quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Cotidiano

19:58 0 Comments


A gente combinou no início que não ia deixar o relacionamento entrar na rotina. Eu concordei, morrendo de medo. Não sou de fazer grandes gestos, preparar viagens surpresas, presentes mirabolantes. Mas a gente descobriu que o melhor jeito de não cair no peso da rotina era manter tudo simples. Porque foi assim que começou.

Num boteco com Original barata, cadeira de plástico na calçada, porção de pastel de queijo e moela. Ele num lado da grande mesa de colegas e amigos em comum, eu, no outro, de macacão e tênis, sem qualquer pretensão. A gente se olhou. E se reconheceu no afeto, na energia.

Os presentes de Natal e aniversário de namoro foram dados em janeiro do ano seguinte simplesmente porque a gente não tinha cabeça pra isso. O suporte emocional que um deu ao outro num momento de reviravoltas da vida foi muito mais importante e significativo. Foi o melhor presente que eu já ganhei.

Nossos melhores encontros e conversas ocorrem na varanda, com cerveja que a gente comprou no mercado e linguiça assada no grill. Às vezes venta e eu sinto frio. E eu coloco meia. E ele finge que fica bravo, mas fica realmente ultrajado. Ele finge que vai tirar a meia do meu pé, eu finjo que acredito. A gente ri. Ele coloca os meus pés por cima da perna dele, meio olhando de lado pras meias, ainda. A gente olha pro horizonte e suspira. É simples assim.

Ele sai de casaco só pra que eu não passe frio no fim da noite. Ele já levou uma manta pra eu não passar frio no cinema. Ele respeita as minhas esquisitices de escolher um lugar específico pra sentar, o copo que eu vou usar, mesmo que ele seja igual aos outros do conjunto. A gente brinda olhando no olho, sempre. Isso é fantástico. E é um sopro de vida. E não custa nada. É simples pra caralho. Não é fácil, é simples.

Ele respeita o meu lado da cama, não importa a cama que a gente está. Mas às vezes ele pede e eu deixo ele dormir do meu lado. Eu não faço ideia do porquê isso é importante, mas me faz dormir com um sorrisinho no rosto.

A gente ouve Bethânia e também Zeca. Um dia eu chorei com Milton. E uma vez ele chorou com Pantera Negra. Ele ri quando eu me arrepio com a oração de São Jorge. Eu, a menina de Oyá. Ele, o caçador de Oxóssi. Ou talvez a corredeira de Oxum.

Ele é o maníaco da louça. E eu, sinceramente, já vi copo criar fungo na minha pia, de tanto tempo que eu ignorei a existência dele. Ele acorda cedo pra correr no parque e nadar. E eu? Nem vejo ele saindo até a hora que volta. Eu não consigo acompanhar a velocidade em que ele entra em sono profundo nem tomando remédio. Não faço ideia de como essa combinação dá certo. Mas é tão certo, sabe?

A gente se esforça pra fazer o outro feliz. Quando um cai, o outro ajuda a levantar. Quando um tá com frio, o outro ajuda a esquentar. Quando estão os dois bêbados, trocando os pés pelas ruas, a gente se equilibra. Um apoia no outro, mutualmente. Questão de física. E muita química. Às vezes matemática. Mas também muita concordância. E história. Também literatura. Não é fácil. Mas é simples.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Amiga, nem te conto

14:09 6 Comments


Quando a minha psicóloga me deu alta, houve muitos sentimentos confusos da minha parte. Primeiramente, eu nem imaginava que existisse o evento “Oi, você está de alta da terapia”. E, como assim, eu consegui chegar lá? Eu nem tava me preparando pra isso! Bom, o fato é que aconteceu. Como ela mesma salientou, não era uma questão de “cura”, mas que ela achava que eu estava preparada para lidar com as situações da vida sem ela. Eu também achei que eu estava. O problema era lidar com a vida rolando e aquele pensamento “Nossa, queria muito contar isso pra minha psicóloga” ou “HAHAHA ela ia adorar saber o desfecho dessa história que eu comecei a contar pra ela” ou até “caceta, ela tinha razão!”

Ela disse que eu poderia mandar mensagem sempre que eu precisasse. Mas, convenhamos. Eu não ia fazer isso com ela. Porque ela não ia ser paga e porque eu realmente precisava seguir a vida sem o sentimento de proteção contra o mundo que a terapia trazia. Foi como terminar um relacionamento e ver todas aquelas situações que lembram o casal de algo e não poder mandar mensagem pra outra parte. Assim, eu comecei a colocar no papel pensamentos que eu gostaria de ter compartilhado com ela. Se você quiser tornar esse relato mais próximo do que eu estava pensando, pode começar todas as frases com “amiga, nem te conto”. Não era assim que a gente conversava, mas é assim que a minha cabeça funciona.

