terça-feira, 8 de maio de 2018

Pensar no outro

11:17 0 Comments


Eu segurei até onde pude. Não queria ser a pessoa que começa qualquer coisa com "a minha psicóloga disse...", mas não vai ter jeito. Como jornalista, eu não posso tomar a frase dela pra mim. Eu nunca teria pensado nisso sozinha.

A minha psicóloga disse, uma vez, que se preocupar com alguém é abrir mão de um pouquinho de você. Nós estávamos falando sobre expectativas, e ela me dizia que, para pensar no outro, as pessoas precisavam deixar de pensar em si por alguns instantes. E que nem sempre as pessoas estavam dispostas a isso.

*
Um dia, uma amiga apareceu lá casa no meio de uma crise de ansiedade minha. Eu estava sentada no chão, controlando o choro, de pé quebrado, envolta por uma zona de uma bagunça indescritível. Nós havíamos marcado uma limpeza de pele no salão da rua de cima. Bem dondocas mesmo. Vendo aquela cena de uma casa que parecia ter sido revirada por alguém, ela respirou, olhou a extensão do estrago e pediu pra cancelar a limpeza de pele. Trocou um dia de madame por um dia de faxina.

Enquanto isso, eu continuava sentada no chão, parecendo uma acumuladora em surto como as que a gente vê naqueles programas. Chorava quando ela mexia onde eu não deixava, ordenava que não jogasse coisas fora, que não entrasse nos cômodos. Ela entrou. E limpou. E onde não deu conta, chamou o irmão pra ajudar. Doeu como poucas coisas na vida e ainda dói só de lembrar. E aposto que doeu neles também.

As pessoas precisam deixar de pensar em si para pensar nos outros. Essa frase fica martelando em minha cabeça toda vez que eu relembro esse dia. Ela abriu mão de um sábado inteiro por mim. O irmão dela, que nada tinha a ver com a história, se moveu de onde estava para me ajudar também. Um dia em que duas pessoas abriram mão delas só para pensar em mim e eu não sei nem se um dia vou conseguir retribuir.

Por quem você abriria mão de pensar em você por uns momentos?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Os dentes da Gabi

02:09 1 Comments



A Gabi é uma mulher fantástica. Divertida, simpática, despachada, alta, morena, cabelos lindos, gostosa. Mas eu queria falar do sorriso, que é enorme e cativante, além da auto estima. Se ela fosse uma música do Charlie Brown o cara já tava perdendo a linha na primeira. 

A Gabi ama carnaval. Leva a sério a história de entrar num personagem criativo.

Em um desses dias de folia a Gabi perdeu o dente numa luta por um pirulito com um outro folião. A tentativa de furto ocorre quando o moço puxa o pirulito da boca da moça. Eu não falei ali em cima, mas a Gabi é bicha arretada, mulher barraqueira quando necessário. Ela travou os dentes e defendeu seu patrimônio. Ele puxou mais, ela travou sem chance de ceder. Quem perdeu a batalha foi o dente. Aquele da frente, o atacante, o menino Bebeto, aquele primeiro que é visto na hora do sorriso. Gabriella agora era dona de metade de um pirulito e um dente quebrado que era impossível de esconder.

Quando ela me contou, achei que a noite havia acabado por ali. Mas a noite só havia começado. Gabriela usou sua auto estima do caralho pra não perder o seu sorriso tão característico. Ela sorria ainda mais do o normal. Aparentemente, a fantasia da auto estima que ela estava usando a deixava ainda mais bonita porque ela passou o rodo no bloquinho, mesmo quando o cara chegava nela e ela apontava pro dente. Eles simplesmente não ligavam porque ela mesma também não estava nem aí. Inclusive postou várias fotos nas redes sociais.

A noite da Gabriella terminou muito bem e até acompanhada. Eu tirei uma lição e confirmei outra dessa história. A primeira lição foi a de que a auto estima é a melhor roupa que você pode vestir pra se sentir bem. Tudo fica interessante quando a pessoa é interessante.

