segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A venda do Carlinhos

Minha avó tinha um caderninho de pendurar conta na venda do Carlinhos. Lá ele anotava tudo que minha avó comprava e, em algum momento do mês, ela acertava o valor devido e logo abria outra conta. Uma relação duradoura.

Na venda do Carlinhos tinha de tudo um pouco. De carne moída a prego pra consertar as Havaianas que arrebentavam. De macarrão a caderno. De biscoito de doce de leite a linha. Era um salva vidas quando sobrava mês no fim do dinheiro.

Eu achava incrível a confiança que esse caderninho exigia um do outro. Ele, de não acrescentar nada que não havia sido levado. Ela, de honrar o compromisso de pagar a dívida todo mês. Um dia, minha avó não voltou pra acertar a conta. Ela já estava acertando suas outras contas nas instâncias divinas e sobrou pra quem ficou por aqui acertar o resto. Lembro de ter visto o Carlinhos chorar enquanto minha tia assinava o cheque.

De repente fiquei na dúvida se tinha sido minha tia ou meu avô quem pagou a conta. Aí passei a duvidar se eu tinha visto o Carlinhos chorando, se era cheque e se eu realmente tinha presenciado essa cena. De repente eu me toquei que faz quase 15 anos que minha avó morreu e que eu não consegui manter todas as lembranças.

Minha avó era uma mulher foda. E eu me acho no direito de usar esse palavrão porque todos os que eu conheço e falo hoje, eu ouvi saindo da boca da Dona Iracema, minha avó, em algum momento. Ela e meu avô construíram a casa em que moravam com as próprias mãos. Pintava a calçada de verde e amarelo em toda Copa. Teve três filhos. Viu e criou três netos. Hoje seriam cinco no total, além de uma bisneta. Fico me perguntando como seria a relação com as crianças que ela não conheceu, ou como seria com os netos crescidos. Era uma tortura ter que ir embora da casa dela. Hoje, quando a Alice abre o berreiro porque quer ficar na casa da avó, eu me lembro que fazia a mesma coisa 20 anos atrás e tento entender o lado dela.

Se eu gosto de Copa e de Olimpíadas hoje, foi por influência dela. Se eu joguei vôlei por 7 anos da minha vida, com certeza foi por influência dela. Dona Iracema transformava as festas de fim de ano em algo mágico. Mais do que os especiais de fim de ano da Globo, mais que as propagandas da Coca Cola.

Era uma matriarca. Pegava o salário do meu avô e administrava cada centavo. Não tinha vaidade. Usava camiseta de político se quisesse. Não pintava o cabelo e xingava muito quando tinha que usar dentadura em algum evento social. Ela cuidava tanto e tão bem de todo mundo que, quando ela morreu, todo mundo precisou amadurecer um pouco, já que não poderiam mais contar com os superpoderes da vó.

Lembro que não fui ver minha avó no hospital. Tive medo de chegar lá e ver um ser humano frágil como qualquer outro. Eu achei que fosse me sentir culpada com a minha atitude infantil, por não ter me despedido dela, como todos fizeram. Mas eu não fiquei. Tive o prazer de ter todas as imagens boas dela. Imagens que eu tô esquecendo, infelizmente. Mas certas coisas ficam marcadas na alma, muito melhor que confiar na memória. O que eu me arrependo mesmo foi de nunca ter comido a rabanada que ela fazia. Eu confundia rabanada com rabada e não chegava nem perto do que eu considero hoje ser uma das melhores coisas do natal.

Vó, se hoje eu como rabanada até passar mal, é em homenagem a você.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Não repara a bagunça

Olha, você chegou de repente, eu nem tava esperando visita. Então você vai ter que me desculpar. Pode entrar, só não repara a bagunça, tá?

Cuidado aí na frente, anda olhando pro chão ou você pode acabar pisando num brinquedo. A velocidade da bagunça é muito maior que a da arrumação. Inclusive às vezes ela chega a ser inversamente proporcional: quanto maior a bagunça, menor a vontade e a velocidade da arrumação. Que que eu tô falando, eu sou péssima de matemática, você sabe. Não sei nem se faz sentido o que eu falei.

Se eu fosse você, nem entraria na cozinha. Você vai encontrar a louça toda ensaboada que eu esqueci ontem porque parei pra assistir um programa interessante na TV. Se isso acontece com frequência? Bom, não é a primeira vez.

