domingo, 8 de junho de 2014

A consulta

- Doutor, eu vim aqui pra pedir um atestado.

- O que você tem? Eu não posso dar um atestado sem uma doença que necessite de repouso, ou que corra risco de contagiar outras pessoas.

- Não é contagioso, eu acho. Mas tá doendo, doutor.

- Onde?

- Aqui, ó.

- Tá com dor no peito?

- Não, doutor, é no coração mesmo, tá partido.

- Coração partido não é doença.

- Acompanha meu raciocínio, doutor. Você já teve o coração partido? Ele dói de verdade. Não sei explicar como, mas é uma dor real. Junto com ela vem uma vontade incontrolável de chorar, em qualquer lugar, a qualquer momento. Já tentou trabalhar com os olhos cheios de lágrimas o tempo todo? Sem contar a necessidade de ficar em posição fetal o dia todo, também. Não é sono, é uma vontade de ficar imóvel, na posição mais acolhedora que o ventre das nossas mães nos ensinou, sem falar, gastando energia só pensando na vida, limpando as lágrimas e o catarro. Ah, doutor, o catarro. É vergonhoso. Ele se multiplica, escorre, vira cola, até. Imagina se eu me descontrolo no meio da firma, doutor. O que o meu chefe vai pensar de mim? Além disso, não existe concentração suficiente para exercer qualquer atividade. Minha carreira está correndo sérios riscos. Eu só preciso de um tempo pra me recompor. Passar uns dias na fossa, sem tomar banho e alternando horas sem sequer olhar pra comida e depois horas comendo sem parar. Quero um tempo pra chorar vendo Querido John sozinha, sem incomodar o resto do mundo. Chorar e soluçar até ter ânsia de vômito e crise de enxaqueca. Mas eu sei que depois disso, depois de chegar no fundo do poço emocional, eu vou conseguir me levantar e, assim, estarei apta para o convívio social. Me ajuda, doutor.

- Isso pode ser uma virose.

- Serve. Quantos dias?

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O dia que eu me libertei

Bucha. Cabelo ruim. Juba. Cabelo de vassoura. Vassoura de varrer teto. Cabelo duro. Isso foi o que eu ouvi a vida inteira sobre o meu cabelo. Por mais que eu até gostasse dele, sempre tinha aquele sentimento de exclusão por ter cabelo cacheado. Odiava ir ao salão porque era só um cabeleireiro colocar as mãos no meu cabelo pra dizer o quanto ele era ressecado, indicar mil hidratações que eu precisaria fazer, ou pior, quando faziam cara feia na hora de pentear, porque “é muito embaraçado”, “ai, como é difícil, até dói o braço”.

Sempre tive cabelo comprido. Uma das razões era pra que o peso do cabelo fizesse a sua parte na gravidade e puxasse o meu cabelo pra baixo, pra que não fosse “tão volumoso”. Olha, ser criança com todas essas restrições dá um certo trabalho. Eu tinha que arrumar o cabelo todo dia antes de ir pra rua. Mas não podia simplesmente pentear ele seco. Ou eu tomava banho (tomar banho antes mesmo de se sujar, era uma perda de tempo) ou enfiava a cabeça debaixo da torneira pra molhar, pentear e aí sim, poder sair pra brincar. Uma hora a menos na rua só com esse procedimento. 

Esse era o procedimento na hora de ir pra escola também. Imagina uma garota de 12, 13 anos, enfiando a cabeça debaixo da água fria às 6 da manhã pra poder arrumar o cabelo. Ou ter que acordar mais cedo pra tomar banho e dar um jeito na “juba”.

Por um tempo, na escola, eu só usei cabelo preso. Esticava tanto o cabelo no rabo de cavalo que o olho dava uma puxada. Ou então, quando estava solto, estava melecado com 2kg de creme, pra não correr o risco de que outras pessoas vissem meu cabelo volumoso. Dia desses uma amiga me contou que nem a cabeça eu mexia, pra não tirar o cabelo do lugar.