Eu entendi a minha doença. Abracei, respirei fundo. Deixei ela falar. Foi horrível. Depois foi como um afago na alma. Eu conheci o monstrinho que habita em mim. Já que ele não vai embora, que pelo menos eu saiba lidar com ele.

Mudei todas as situações as quais eu me julgava eternamente presa. Eu lembro quando você me questionava “por que não mudar isso?” e eu sempre dizia que era impossível. Você dizia que eu enxergava tudo cinza e eu só dizia que eu enxergava a realidade. E que a realidade é cinza e vida que segue. Um dia, as nuvens se dissiparam e eu finalmente vi a possibilidade de outras cores. E pensei “aaahh era disso que ela tava falando”. E mudei. De cabelo, de casa, de carro, de relacionamento. Mudei do eu que já não me comportava mais. Eu agora preciso de espaço, preciso das cores. Não mudei muito as roupas, mas mudei as atitudes. Mudei a compreensão do papel do outro na minha vida. Aceitei que às vezes uma pessoa que te traz conflitos resolveria muito a sua vida e a dela se fizesse terapia também. Mas a gente não manda no outro, né. Fiz a minha parte.

Alice cresceu tanto nesse tempo que eu pouco me lembro da época que ela era dependente de mim pra tudo. Na ceia de Natal ela apareceu toda maquiada. E não foi uma sombra verde, com um batom vermelho borrado e um blush vermelho bem marcado nas bochechas. Ela passou um pó do tom de pele dela. Passou um batom que ela gosta, sem borrar. Acho que até rímel teve. Em outros momentos eu teria brigado. Mas eu percebi que aquela foi a forma dela de mostrar que ela estava crescendo. Ela quer usar roupas parecidas com as minhas. Tem vontade própria. Tem raciocínios sagazes que não foi eu quem ensinou. Mas, ao mesmo tempo, ainda acredita em Papai Noel. É uma tradição dos meus pais com as netas. Deixa eles.

Eu poderia continuar esse relato, mas a verdade é que eu sucumbi. Banquei a ex que aparece do nada mandando “oi, sumida”. O resultado? Voltamos em janeiro. Deu até um tempo pra ela tirar férias antes de mim. Queria começar a sessão como começam as temporadas das séries que eu assisto, com um “Previously on Não Era Amor, Era Cilada”, pra ela relembrar o que tinha acontecido na temporada passada e ver que não é reprise, são episódios novinhos.

domingo, 19 de agosto de 2018

Tópicos sobre depressão

00:47 0 Comments


Eu ainda lembro do dia que o pai de santo disse que tinha uma energia de morte perto de mim. Pediu, por favor, que eu nem pensasse em suicídio, porque ele não resolveria o meu problema.

Eu não pensava em suicídio. Aliás, eu ficava desesperada só de pensar na possibilidade. Eu não podia morrer e largar minha filha aqui. Além disso, eu queria viver pra caralho. Queria ver minha filha crescer, queria concretizar meus sonhos, ficar feliz com as minhas conquistas. Eu queria estar viva para viajar, sorrir, andar de mãos dadas com alguém por aí. Sim, eu queria viver.

Mas, ter depressão não é viver. É sobreviver. Para cada dia se faz necessário um esforço sobre-humano para seguir em frente.

O corpo deixa de ser funcional, como antes. Você quer abrir os olhos. Os olhos não se abrem. Dói abrir os olhos. Dói o olho, dói a cabeça, dói o coração, dói a coluna, dói até a barriga. A dor física e emocional é generalizada.

Levantar da cama era um tormento diário. Lembro do dia que demorei 2 horas pra conseguir sair da cama. Quando achei que tinha vencido uma batalha, eu fraquejei. Sentei no chão, depois deitei. Fiquei lá por 5 horas. Eu precisava ir trabalhar, precisava levar minha filha na escola, precisava comer, precisava fazer xixi. Não fiz nada disso.

Em algum momento eu puxei a coberta que estava em cima da cama. O celular veio junto. Foi um alívio porque agora eu poderia pedir ajuda. Mas não pedi. Mandei mensagem no trabalho avisando que não ia trabalhar porque não estava me sentindo bem. Essa solução, porém, me causou mais um problema. Eu estava mal, mas não tinha um atestado para justificar a falta.