Quer comer alguma coisa? Não que eu saiba cozinhar, mas também não morro de fome aqui. E se não confiar, tem lasanha congelada no freezer. Engraçadinho, eu sei fazer mais que ovo frito e esquentar água. Não, não vai na cozinha. Deixa que eu coloco a lasanha no microondas.

Eu sei, eu sei. Eu sou muito desorganizada mas peraí, não tira os meus bonecos da ordem, tá? Da última vez que o Batman encontrou com o Espantalho ele fez o Batman achar que podia cair na porrada com o Superman e nós sabemos que o Clark é meio bobão, mas ele tem uma força que é melhor não brincar. 

Não, eu não durmo sempre na sala. É que de vez em quando faz muito silêncio no meu quarto e eu venho procurar companhia no videogame, na TV a cabo e no Netflix. Não deu tempo de arrumar, não fica me olhando com essa cara.

O quarto da Alice é bem ali. Depois eu te mostro.

Você vai ficar? Eu vou arrumar a cama pra você, peraí. Eu não tenho lado preferido porque costumo dormir na diagonal. Eu só tenho um travesseiro, pode ficar com ele. Só tenho um porque eu só preciso de um pra dormir, oras. Coloca meus livros ali no canto. Sim, eles ficam em cima da cama. Não coloca no chão, poxa. Que pecado.

Deixei uma toalha pra você no banheiro. Quer comer mais alguma coisa? Tem certeza? Eu posso fazer omelete e... Ok, você não quer mais nada, entendi.

Você vai realmente ficar? Porque eu tenho muita coisa pra arrumar, se você não sentiu vontade de fugir com o que viu e quiser esperar eu terminar... Fica à vontade.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Diário de Viagem - Rio de Janeiro - A responsabilidade

É meio desesperador ser a adulta que tem que fingir segurança pra alguém quando se tem medo de avião. Alice lá, feliz da vida porque ia conhecer a praia e eu há duas noites sem conseguir dormir direito pensando que eu ia entrar num avião. É idiota? Sim. Mas é a vida. Respirei fundo, botei meus óculos escuros pra esconder o olhar de pânico e fui.

Passada a viagem de avião mais tranquila que eu já presenciei, começaram os outros desafios. Ser uma adulta 100% responsável por uma criança. Não ia ter minha mãe pra ficar com ela enquanto eu dou uma voltinha, não ia ter meu pai pra ficar com ela enquanto eu durmo um pouco, não ia ter minha irmã pra fazer as brincadeiras que eu não tenho paciência. Não me lembro se nós já havíamos ficado grudadas assim por tanto tempo, sem revezamento com outras pessoas.

Não sei como funciona com as outras mães solteiras, mas comigo é: eu enfrento o que tiver que enfrentar e, depois que passa, eu xingo, desabo, grito, choro, me acabo. Foi assim que eu carreguei duas malas e uma criança que insistia em tirar um cochilo toda vez que entrava num ônibus. Na volta, dentro do aeroporto, a Alice resolveu que não queria usar mais os tênis. Ficou sapateando de meia pelo saguão enquanto a companhia aérea resolvia onde nos colocaria depois de ter cancelado nosso voo. Eu simplesmente aceitei que aquela meia ia parar no lixo e não me preocupei. Até que ela se cansou e eu tive que carregar a criaturinha de cavalinho nas minhas costas porque as poucas duas mãos que eu tenho estavam ocupadas com as malas. A cena deveria estar engraçada, já que muita gente ficou olhando. Saldo desse peso todo: dores no quadril, dores na coluna, dores de cabeça, dores no pescoço. Eu disse, não tenho mais idade pra isso. Como eu dei conta? Não faço ideia.

Éramos nós duas fazendo uma viagem que nunca havíamos feito, numa cidade que não conhecíamos. Isso me assustou um pouco. Tinha tudo pra dar errado, todos os ingredientes para que uma mãe sem dom de ser mãe falhasse miseravelmente. Mas, de um modo geral, eu posso dizer que, se fosse um jogo, eu teria conquistado um troféu. Tivemos nossos vários momentos de briga, mas nada que superasse a alegria de vê-la gritando de emoção quando a onda gelada molhou seus pés pela primeira vez, ou ouvi-la dizendo, o dia todo, mesmo agora que já voltamos pra casa, o quanto ela me ama. "Você sabe, né? Você sabe o quanto eu te amo né?". Isso não tem preço.