Até que um dia eu resolvi me libertar. Ou, pelo menos, começar o processo. Depois que a Alice nasceu, meu cabelo começou a cair. Reza a lenda que era efeito da anestesia do parto. Além disso, sobrou nada de tempo na minha vida pra cuidar de cabelo. Foi aí que começou o processo de encurtamento e de ligar o foda-se pra opinião alheia. Um dedo aqui, meio palmo ali. Até que um dia eu falei: corta no ombro. A cabeleireira, a mesma que acompanhou todo meu drama de ter que manter meu cabelo grande na parte da infância e adolescência, ficou chocada. Não cortou o tanto que eu pedi. Eu insisti: tá economizando por que? Passa a tesoura. (Só quem tem cabelo cacheado vai sacar que, ao cortar o cabelo no ombro, ele subiu até quase na orelha).

Foi nesse dia que eu me libertei da ditadura do cabelo comportado. Foi maravilhoso. Fiquei lembrando de quanto tempo eu perdi tentando manter o cabelo no lugar, ou deixando de ir a lugares porque meu cabelo não estava arrumado o suficiente e eu não teria tempo de passar por todo o processo, morrendo de medo de vento, deixando de me divertir e dançar como gostaria pra não ficar descabelada e tendo certeza que as meninas de cabelo liso eram mais bonitas que eu. "Você fica mais bonita de cabelo liso". Não, eu fico bonita do jeito que eu quiser. Isso é muito difícil de aceitar, num mundo tão racista, em que os padrões de beleza exigem da gente uma pele clara, um cabelo liso e olho claro.

Eu aprendi, aos 20 e tantos anos, a realmente gostar do meu cabelo. Aprendi a cuidar com produtos que valorizam, a ignorar cabeleireiro, já que eu faço minhas próprias hidratações e sei quando meu cabelo está precisando de cuidado. Não, moço, eu não preciso de uma hidratação pra “abrir os cachos”. Isso é um eufemismo pra “bora esticar esse cabelo até ele ficar liso”. Moça, tá achando ruim pentear meu cabelo? Você, como profissional da área, deveria saber que pentear cabelo cacheado com um pente fino desses dá um trabalhão mesmo. Deixa que eu penteio.

Minha alegria hoje é me olhar no espelho e fazer coisas que me deixariam “de cabelo em pé” uns anos atrás, como sair de casa sem precisar pentear o cabelo, amassar bastante ou jogar ele todo pra frente pra ativar os cachos, sair de casa sem precisar molhar o cabelo.

Lembro que, quando terminava todo o processo de controlar o cabelo, pensava: acho que vai ficar no lugar. Hoje o pensamento é: tô linda, tô gata, tô arrasando. E saio desfilando como se fosse Beyoncé em Crazy In Love. Porém, com cachos. ;)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Ocupar espaços vazios

Decorar uma casa, pra mim, é, basicamente, saber quais e como ocupar os espaços vazios de uma casa (que pode ser apartamento, quitinete, flat, puxadinho, etc, mas eu sempre vou chamar de casa). Num dia você tem um quarto cheio de cacarecos acumulados da infância, adolescência, fase adulta e fase bebê do outro projeto de gente com quem dividia o quarto e que estão acomodado há tempos no lugar em que estão. No outro dia, há uma sala esperando um sofá e uma mesa, um quarto mais ou menos ocupado, um guarda-roupa sub utilizado.

Nos meus planos, eu mudaria com a casa completinha. Juntei dinheiro, pesquisei durante meses, fiz uma lista de prioridades com o preço mínimo e máximo que eu poderia pagar em cada móvel. No papel e na tela do tablet é tudo bonito, né? Enquanto a gente mora com pai e mãe e tem poucas contas pra pagar, o dinheiro sempre dá, né? Na prática, aparecem boletos de cantos inimagináveis que levam seu dinheiro embora. A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia, já diziam Mamonas.

A lista de prioridades eu já nem sei por onde anda. Deve ser por isso que, antes mesmo de mudar, eu já tinha uma TV pra sala, mas ainda não tinha cama nem sofá. Comprei a estante de quadrinhos antes da mesa. Comprei quadros sem nem saber se eles combinariam com a decoração. Comprei gravuras antes das molduras e, quando comprei as molduras, esqueci de comprar o martelo. Finalmente, quando consegui reunir tudo isso, faltou o prego.

Aos poucos o espaço-a-ser-preenchido pega a minha forma. Os puffs, que fazem o papel de sofá, estão colocados estrategicamente no melhor lugar: na frente da TV. A mesa da casa é a mesa da Barbie que a Alice ganhou de aniversário ano retrasado. O Kinect está numa distância razoável, que me permite usar o espaço vazio de várias formas (confesso que o Just Dance prevaleceu por muito tempo na disputa quero-um-sofá ou preciso de espaço-pra-jogar?).