A lição que eu confirmei é que eu agora me arrumo pra mim. E isso quer dizer que eu posso não me arrumar e me sentir bem se eu estiver com a auto estima em alta. Foi assim que saí com vários caras sem tomar banho para o evento específico, sem estar com uma roupa que chamasse atenção ou sem passar perfume, por exemplo. E eles diziam que eu estava muito cheirosa. Eu podia soltar a frase que eu uso quando tô insegura: "ah é? tô suada, nem tomei banho hoje". Mas eu deixei sentir só o cheirinho da minha auto estima tomando conta.

Até adotei um mantra: Se a Gabi pegou 5 banguela, eu posso pegar um sem pentear o cabelo. Faça a sua versão e seja feliz.

Mulheres com alta auto estima vão longe. Mulheres com alta auto estima e um dente quebrado vão a lugares que a gente nem imagina.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Terrible 7

11:34 0 Comments


Existe uma idade das crianças que é rodeada de mistérios e desesperos por parte dos pais. Os "terrible 2", a crise dos dois anos, é conhecida e esperada por pais do mundo inteiro. Os bebês passam por uma fase rebelde, passam a se enxergar como um ser humano cheio de direitos e vontades. É o terror de cada pai, mãe, avós, tia da creche. Eu não me lembro de ter me preocupado com essa idade, quando a Alice era bebê. Eu estava me preparando para a fase em que eu achava que as crianças eram mais chatas: os 7 anos.

Eu defini essa margem muito antes de ter a Alice. Me sinto uma pessoa privilegiada por ainda ter lembranças sólidas da infância. Por isso, muito do meu comportamento como mãe se baseia em "como eu era nessa idade?" ou "como uma criança age nessa idade?". Foi assim que eu defini que as crianças de 7 anos (até os 13, mais ou menos), eram mais mais pentelhas que eu poderia conhecer. Cheias de opiniões, achavam que sabiam de tudo, já tinham perdido as feições fofas dos bebês, queriam ser independentes. Um terror.

Alice fez 7 anos.

E, de fato. Crianças de 7 anos são terríveis. Elas perderam as bochechas fofas de neném. A boca tem buracos de dentes que caíram, dentes que estão nascendo, dentes enormes contrastando com dentes de leite. Elas pensam. Raciocinam. Dialogam. Respondem. Criam seus próprios conceitos. Debatem. Querem saber o porquê de tudo. Não adianta mandar, tem que convencer, dialogar, mostrar os prós e contras, fazer uma lista, um gráfico, mostrar pesquisas, sei lá quais outros métodos.

Alice fez 7 anos. Ela virou uma mini eu.

Não é mais o meu bebê. Agora eu ensino significado das palavras, não mais ensino como elas devem ser faladas. Ensino as consequências de cada ação, não mais mando ela fazer qualquer coisa pelo motivo "porque sim, Alice". Ela já sabe que mal comportamento me dá margem pra que ela perca privilégios. Sabe que a viagem que ela sonha em fazer não vai se materializar na frente dela. Sabe que precisamos juntar dinheiro, que preciso esperar as férias do trabalho. Ela tem vontades bem definidas, tem gostos. Confesso que isso exige muita paciência, jogo de cintura, o que nem sempre eu tenho.

Mesmo assim, tem sido do caralho.

Ela não é só mais um ser humano cuja vida depende exclusivamente dos meus cuidados. Ela já tem um certo nível de independência que deixa nós vivermos juntas as experiências. Não é só eu tomando conta dela, ou ela do meu lado porque eu preciso estar em algum lugar. A gente compartilha as experiências. Uma verdadeira companheirinha.

A gente vê Harry Potter e conversa, por causa de um questionamento dela, sobre o que leva as pessoas a serem tão más umas com as outras. A gente joga Minecraft e conversa sobre soluções para a casa que ela está construindo. A gente anda na rua e ela entende que precisa atravessar na faixa de pedestres e fazer o sinal com a mão para que os carros parem. Entende as consequências de se atrasar pra aula.

Dia desses ela tava arrumando as coisas no quarto dela e encontrou alguma coisa:

- Mamãe, vem ver o que eu achei
- Peraí, Alice, já vou

Eu tava mexendo no celular, com preguiça de ir no quarto dela olhar.