Em alguns momentos eu só pensava que minha mãe, se estivesse ali, me mataria. Como no dia que nós almoçamos picolé, quando eu esqueci de passar repelente nela e ela só não foi carregada pelos pernilongos por pura sorte, ou ainda o dia que eu não espalhei direito o protetor nas costas da criança e ela ficou com várias marcas brancas dos meus lindos dedos nas costas bronzeadas. Mas sobrevivemos, isso que importa.

Quando chegamos em casa, com quase 3 horas de atraso, a sensação era de esgotamento total. Eu já estava delirando de cansaço. Abri a porta e começou a tocar We Are The Champions na rádio mental, enquanto eu queria beijar o meu chão como o Papa fez, além de entoar um mantra de "não há lugar como nosso lar", como a Dorothy.

Minha televisão, meu sofá, meu computador, meu banheiro, minha cama... ah, cama maravilhosa, que saudade de você. Alice olhava em volta e só dizia: "que saudade que eu estava da nossa casinha, das nossas coisinhas". Dormimos abraçadas durante horas. Depois recebi uma mensagem da amiga carioca que me hospedou. De algum modo, eu e Alice acendemos o fogo da maternidade nela. Quase rolou uma lagriminha, sabe. Fiquei feliz por ela e também por mim porque, aparentemente, eu fiz quase tudo direitinho.

Você leu a primeira parte? Não? Tá aqui, ó

Diário de Viagem - Rio de Janeiro - As pessoas

Depois da análise dos Vinte e Seis, em que eu confessei que fazia 6 anos que eu não enterrava meus pés na areia da praia, e depois da história do Monociclo, que eu vi que já tava tão craque que podia andar de saia na bicicletinha, apenas com uma mão no guidon e a outra tampando a calcinha, tomei vergonha na cara e marquei a minha primeira viagem com a Alice. Se eu puder fazer um PS logo no início do texto eu diria que eu não tenho mais idade pra isso, pois estou cheia das dores no quadril de tanto carregar criança no colo, mala, andar e afins. Pelo menos a dor no quadril me faz esquecer a dor nas costas. Mas, voltando ao início, Rio de Janeiro, here we go.

Eu achei que já tinha sentido calor nessa vida. Até que cheguei ao Rio de Janeiro e vi água escorrendo pelo meio das minhas pernas. Podia ser xixi? Podia. Mas era suor mesmo. Me senti numa daquelas propagandas de cerveja em que a gota de suor vai contornando o corpo semi nu da modelo gostosa, mas sem a parte de estar seminua e sem a gostosa. Se as pessoas andassem nuas pela rua, eu não julgaria. Talvez até invejaria, porque apenas 2 horas depois de sair de casa eu já estava suando em bicas e fedendo.

Os biquínis das moças são minúsculos. Me senti usando uma calçola de vovó no meio de tantas bundas descobertas. E é um modelo democrático. Basta ter atitude. Mesmo que a barriga seja tão grande que cubra toda a parte da frente do modelito. As cariocas, aparentemente, tocam o foda-se para o que você está pensando delas.

Inclusive, por tocar esse foda-se é que elas não se importam se todo mundo dentro do ônibus está ouvindo você terminar com o namorado por telefone:

- VEM CÁ, VOCÊ ACHA QUE EU PRECISO DISSO? QUERO MAIS SABER DE VOCÊ NÃO! EU NÃO PERGUNTEI SE VOCÊ ACEITA, EU TÔ DIZENDO QUE ACABOU! E NÃO ME LIGA MAIS, FILHO DA PUTA!

Vocês me desculpem, mas é difícil não ouvir a conversa alheia, principalmente quando ela é tão interessante. E o transporte público parece ser o lugar em que as moças gostam de desabafar:

- Então, eu tô saindo com um cara muito gente boa. Um dia ele veio conversar comigo e contou que precisava ser sincero comigo porque não sabia que eu não gosto de mentira e não queria me magoar, que tava saindo com uma outra menina mas que não queria se afastar de mim. Poxa, olha como ele foi sincero! Se fosse qualquer um ficaria pegando as duas e não estaria nem aí. Mas esse não. Esse não é moleque, sabe. Deixou tudo bem claro. Inclusive me respeita pra caramba porque não aparece com a outra na minha frente.