Engraçado como, no espaço que é meu, eu deixei de ter medo do escuro. Sim, eu tenho 25 anos e tenho medo de escuro. Mas eu tenho medo de pato também, que eu considero muito mais anormal. No meu escuro eu me dou bem. Torço apenas para não encontrar nenhuma peça de Lego e nenhuma quina pelo caminho. De resto, tá tudo bem, agora.

A cozinha está quase toda ocupada. Só acho que preciso de mais panelas. Ficar revezando com duas panelas e uma frigideira me faz ter que lavar a louça mais vezes do que eu gostaria. O que não deixa de ser uma coisa boa, porque eu já descobri o que a anarquia numa cozinha pode fazer. Meu livro do Jamie Oliver me acompanha sempre, apesar de, na maior parte do tempo, quando eu invento de fazer uma receita específica, eu percebo que esqueci de comprar algum ingrediente.

O único espaço que eu achei que não fosse precisar me preocupar porque já estava devidamente, e muito bem ocupado, era o que você resolveu desocupar. Sinceramente, não sei o que fazer com ele, porque parece que só de pensar na ideia de mexer nele, dói. Optei por deixar ele assim. É como naqueles filmes em que uma pessoa leva uma facada, mas não podem retirar a faca porque causaria uma hemorragia e a pessoa morreria em questão de segundos. Ou como naquele episódio de Dexter (que você não viu - provavelmente nunca vai ver) em que a moça foi guardada toda esquartejada dentro de um armário bem pequeno. Aquilo foi o que salvou a vida dela, porque ficou tudo tão juntinho, tão intacto que o sangue se manteve dentro do corpo.

Vou manter o seu espaço do jeito que você deixou quando foi embora. Tem uma parte estúpida de mim que acha que você vai voltar e não quer que você tenha surpresas. A outra parte só não quer mexer porque seria doloroso demais. Vou ficar bem quietinha dentro de um armário bem pequeno para evitar maiores desastres.

Hoje resolvi não planejar tanto e comprei o meu sofá. Foi paixão à primeira vista. Ele vai combinar direitinho com minha outra paixão: Netflix. Dá pra passar horas vendo TV (no sentido mais amplo da expressão possível) e jogando. Você iria gostar.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Manual do bom senso de visita ao recém-nascido

Criança quando nasce é uma felicidade indescritível. Passamos 9 meses acompanhando os enjoos da mãe, a barriga crescendo, a descoberta do sexo, a barriga crescendo, planejando chá de fralda, decoração do quarto, a barriga crescendo, os pés inchando, acompanhando a barriga se mexendo, fazendo planos. Fazemos tudo isso sem tocar diretamente no bebê, sem saber como é o rostinho dele, com quem se parece. Mais um membro na família que, de tão aguardado, os nove meses podem parecer muito mais tempo.

E aí o pacotinho nasce. É whatsapp pra avisar, post no Facebook, ligação para todos os parentes, SMS, telegrama, carta de amor. Todos querendo visitar o mais novo habitante da Terra. Porém, segurem os ânimos. As coisas não são tão simples quanto parecem. Muitas pessoas acabam errando feio quando querem agradar na hora de visitar o bebê. Dá só uma lida nessas dicas pra manter a harmonia e o bom senso:

Visita na maternidade

Se você não é o pai do bebê, ou não tem uma ligação MUITO íntima com a família, não há necessidade de uma visita no hospital. Vamos lembrar que estamos lidando com um recém-nascido e uma mãe que acabou de passar por algumas horas de parto ou está recém-operada. Ela quer descanso. Além disso, se a mãe passou por uma cesariana, pode ser que tenha que ficar deitada 100% na horizontal, por causa da anestesia. Isso dificulta um pouco o contato social. Tem também a indicação de evitar ao máximo que a mãe fale, porque dá... gases. A barriga incha que é uma beleza. E se incha, é preciso que esses gases saiam. Se você encontrar com alguma mãe andando sem destino pelos corredores, você já sabe o que ela está fazendo.

Fale baixo, não toque em nada. Evite fotos sem a autorização da mãe. Seja breve.

Visita em casa

Mãe e bebê em casa, hora de festejar, certo? Errado. Reina aqui a ideia de que "todo cuidado é pouco" e do "Faça silêncio, caramba!". Temos uma mãe que está, provavelmente, exausta, querendo o conforto do seu lar e um bebê recém chegado ao mundo que nem vacinas tomou ainda. Como agir?