- Mamãe, você tá vindo?
- Tô, Alice. Peraí.
- Você não tá vindo porque tá no celular né. Eu tenho certeza que você tá nesse celular, não larga pra nada.
- Aff Alice, claro que não, eu hein

Ela chega no meu quarto e eu estou mexendo na porcaria do celular. Ela não fala nada, só me olha com a cara de "não falei?". No que eu respondo:

- Eu peguei agora!

Ela já me conhece. Conhece meus hábitos. Não dá mais pra enganar. Ela já raciocina.

Outro dia a gente estava vendo Supergirl. E um cara da 5ª dimensão apareceu. Ele estava completamente apaixonado pela Supergirl e queria convencer ela, de qualquer jeito, a casar com ele. Um dos argumentos que ele usou foi o de que ele poderia dar à Supergirl o que ela quisesse, era só ela pedir que ele estalava os dedos.

- Ter tudo que deseja deve ter muito entediante.

Esse não é o nível de raciocínio que eu esperaria de uma criança. Eu não sabia nem que ela sabia o que era entediante. Por isso, perguntei:

- Entediante, Alice? Como assim?
- Ah, imagina, ter tudo o que quiser. Estala o dedo [aí ela fazia o movimento com os dedos] e vem tudo. Que sem graça. Pra que eu ia sair de casa?
- Nossa, é mesmo, né.

Eu dei a resposta mais idiota que eu poderia dar porque fiquei sem palavras. Educar uma criança, dar espaço para o convívio com outras pessoas, ler livros, ver filmes, internet e jogos são vivências que deixam uma bagagem na criança, afinal. Porque não foi eu quem ensinou esse raciocínio pra ela. Não diretamente. Foi ela quem o desenvolveu. Olha como a educação é uma arma poderosa. Ela poderia ter aprendido, por exemplo, que matar seus inimigos é o caminho para se conquistar o que deseja. Ou que ela tem que ser uma princesa e esperar o príncipe estalar os dedos e dar tudo que ela quiser.

Os "terrible 7" não tem sido tão terríveis, afinal. Digo isso sem qualquer romantização, já que ela tá de castigo por causa de um escândalo que aprontou na hora do almoço de ontem. Eu perdi o meu bebê, aquela bolinha fofa que dá vontade de apertar. Mas ganhei uma pessoinha com uma visão de mundo muito divertida. Um pouco dramática, talvez. Mas com certeza ganhei alguém com quem vai ser legal dividir o resto da vida.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ser mãe não me completa

08:50 0 Comments


Ser mãe não me completa. Eu já era um ser humano inteiro antes da maternidade me pegar de surpresa e me dar um sacode. Eu já era uma mulher cheia de sonhos e objetivos antes de ser mãe. Odeio esse papo de filho trazer, enfim, um significado para a vida de alguém, como se antes estivesse faltando um pedaço, ou um motivo para existir. Ser e existir já é um grande objetivo.

Essa noite eu cutuquei uma espinha no meio da testa e saiu sangue. Minha filha prontamente levantou da cama, avaliou o local com cuidado, foi até a caixinha de curativos e buscou um band aid do Batman. Com toda a delicadeza que as mãos de uma criança de seis anos pode ter, ela colocou o band aid na minha testa, passou os dedos e finalizou com um beijo. O fato de eu não querer tirar esse curativo feito por ela me mostra que a maternidade não me completa: ela me transborda.

A maternidade me transborda quando a minha filha me reconhece como um lugar seguro. Quando ela me espera chegar do trabalho, quando pede pra não sair naquele dia porque ela só quer ficar em casa comigo vendo TV e comendo coisas sem qualquer valor nutricional. Me transborda quando eu chego em casa e tem um bilhete "i lov yu" me esperando. Ser mãe me transborda porque todos os dias eu tenho que melhorar minhas estruturas pra receber tudo que a maternidade me traz, e mesmo assim, não cabe tudo.