[a parte ruim de ouvir conversa alheia é não poder dar palpite e avisar pra moça que, nesse caso, a outra é ela]

Deus conserve a beleza dos recursos humanos desta cidade. Me apaixonei algumas vezes só andando pelo calçadão de Copacabana. Me apaixonei até pelo Engraxate de Dummond. Carioca gosta de correr, né? E não só os sarados, os bonitos que parecem estar fazendo parte de uma cena perfeita de novela. Tem gente de toda cor, tem raça de toda fé, os grandes, os feios, os de roupa extravagante, os que correm como a Phoebe.

Motorista no Rio de Janeiro tem que ser ágil pra sobreviver. Suspeito que eles tenham um cronômetro nos carros pra conseguir disparar a buzina no milésimo de segundo após a abertura do sinal. Jesus amado, como buzinam. Motorista do Rio tem que saber também que, quando o Caxias passa, você simplesmente abre caminho, mesmo que você esteja certo, ou arrisca ficar sem um retrovisor. Ser motorista nessa que é chamada a Cidade Maravilhosa é aceitar que tudo é longe; e o que é perto, tem engarrafamento pra chegar. Tem também a junção das duas coisas. Deve ser por isso que eles aparentam ser tão impacientes.

Eu sei que não deveria, mas fazer graça com o sotaque dos cariocas é muito divertido. A impressão que eu tenho é que o carioquês dá muito mais trabalho de ser falado do que o português. Por exemplo: eu não me conformo como eles colocam letras onde não existem, tipo nascimento, que eles falam naiscimento. Gente, poxa vida, não compliquem aquilo que já é complicado. E o sotaque, em si, já prolonga as palavras mais do que o necessário, como a palavra mesmo, que se torna meeisshhhmo, ou nome da Alice, tão simples, que saiu Aliêceh.

Os problemas da cidade eu deixo por conta de quem mora lá, já que eu só comi, bebi, andei e sentei no banco do passageiro. Mas que faltou pastel na praia, ah, isso faltou.

Se quiser continuar lendo, tem a segunda parte aqui, ó

domingo, 16 de novembro de 2014

O monociclo

Eu não sei em que momento da infância eu aprendi a andar de bicicleta. Lembro que a minha primeira era rosa e que eu pentelhava muito meu pai pra que ele tirasse as rodinhas. Eu achava que não precisava delas. Meu pai, sabendo que eu ainda precisava, demorou um pouco pra me atender. Mas acho que eu pedi tanto que uma hora ele resolveu tirar. Devo ter caído bastante até aprender.

Tenho várias lembranças. Como da vez que meu pai carregou a minha bicicleta e a da minha irmã nos ombros e, por alguns segundos, eu achei que ele fosse o Superman. Era a única forma de explicar ele estar carregando bicicletas nos ombros sem qualquer dificuldade. Teve também a vez em que eu estava apostando corrida e me achava muito adulta pra usar os freios. Preferi fazer um drift. Mas, no meio do caminho tinha uma pedra. Foi assim que eu ganhei um machucado enorme no queixo. Parecia uma barba. Superei o bullying com muita maturidade dizendo: "HA HA que engraçado" pra todas as piadas.

Talvez eu tenha apenas passeado de bicicleta por um bom tempo da minha vida. Até que, num certo momento, me fizeram trocar a bicicleta por um monociclo. Cara, que desespero. Nunca soube andar de monociclo. Eu nem queria andar de monociclo! Na verdade eu estava me preparando pra comprar uma aro 26, 18 marchas. Ia conquistar o mundo em duas rodas. Mas não há certezas ou segurança em cima de uma roda só. Você apenas continua pedalando porque se parar, cai. Eu não ia querer outro machucado no queixo.

Andar de monociclo foi difícil pra cacete. Vejo gente andando por aí com desenvoltura e até fazendo uns malabarismos. Eu me pergunto como é que essas pessoas dão conta. Eu tive pessoas ao meu lado durante todo o processo de aprendizagem. Mas devia ser cansativo pra elas. Imagina, ter suas próprias bicicletas pra guiar e ainda ter que tomar conta de mim. Foi aí que eu tive a ideia de colocar umas rodinhas no monociclo, iguais as da minha primeira bicicleta. E até que deu certo. Eu não cairia pros lados, mas ainda não podia parar de pedalar.