- Não apareça de surpresa. Você não sabe a rotina da casa ainda, pode chegar numa hora que a mãe acabou de dormir, pode acordar, com a campainha, o bebê que chorou por 5 horas seguidas, pode dar de cara com um pai exausto só de samba-canção que virou a noite acordado.

- Ajude. Segurando uma fralda, dando apoio pra mãe levantar, trazendo água, fazendo almoço, lavando a louça, qualquer coisa.

- Lembra do "todo cuidado é pouco"? Então. Não fume antes de entrar numa residência com recém-nascido. Não passe perfume, cremes, tire pulseiras, relógios. Não beije o rosto do neném, muito menos deixe a barba encostar na pele dele. Não adianta nem tentar fazer isso escondido, pois a pele do bebê será um grande dedo-duro depois que ele ficar todo empelotado. Não leve flores. Ou, se levar, deixe bem longe do quarto. Limpeza nunca é demais. Lave as mãos e abuse do álcool gel. Tire os sapatos antes de entrar no quarto do bebê.

- Não acorde o bebê só porque ele dormiu na sua hora de visita. Ele pode até ter "a vida toda pra dormir", mas ele não é um brinquedo pra você acordar a hora que quiser. Sem contar que é provável que o trabalho de fazê-lo dormir novamente não seja seu. Peça para a mãe antes de colocar o bebê no colo.

- Privacidade. Quando a mãe estiver amamentando, deixe ela e o bebê a sós. É um período em que um está conhecendo os hábitos dos outro e pode ser que a hora ainda seja um pouco agitada. Ela pode também não ficar confortável com você encarando os peitos dela. Aproveite para pegar um copo de água para a mãe. Ela vai sentir sede (e muita).

- Não tire fotos sem autorização. Haja silenciosamente. Evite presentear com doces, você não sabe como está a dieta da mãe. Não coloque o bebê nas mãos de uma criança, pelo amor de Deus. Evite aqueles conselhos sem pé nem cabeça que só deixam a mãe mais insegura. Seja breve (a não ser que você queira dar uma faxina de presente, aí você pode ficar um pouco mais).

Na dúvida? Pergunte. A família vai estar feliz em receber visitas que não causem mais problemas que alegrias. Você que é mãe, não tenha medo de impor as suas regras. Se você é o pai, seja parceiro, atuante. Ajude. É a sua casa, o seu bebê. ;)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

#somostodosmacacos?

Racismo. É difícil saber até por onde começar a escrever o que eu penso sobre o assunto. E aí, num domingão, dia clássico de futebol na TV, pipoca nos meios de comunicação mais uma notícia de racismo nos campos. A bola da vez, se me permitem o trocadilho, foi o jogador brasileiro Daniel Alves. Jogaram uma banana para ele durante o jogo. Como ele reagiu? Comendo a banana. Achei a atitude genial. Ele calou a boca dos racistas duas vezes, porque também saiu dos pés dele o passe para o gol. O que veio depois disso foi uma "campanha" na internet intitulada #somostodosmacacos e isso me incomodou de um tanto que aqui estou, escrevendo sobre o assunto.

Eu até entendo a intenção de, ao dizer "somos todos macacos", é mostrar que "somos todos iguais". Porém, não é assim que a sociedade vê, e provavelmente não é assim que a maioria das pessoas que estão dizendo "somos todos macacos" veem também.

Pra início de conversa: você que diz, somos todos macacos, já foi chamado de macaco? Deixa eu te contar como é: humilhante. Parece bobo, mas é como se alguém dissesse que, por ser negro, você não evoluiu o suficiente para ser humano. É macaco. Atrasado. É bicho. É atração de zoológico. Somos todos macacos? Acho que não.

É fácil apoiar com uma hashtag a luta contra o racismo do jogador milionário que tá lá na Europa e depois, quando vai pras baladinhas, não chega nas "neguinhas" nem nas que tem "cara de favelada".

Diz que #somostodosmacacos mas ficou indignado com a eleição de Lupita Nyong'o como a mulher mais bonita do mundo. Afinal, ela, com aquela pele, com aquele cabelo, nem é tão bonita assim, não é mesmo?