Mas a maternidade me transborda também como se fosse uma fralda cheia de cocô. Daquele que vaza e mancha a roupa nova, que sobe até as costas. Me transborda quando ela me espera pra fazer o dever de casa porque, naquele momento, eu já não tenho um neurônio que possa ser usado e mesmo assim eu tenho que ajudá-la a fazer um robô com sucatas que eu tenho que inventar, como as caixas dos meus sapatos ou a caixa dos ovos que ainda está na geladeira.

A maternidade me transborda quando não me dá direito a uma noite tranquila de sono, já que eu preciso estar sempre alerta se algo acontecer. E assim a maternidade é capaz de transbordar de culpa quando você passa a precisar de remédios para dormir e ter o mínimo de sanidade.

Ser mãe me transborda de responsabilidades que não chegam ao fim. Não basta levar a minha vida, eu tenho que cuidar da vida de outro ser humano. Parece simples, até você se tocar que ele morre se você não cuidar direito.

A maternidade me transborda com choros, sangue, catarro, vômitos e diarreias que eu não tenho vocação pra cuidar, mas que eu tenho que fazer mesmo assim. Me transborda de força quando a cria está cansada, quer dormir e vocês não estão em casa ainda. É preciso força física para segurar aquele corpinho por algumas horas junto ao seu e às vezes, força emocional para segurar seu próprio cansaço.

Eu me transbordo em crises de ansiedade quando eu tenho que lidar com uma manha ou malcriação por parte dela. Me transbordo porque não me sinto apta a lidar com aquela situação, mas tenho que lidar mesmo assim. Me transbordo com as contas que não param de chegar. Com as roupas que não param de encolher. Com as cobranças que não param de se acumular nos meus ombros.

A parte boa é que transbordar de amor é o que faz a experiência toda valer a pena. Sorrir com o canto da boca cheio de ketchup, receber uma videochamada porque a pessoinha está com saudades, dormir abraçadas como "duas salsichinhas" em que nós somos as salsichas e a coberta, o pão. É, mesmo depois de uma briga, ouvir "eu te amo mais do que tudo nessa vida" (essa é uma atitude dela, eu não tenho maturidade para brigar e dizer que amo logo depois). É ver um ser humano crescer usando você como exemplo, como molde. É ganhar um beijo na ponta do nariz antes de entrar na sala de aula.

Toda a experiência transborda. A maternidade me transborda talvez porque ela já não coubesse em mim. Não havia espaço planejado para ela, mas aqui estamos, eu e ela.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Tia Sol, tem dó de mim

10:36 0 Comments


Ontem foi um dia considerado "sucesso" na minha rotina. Eu acordei cedo. Fui para o Pilates (isso quer dizer que tive ali 40 minutos só com foco em mim), fiz compras do mês, arrumei a cria na hora certa, deixei na escola na hora certa, cheguei no trabalho na hora certa, dei vários "ok" na minha lista de afazeres. O cabelo estava lindo, eu estava me sentindo bonita, estava bem humorada.

Até que voltei pra casa.

Alice, que me esperava há horas, como faz todos os dias, não tinha feito o dever de casa. Ou o "prazer de casa", como a tia Sol da escola gosta de chamar. Era de matemática. Era pra Alice, que está sendo alfabetizada, escrever os números de 1 a 100. A Tia Sol, meus amigos, não está pra brincadeira. A tia Sol não tem dó de mim.

Eu odeio os deveres de casa da Alice porque eles acabam sendo deveres pra mim também. Eu não quero fazer dever de casa. Eu fiz os meus, 20 anos atrás. Eu tenho outros deveres de casa agora, chamam lavar louça, arrumar a sala, catar brinquedo pela sala.

Alice também não gosta de fazer dever de casa. Aliás, escrever de 1 até 100 numa folha de papel não é das tarefas mais animadoras.

- Eu posso escrever o 1, colocar um tracinho e depois o 100?
- Não, Alice, não pode. Você tem que escrever todos os números.

Lá foi ela, com lápis e borracha em mãos. Do 1 ao 20 ela foi rápida e me fez criar expectativas antes da hora. Depois, do 20 ao 30, foram dez minutos entre reclamações e vontade de ir ao banheiro, sede, mais reclamação, cansaço de escrever, críticas ao lápis.