Até que eu consegui ser bem sucedida na Missão Monociclo. Às vezes aparece alguém perguntando como eu dei conta ou pedindo dicas porque tem certeza que não vai conseguir. Eu respondo: "Olha, vai pedalando, não para. Se eu consegui, você também consegue, com certeza".

Lembro que na transição do monociclo eu tive uma bicicleta bem simples, sem marcha nem nada. E bem, vez ou outra uma ladeira aparecia no meu caminho. Era meio foda subir sozinha. Mas eu tava lá, no meu ritmo. De vez em quando aparecia alguém propondo ajuda. Mas essas pessoas não davam conta das próprias bicicletas, é claro que não iam me aguentar também. Por isso muitas ficaram pelo caminho. Ou porque pararam pra descansar, ou porque decidiram voltar pra base da ladeira. Eu não me arrependo de não ter parado porque eu ganhei experiência e pernas grossas maravilhosas que não me abandonam na hora do aperto da subida.

Hoje em dia eu ando de bicicleta elétrica. É bem confortável. A parte ruim é que ela te deixa meio mal acostumada, sabe. Não tem muita aventura. Não tem corrida, nem drift. Só que tem morro ali na frente, me encarando. Tá me chamando pra curtir uma trilha. Quem sabe até fazer umas manobras de bicicross. Depois de tanta luta desde a época do monociclo, eu acho que dou conta. Talvez esteja chegando a hora de encostar a elétrica por uns tempos e comprar aquela 18 marchas que eu queria.

domingo, 9 de novembro de 2014

Não era amor... mesmo!

Essa internet é maravilhosa, sério. Se você souber usar a ferramenta de uma forma não-burra, encontra coisas que realmente podem fazer diferença na sua vida. Tipo esse vídeo que caiu no meu colo. Normalmente eu não clico em links com chamada do tipo "Esta Monja Disse Umas Verdades Que Vão Mudar A Sua Vida" ou "Você Não Sabe O Que Vai Acontecer Depois De Ver Este Vídeo" porque é puro sensacionalismo pra atrair clicks curiosos. Eu ter clicado nesse foi destino, eu acho.

De repente, uma senhorinha de feições serenas dá uma bofetada na minha cara. E confirma a minha teoria de toda uma meia vida (teoria esta que dá título a este maravilhoso blog): talvez você nunca tenha amado. Apego não é amor. Se causa dor, não é amor.

"O apego diz: 'Eu te amo, por isso quero que você me faça feliz'. E o amor genuíno diz: 'Eu te amo, por isso quero que você seja feliz. Se isso me incluir, ótimo! Se não me incluir, eu só quero a sua felicidade"

Quantas vezes eu já não saí de um relacionamento ouvindo "Você não vai encontrar cara melhor que eu"? Quantas vezes eu, trouxa de tudo, acreditei nisso? Era amor mesmo? O irônico é que essas pessoas que se julgavam as melhores do mundo pra mim foram as que mais me fizeram sofrer, que mais me colocaram pra baixo, que me traíram, que mentiram pra mim. É lógico que isso não é amor, é cilada cilada cilada cilada! Você acha que foi amada por alguém e anos depois você descobre que a pessoa fala mal de você e deseja a sua derrota por aí. Bora colocar a mão na consciência que amor isso aí nunca foi, né.

Amor não sufoca, amor não compete em dinheiro, não compete em status social. Amor não exige nada. Já diria Chitão e Xororó: sinônimo de amor, é amar. Se vira obrigação de "nunca me deixe", não é amor, é: _ _ _ _ _ _

Pelo que eu me lembro, em apenas um término eu ouvi "eu quero que você seja feliz". E foi o mesmo término que eu desejei que a pessoa não parasse tão cedo. Não houve ameaça, não houve chantagem, não houve ninguém me seguindo nas baladas, me stalkeando e pedindo satisfação de algo que não era mais da conta da pessoa. Foi o mais dolorido. Talvez porque tenha sido o mais real.

O vídeo me deixou mais leve porque eu risquei um monte de experiências na minha vida que eu julgava que era amor, mas que na verdade era só cilada mesmo. Posso cantar com toda certeza e toda vodka que estiver disponível, Não era amooooor, não era! Não era amor era: cilada cilada cilada cilada!

Agora quando eu contar uma das ciladas pra alguém e a pessoa questionar o motivo de eu ter aguentado essas coisas eu não vou mais responder "ah, porque eu amava né". Vou simplesmente responder "porque eu era trouxa". Muito mais digno.