Não adianta dizer que o racismo tem que acabar se você riu quando o Faustão chamou uma bailarina de "cabelo de vassoura de bruxa", ou achou que era só uma brincadeira. Todo racismo vira brincadeira uma hora, né?

Você que apoia o movimento #somostodosmacacos e se revolta contra a cotas para negros nas universidades: quão incoerente você consegue ser?

Diz que não é racista mas usa a expressão "ela é uma negra bonita!", como se fosse tão extraordinário uma mulher negra ser bonita que é necessário enfatizar a cor da pele no comentário.

Você, que desvia de um negro na rua por achar que é bandido, acha mesmo que #somostodosmacacos?

#somostodosmacacos até a hora de chegar na fila de adoção e escolher a criança mais clarinha pra levar pra casa, não é mesmo?

Você que não perde uma oportunidade de chamar negro de "preto safado", ou que se incomoda ao ver negros na televisão, que acha que cabelo enrolado e crespo é "ruim" e que precisa ser alisado, que acha que a mulher negra existe para estar à serviço do seu fetiche, que tem nojo de pele escura demais, que acredita que existe "cheiro de preto": pare.

Neymar, eu sei que você aí, sentado nos seus milhões de dólares no exterior deve achar que, pra diminuir o racismo, você tem que fazer piada dele. Não vejo assim. Não quero que o insulto de ser chamada de macaco seja institucionalizado, nem que vire brincadeira, porque não é. Eu moro num país em que um homem negro foi sequestrado por um branco mas foi morto pela polícia com CINCO TIROS porque acharam que ele era o bandido. No país de onde você veio, pessoas são mortas apenas por serem negras. Mais fácil atirar antes e perguntar depois.

Antes de apoiar uma campanha pela modinha, analise as suas próprias atitudes, o seu próprio discurso, o seu privilégio de viver numa sociedade que dá mais valor para a cor da pele acima de caráter e competência. Pode ser uma oportunidade de mudar. Os macacos que me desculpem (creio que eles também não gostariam de ser comparados com humanos), mas eu não sou macaco: sou humana.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Que se chama: intimidade

- Uai, amor, você demorou.
- Tava fazendo cocô.

As relações, sejam elas com mozão, com migos ou com família, passam por situações em que você percebe que ali houve uma evolução no nível de intimidade. É quando numa situação que normalmente você ficaria chocada, horrorizada, até chateada, você respira fundo e simplesmente aceita. Ou mesmo nem respira. Só aceita, sem crise.

Situações como fazer xixi de porta aberta, usar o vaso enquanto a outra pessoa está tomando banho são ações que costumam subir o nível de intimidade entre os participantes. Diarreia na casa do ser amado que, em vez de risos ou preocupação com cheiros, é apenas preocupação com a saúde e tratada com naturalidade costuma subir uns pontos na cumplicidade também.

Tem aquela amizade que, de tão íntima, você tem quase certeza que casar com a pessoa pode ser uma ótima pedida, mesmo que não haja qualquer interesse sexual no meio. Tem aquela com que você compartilha tudo tão naturalmente que é quase uma vida só. Tipo receber mensagem da amiga minutos antes de entrar no motel com um #hojetem ou quando o amigo conta sobre o duplo twist carpado que conseguiu fazer certa vez, ou você contando que vai precisar de cadeiras de rodas amanhã. Ou ainda aquela amizade sincera o suficiente para te sacudir pelos ombros e dizer: "mulher, cê tá louca" e que dá abertura para dizer "é chifre mesmo, para de se enganar".

A parte boa da intimidade é não ter constrangimento no silêncio. E poder ficar chorando por algumas horas seguidas sem que haja críticas, mas também sem que se deixe afundar na tristeza depois de um certo tempo. É ter uma pessoa pra te dizer "vai ficar tudo bem" num dia e num outro é ela quem vai estar ao seu lado dizendo isso.

Tem outras situações em que a intimidade é tamanha que você já não sabe mais o que esperar e às vezes é pega de surpresa e pensa: intimidade é uma merda. Mas né não. Intimidade é divertidíssimo. De que outra forma você dividiria seus medos mais absurdos, suas conquistas pessoais, suas neuroses ou analisaria em que momento a linha da normalidade foi ultrapassada? Pra quem mais você pediria ajuda num stalk?

Não é pra qualquer pessoa que você conta sobre aquela fobia de cachorro, não é qualquer pessoa que vai um dia te salvar de um terrível labrador que insiste em querer fazer amizade com a pessoa portadora da fobia, sem fazer piada com a história.