No 35 o peso do dia bateu. Eu não tinha qualquer sanidade para acompanhar minha filha no dever de casa. Eram 23h. Essa é a hora que eu chego do trabalho. Mas eu não podia dizer que não queria fazer.

Aí eu lembrei do que a minha psicóloga questionou: "Você nunca tem tempo pra você? Você não tem tempo de ócio? Esse tempo é extremamente necessário para o ser humano".

- Você precisa se organizar.

Essa é a frase que eu mais ouço das pessoas. E a que eu mais incorporei nas minhas metas de vida. Porque parece certa. Se eu me organizar, eu vou conseguir fazer tudo que eu preciso. Mas ontem, eu ocupei todas as horas do meu dia de forma organizada. Eu fui uma boa mãe e boa profissional das 7 da manhã às 11 da noite.

Não é só me organizar. O peso continua sendo muito grande.

Lá pelos 50 ela desacreditou da própria capacidade. Achou que não ia conseguir, que não ia dar conta. Segundos antes eu pensei em deixar ela sozinha terminando e tirar um cochilo no sofá. Mas aí percebi que se eu não ficasse ali, monitorando e incentivando, como uma líder de torcida, ela não faria.

- É claro que você dá conta! Isso aí é molezinha pra você. Você conhece todos os números, é só continuar. Não para. Por favor, não para.

Eu revisava o meu dia mentalmente pra descobrir onde eu teria errado. Não achei. Passei do cansaço para a raiva de quem tá muito cansada. Fiz planos de largar Alice uma semana na casa do pai, mas eu não sei nem dizer se ela seria levada pra escola todos os dias.

Quando ela chegou nos 70 eu percebi que ela tinha feito o 7 para o lado errado.

- Alice, o 7 tá pro lado errado.
- Ai mas será que TODOS os meus setes estão errados?

A preocupação dela me fez rir. Não só rir. Eu gargalhei de perder o ar, como quem perde o controle da própria vida. Eu ri sem conseguir parar e ela riu comigo porque provavelmente eu estava com cara de doida. Eu ri até deixar escapar uma lágrima no canto do olho. Era o sinal da exaustão.

Olhei todos os setes e vi que, Graças a Deus, era só aquele que estava escrito errado.

- Vai Alice, continua. Tá acabando.
- Não vai acabar nunca
- Vai sim, é só até o 100, não é infinito.

Cada número era escrito com mais dificuldade e eu sempre mandando ela continuar porque não sabia mais o que fazer.

Nem eu acreditava mais que um dia o 100 chegaria, mas ele chegou. Eu gritei um OBRIGADA, SENHOR! com todo alívio que eu senti no meu coração. Ela dançou ao som de uma música que ela mesma fez na hora, que só tinha uma palavra: LIBERDADE.

Fui dormir com aquele choro de cansaço preso. Acordei com o despertador e com enxaqueca. Graças a Deus é sexta-feira. Que Oxalá me dê forças. Que ninguém caia em grampo da Polícia Federal. Que ninguém peça demissão. Que a gasolina não aumente. Que a internet colabore. Amém.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

No médico

19:36 0 Comments


Não deveria, mas eu não sou sincera como deveria com médicos.

- Você come verduras e legumes regularmente?
- Sim (lembrando do hambúrguer que comeu na noite passada, com alface, tomate, picles, definitivamente verduras.

- Quantos litros de água você bebe por dia?
- Um litro, mais ou menos, eu acho... por aí (sem lembrar a última vez que havia bebido água no dia)

- Fuma?
- Não. (isso vale quantos pontos?)

- Você bebe?
- ...