Ah, o vídeo!

domingo, 2 de novembro de 2014

Um banheiro pra chamar de meu

Pessoas que não fazem xixi e cocô em qualquer lugar passam por vários apertos. Eu sou uma dessas pessoas. Não me orgulho. Queria ser dessas meninas que conseguem abaixar atrás do carro e fazer xixi na angulação correta pra não molhar a calcinha nem deixar escorrer pelas pernas. E de modo tão eficiente que provavelmente ninguém tenha tempo de ver qualquer coisa. Me pouparia alguns problemas. Também deve ser legal ser homem e ter equipamento pra poder mijar dentro de uma garrafa, se for necessário.

Tipo dia desses. Estava com uns amigos na porta de uma festa e deu aquela vontadezinha de mijar. "Faz aqui no cantinho, ó", disse um amigo. Mas eu, versada na arte de segurar xixi pensei que era completamente desnecessária tamanha medida desesperada. "Vamos entrar, eu faço lá dentro". Acontece que a fila da entrada estava simplesmente enorme. "Ih, caralho" foi o que eu pensei. E, naquele momento, eu comecei a concentrar as minhas energias em não mijar na roupa.

- Caralho, eu preciso mijar.

- Calma, a gente já tá chegando.

- Eu tô calma.

- Pensa em coisas sólidas. Monte Rushmore. [hahaha eu amo meus amigos, sério]

- Se eu mijar na roupa, na porta da balada, vocês ainda vão me amar?

- [...]

Naquele momento eu já estava arrependidíssima de não ter feito no cantinho sugerido anteriormente, mas ele já não era mais opção, porque eu não conseguia andar. O que eu fazia era dar alguns passos com as pernas cruzadas com a maior força que eu tinha. As lágrimas escorriam pelo meu rosto sem que eu pudesse controlar. É claro que ter contato com qualquer coisa líquida não ajudava. Pensei em recorrer a algum santo dos desesperados pra fazer uma promessa. Mas o desespero era tanto que eu não conseguia pensar em nenhum, nem formular uma promessa. Eu não tinha condições de formular uma frase.

Passamos pela entrada e, enquanto a moça fazia o meu cadastro, eu me contorcia e chorava copiosamente. A moça do caixa perguntou se eu estava bem e eu respondi com o resto de força que me restava: "Eu preciso ir ao banheiro". Ela ficou tocada com o meu desespero e tentou fazer tudo o mais rápido o possível. Mas, nessas horas, nada é rápido. O leitor de impressões digitais resolveu que não conseguia ler a minha. Uma, duas, três vezes. Até que a moça começou ela mesma a colocar meus dedos incontáveis vezes no leitor. Deu certo.

Entrei na festa e uma força e rapidez que eu não conhecia tomaram conta de mim. A festa já estava cheia de gente e eu corria como uma maluca procurando o banheiro, já que os seguranças não sabiam informar onde ficava. Trombei com pessoas, fiz malabarismos, derrubaram bebida em mim, mas nada importava. Eu não estava raciocinando. Era apenas o instinto de sobrevivência agindo.

Em algum momento eu encontrei. Lá estava a porta do banheiro. De longe, eu via o meu amigo, que acompanhou todo o meu sofrimento na fila, me apontando o caminho da felicidade, como quem diz: "vem!". E eu fui. Corri. Entrei no banheiro derrapando no chão úmido. Entrei numa cabine que não tinha fechadura, então assim que me agachei (não se pode sentar, não se esqueçam disso) a porta abriu e eu fiquei vulnerável, naquela posição constrangedora. Mas eu liguei? Não. Eu estava feliz, aliviada. É bem possível que eu estivesse sorrindo de olhos fechados enquanto aproveitava o momento.

Saí do banheiro e meu amigo estava lá, me esperando de braços abertos, para comemorarmos a vitória. Corri, me joguei nos braços dele. Talvez ele tenha me girado. Talvez não. Era um momento tão mágico que eu não tenho certeza do que aconteceu mesmo e o que foi delírio. Mas eu sobrevivi. Sem passar (muita) vergonha.

Queria poder dizer que eu aprendi a lição, mas como eu já passei por essa situação outras vezes, não só com xixi, eu sei que, a qualquer momento, vai acontecer de novo.
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