Você não entrega o padrão de desbloqueio do celular para um conhecido qualquer. Pra mexer no celular exige realmente um grau elevado de confiança e intimidade. Mexer nas fotos é quase como olhar a pessoa nua. Por favor, não mexam nos celulares alheios se vocês não tem intimidade suficiente com o dono para isso.

É na intimidade que você pode respirar aliviado e mostrar quem você realmente é. Porque dá um trabalhão parecer normal o tempo todo.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Maratona de séries

O Afonso, além de bróder e um dos integrantes do reality show Três Solteirões e um bebê que deve estrear a qualquer momento em nossas vidas, é meu assessor em assuntos de entretenimento. Ele tem as melhores dicas de baladas, filmes, de música e também de séries. Foi por isso que eu confiei a ele a missão de escolher as melhores séries para uma maratona. Então, aproveita o fim de semana, as férias, o ócio, o feriado ou o desemprego pra se divertir com as dicas, com uma bela ajuda do Netflix, que tem lugar cativo em nossos corações. <3

Orange Is The New Black



Série original e primeiro grande hit do Netflix, OITNB é daquelas comédias que te fazem rir e chorar ao mesmo tempo. A história acompanha a chegada de Piper Chapman (Taylor Schilling) em uma penitenciária feminina para cumprir 15 meses de sentença. Cada episódio foca no passado e presente das detentas, o que deixa a série extremamente dinâmica e envolvente. É impossível não se apaixonar pelas excêntricas e diferentes personagens vividas por um elenco impecável.

Mad Men



Situada nos anos 60 e criada por Matthew Weiner, que também é o criador e roteirista da aplaudidíssima The Sopranos, Mad Men gira em torno de Don Draper (o ótimo Jon Hamm), sua família e seus colegas de trabalho em uma das maiores agências de publicidade dos EUA. O que torna a série um sucesso absoluto de crítica e público é a forma e a maturidade com que são tratados os dramas vividos pelos personagens, passando por temas da época, como a chegada das mulheres no mercado de trabalho e segregação racial, além de temas universais como morte, amor e infidelidade. Dona de uma carga emocional e uma sutileza impressionantes, a série tem seis das sete temporadas disponíveis no Netflix.

Breaking Bad



Essa chegou ao Brasil com a alcunha de "Melhor Série de Todos os Tempos" e o pior que é difícil discordar da máxima. Com uma nota média de 99/100 no Metacritic e cinco temporadas, todas já disponíveis, acompanhamos a transformação de Walter White (vivido de forma majestosa por Brian Cranston), um professor recém-diagnosticado com câncer e que resolve fabricar drogas para sustentar a família. A escolha acaba provocando tragédia e infortúnios a ele e todos a sua volta. Ver a escalada da maldade e da loucura de Walter, chegando ao embasbacante clímax da 5ª temporada, é que tornou essa uma das melhores produções da história da TV mundial.

House of Cards



Como a primeira produção própria do Netflix, House of Cards tinha uma responsabilidade enorme de não somente ser excelente, mas cativante. E é incrível ver como essas promessas foram entregues com louvor. Frank Underwood, personagem vivido de forma memorável por Kevin Spacey, é um membro do Congresso Americano que, após levar a pior no jogo da política, resolve se vingar de todos os envolvidos e jura chegar ao cargo máximo do poder. A graça na série é ver o quão facilmente e inescrupulosamente Frank consegue o que quer. As vilanias de Frank e seus comparsas já estão na 2ª Temporada (e com a 3ª já garantida).

Derek



Criada, escrita, dirigida e atuada por Ricky Gervais (gênio da comédia britânica que criou The Office) para o Netflix, Derek consegue ser engraçada e extremamente triste ao mesmo tempo. O foco é o Lar de Velhinhos onde Derek, que tem a idade mental de uma criança de 8 anos, trabalha e convive com os também problemáticos colegas de trabalho e moradores do asilo. Cada episódio tem a capacidade incrível de te fazer gargalhar e chorar dentro de 20 minutos, sempre tratando assuntos pesados como morte e solidão com uma leveza impressionante. Essa pérola voltará para uma 2ª temporada, mas ainda sem data definida.