Eu deveria ser sincera? Dizer algo como: "então, eu não bebo todo dia. Mas sabe como é, né. Trabalho, filhos, trânsito, as contas pra pagar. Quando chega na sexta-feira a gente quer relaxar, né, doutora. E depois daquele plantão no fim de semana, então? É tradição. Às vezes na quarta-feira também porque a semana é longa e eu preciso de uma pausa. Mas não nas segundas, Nas segundas os bares fecham e os garçons folgam. Se bem que tem aquele bar perto de casa que abre nas segundas e fecha nas terças... Mas não foram tantas vezes. Pergunta lá pro Francisco, o garçom que sempre me atende. Mas eu não bebo whisky. Nem cachaça, Tenho os meus princípios. Também não bebo cerveja preta. Mas se eu bebo? Às vezes o coração dói, né, doutora, e aí a gente bebe um pouquinho pra afogar as mágoas. E aí todo fim de semana tem um aniversário pra ir, uma taça aqui, outra acolá... O cara da adega onde eu compro vinho deve achar que eu bebo pouco porque sempre pede pra eu levar mais um. Inclusive estou evitando voltar lá porque ele pediu a minha opinião num vinho e eu não fui culta o suficiente pra anotar as minhas observações e não quero dar o braço a torcer. Tem a cerveja, doutora, É um perigo, Quando a gente vê já tá lá batucando na mesa e rindo sem motivo. Teve a vez também que eu bebi um mojito e perdi os documentos, a chave de casa, o cartão de crédito e a dignidade. Tequila eu evito tomar porque ainda é um mistério o que aquele líquido pode fazer com a mente humana...

- Eu posso marcar aqui "socialmente?
- Isso, socialmente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Tinha que ter avisado

14:18 0 Comments


Dia desses a Alice colou as mãos com Super Bonder. Não foi nada desastroso, se pensar em tudo que podia ter acontecido, como ela colar a mão na cara, mas foram necessárias duas horas pra tirar toda a cola.

- Você tinha que ter avisado.
- Eu mandei você não mexer, por que desobedeceu?
- Você falou, mas não avisou que era ISSO que ia acontecer - disse ela, com as mãozinhas com os dedinhos colados bem próximos ao meu rosto. Não foi eu quem ensinou essa menina a ser dramática desse jeito.

Dizer "não mexe" não foi suficiente. Eu tinha que ter avisado.

Dias depois ela caiu da cama. Eu tinha pedido pra ela sair da beirada e ela se mexeu cerca de um milímetro pra dentro da cama. Minutos depois eu pude acompanhar a cena em câmera lenta. Ela foi virando e eu esticando meus braços numa vã tentativa de segurar aquele corpinho que ia de encontro ao chão. Ela caiu de cabeça.

Enquanto a cria chorava, eu tentava me livrar da culpa.

- Eu pedi pra você sair da beirada da cama.
- Eu tava dormindo, como eu ia ver?

Eu tinha que ter avisado.

Depois desse acontecimento eu fiquei me perguntando até quando eu teria que avisar as coisas, até quando eu teria que dar spoilers da vida dela e quando os erros dela serão apenas dela, e não mais meus.

Educar uma criança é abdicar das suas próprias vontades em prol do outro. A criança a gente educa pro mundo, não pra gente. Eu poderia alimentá-la de biscoito recheado em todas as refeições. Ela adoraria. Mas a coitada ia ficar podre por dentro e cheias de problemas de saúde só porque a madame aqui tem preguiça de cozinhar.

Ou ainda, imagina o desgosto de colocar no mundo aquela criatura que não sabe ouvir um "não" e por isso toca o terror na vida dos outros.

Não é por mim, é por vocês.

Dar ordens e deixar ela descobrir o que fazer é confuso pra mim, e deve ser pra ela também.

É deixar ela não almoçar, se não quiser, pra aprender que vai ficar com fome se não comer na hora certa, mas também exercer o poder enviado dos Céus chamado "Porque Eu Tô Mandando" caso ela teime em não querer dormir na hora porque quer ficar jogando ou vendo vídeos.

Por que não obrigar a comer e deixar dormir na hora que quiser? Sei lá, eu também não sou perfeita, não dou conta de tudo. Escolhi as minhas batalhas. Ter filho é que nem aquela música "Love is a battlefield":

"Nós somos jovens, dor de cabeça à dor de cabeça nos ficamos
Sem promessas, sem demandas
O amor é um campo de batalha"
Alguém tinha que ter avisado.