disputa quero-um-sofá ou preciso de espaço-pra-jogar?).

Engraçado como, no espaço que é meu, eu deixei de ter medo do escuro. Sim, eu tenho 25 anos e tenho medo de escuro. Mas eu tenho medo de pato também, que eu considero muito mais anormal. No meu escuro eu me dou bem. Torço apenas para não encontrar nenhuma peça de Lego e nenhuma quina pelo caminho. De resto, tá tudo bem, agora.

A cozinha está quase toda ocupada. Só acho que preciso de mais panelas. Ficar revezando com duas panelas e uma frigideira me faz ter que lavar a louça mais vezes do que eu gostaria. O que não deixa de ser uma coisa boa, porque eu já descobri o que a anarquia numa cozinha pode fazer. Meu livro do Jamie Oliver me acompanha sempre, apesar de, na maior parte do tempo, quando eu invento de fazer uma receita específica, eu percebo que esqueci de comprar algum ingrediente.

O único espaço que eu achei que não fosse precisar me preocupar porque já estava devidamente, e muito bem ocupado, era o que você resolveu desocupar. Sinceramente, não sei o que fazer com ele, porque parece que só de pensar na ideia de mexer nele, dói. Optei por deixar ele assim. É como naqueles filmes em que uma pessoa leva uma facada, mas não podem retirar a faca porque causaria uma hemorragia e a pessoa morreria em questão de segundos. Ou como naquele episódio de Dexter (que você não viu - provavelmente nunca vai ver) em que a moça foi guardada toda esquartejada dentro de um armário bem pequeno. Aquilo foi o que salvou a vida dela, porque ficou tudo tão juntinho, tão intacto que o sangue se manteve dentro do corpo.

Vou manter o seu espaço do jeito que você deixou quando foi embora. Tem uma parte estúpida de mim que acha que você vai voltar e não quer que você tenha surpresas. A outra parte só não quer mexer porque seria doloroso demais. Vou ficar bem quietinha dentro de um armário bem pequeno para evitar maiores desastres.

Hoje resolvi não planejar tanto e comprei o meu sofá. Foi paixão à primeira vista. Ele vai combinar direitinho com minha outra paixão: Netflix. Dá pra passar horas vendo TV (no sentido mais amplo da expressão possível) e jogando. Você iria gostar.
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