Doctor Who



Doctor Who não é só uma das melhores Ficções Científicas já feitas, é uma institução da TV Mundial que completou 50 Anos de exibição em 2013. O Doutor (sim, é o nome dele) é um alien que viaja pelo tempo e espaço com os seus companheiros humanos, sempre esbarrando em alguma encrenca e salvando o Universo. Se engana quem pensa que é uma série boba pela sinopse. O motivo da longevidade da série está na qualidade do seus roteiros e atores e no carisma quase infinito dos seus personagens. É simplesmente imperdível pra quem gosta de Sci-Fi. O Netflix conta com as sete temporadas + os especiais da fase mais nova da série (que começou em 2005 e pode ser acompanhada sem ter assistido nada da série antiga).

Sherlock



Dos mesmos criadores e roteiristas de Doctor Who, essa interpretação de como seriam as aventuras do detetive mais famoso do mundo no mundo moderno é de uma inteligência embasbacante. E as interpretações brilhantes de Beneditc Cumberbatch (Sherlock Holmes) e Martin Freeman (John Watson) são a cereja no bolo. Tudo na série é moderno e envolvente, da resolução dos casos à apresentação visual. Assista com cuidado pois a série é extremamente viciante (e dona de um dos maiores fã-clubes da internet). As três temporadas já produzidas se encontram disponíveis no catálogo Netflix.

The Office



Com um total de nove temporadas, todas já disponíveis no Netflix, The Office se despediu da TV em 2013 como uma das melhores séries de comédia já realizadas. Feita como um documentário do escritório mais estranho do mundo, a graça da série está na convivência e no realismo absurdo dos funcionários da Dunder Mifflin, chefiados pelo patético e hilário Michael Scott (na melhor atuação da carreira de Steve Carrell). É daquelas de gargalhar alto a cada episódio.

Luther



Essa pérola meio desconhecida da BBC é uma das melhores séries policiais dos últimos anos. O detetive Luther (vivido pelo ator revelação Idris Elba) resolve crimes usando sua incrível inteligência e métodos nada ortodoxos e éticos, como por exemplo a ajuda de uma psicopata assassina, vivida de forma apaixonante por Ruth Wilson. A série inteira tem somente 14 episódios e mantém a qualidade e a tensão do início ao fim.

Orphan Black



Essa série sobre clones foi a grande surpresa de 2013. A história repleta de reviravoltas ganha corpo e alma na atuação simplesmente inacreditável de Tatiana Maslany, que interpreta nada menos que SEIS personagens de forma primorosa, com uma atenção a detalhes que dá personalidades completamente diferentes a cada um dos clones. É difícil não ficar fisgado pela complexidade e excelência das atuações da série. A 1ª temporada já está disponível.

Parks & Recreation



Encabeçada por Amy Poehler (que dispensa apresentações), Parks apresenta várias semelhanças com The Office: as duas tem formato mockmentarie, ambas são focadas em um escritório (no caso de Parks, uma repartição pública) e ambas são engraçadíssimas. A diferença aqui se encontra no elenco afiadíssimo (Poehler sempre se gaba de ter o melhor elenco da tv e é difícil discordar) e no equilíbrio perfeito entre comédia e momentos de doçura sem a menor pieguice. Conta com cinco temporadas já disponíveis.


Bônus: indicação do <3

Cosmos: A Spacetime Odyssey



Essa não tem no Netflix, mas nem por isso deixa de ser uma indicação do <3. Cosmos é uma série-documentário sobre ciência que busca atualizar a clássica dos anos 80, que foi narrada e encabeçada pelo lendário Carl Sagan. Comandada dessa vez por Neil deGrasse Tyson, o maior comunicador da ciência da nossa geração, Cosmos passa por assuntos como Evolução, Astrofísica, Biologia e História; mas sempre com um didatismo e uma inteligência incrível, tornando fácil a assimilação de assuntos complexos sem nunca rebaixar o QI do telespectador. E não dói o fato da série ter uma fotografia e visuais lindíssimos, cada episódio é uma experiência visual que é difícil de explicar. Composta de 13 episódios, ela é exibida no Brasil pela NatGeoHD, todas as Quintas, as 22:30.

Aí quando você se apaixonar pelas séries e, de repente, seus amigos perguntarem por que você deu um "Adeus, mundo!" no Facebook e não voltou mais, mostre pra eles o que você anda assistindo ;)

PS: Sigam-nos os bons! @eracilada e @afuenso
PS 2: O joinha na fanpage do blog também é bem vindo. ;)
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