Alice disse que estava com fome. Disse que ela poderia buscar um pacote de biscoito no armário mas que ela não podia comer nada sem olhar a validade antes. Eu sabia que várias coisas ali estavam estragadas há meses. Ela me perguntou se ela não ia pra escola. Eu disse que não. Ela chorou. Mas não por causa da escola, ela nunca gostou de escola. Eu, deitada no chão, chorei também. Ela deitou no meu peito e perguntou o que eu estava sentindo. Eu disse que não sabia. Era enxaqueca, dor de estômago, dor na alma, dor no coração, até dor no rim apareceu. Ela não entenderia.

- Liga pra sua avó e pede pra ela vir te buscar pra eu poder ir ao médico.

Ela estava especialmente obediente no dia. E a gente sempre acha que criança é boba e não entende as coisas.

A vontade de fazer xixi ficou insuportável. Fui engatinhando para o banheiro. Na hora de dar descarga, percebi que meu xixi estava meio alaranjado. Deveria ser uma infecção urinária. Meu atestado.

- Obrigada, Senhor.

***

Eu demorei a perceber a depressão porque ela se misturou com a minha personalidade e com o meu corre diário. Normalmente, no estado depressivo, eu me sentia exausta. Mas eu achava que era o cansaço "normal" que uma mãe solo que trabalha e estuda sente. Bom, e quem é que dorme tendo uma filha pequena e tantas preocupações, não é mesmo? Normal não dormir bem. Trabalhando de madrugada então? Super normal. Lembro do dia que eu falei pra um amigo que eu não tinha motivos para ter depressão e a resposta dele foi:

- Com essa vida que você tem que levar, eu acho que até demorou.

***

Eu queria que inventassem nomes científicos para os sintomas da depressão. Talvez assim ela fosse levada mais a sério. Não é tristeza o que se sente. Aliás, pode até ser que exista um quê de tristeza, mas o que amplifica esse sentimento deveria ter outro nome. Quando eu estou numa crise depressiva eu não estou "triste". Eu estou [insira aqui um termo médico de respeito para a tristeza do depressivo].

Além disso, não é cansaço. É mais que isso. É outra coisa diferente de fadiga. Afinal, não foi feito nenhum esforço físico para chegar nesse estado. O depressivo não sai da cama porque está numa condição de [insira aqui um sintoma com nome em latim para quem tem a sensação de carregar o peso do mundo nos ombros]

Eu ficava aliviada quando os sintomas físicos apareciam. Primeiro para me provar que eu não tava inventando coisas na minha cabeça. Segundo porque era possível provar os sintomas que as pessoas conseguiam ver. Tipo taquicardia. É só botar a mão no peito que ela tá lá. É respeitável. Pico ou queda de pressão. Se não estiver aparente, qualquer aparelho de medir pressão mostraria. Agora tristeza. Vai lá dizer pro seu chefe que você não conseguiu levantar da cama porque tava "triste". Cadê o termo médico para a condição do depressivo que pode passar um dia inteiro chorando?

***

Eu nunca pensei em suicídio. Mas os dias estavam cada dia mais pesados. Eu só queria chegar em casa e tomar meu remédio pra dormir. A gente não pensa quando dorme. Principalmente medicada. Eu me autorizei a tomar uma dose extra completamente não recomendada pelo médico em dias que eu considerava "mais pesado" que os outros.

Depois de alguns meses, eu comecei a questionar se essa minha vontade de dormir tanto não seria um eufemismo para querer morrer. Enquanto dormia, eu não vivia. Ou até pensando objetivamente em como eu estava sendo irresponsável, porque não sabia se uma superdosagem poderia me matar.

Mas eu vou confessar que o barato dos remédios para dormir é bom. Para uma pessoa que não dormia uma noite inteira há anos, é um alívio. Deitar a cabeça no travesseiro e não pensar em mais nada, a não ser na própria respiração e adormecer minutos depois é bom demais. Meus parabéns para vocês que conseguem fazer isso naturalmente.

Passei vários anos dormindo mal achando que eu era daquele jeito. Até que eu passei a acordar 5 vezes numa noite. Na quarta eu já tava chorando de desespero. Eu queria bater a cabeça na parede até desmaiar e, assim, voltar a dormir. O coração tava sempre acelerado. Não tem como dormir em paz desse jeito.

***

Lembro da primeira vez que eu senti o combo terapia e remédios pra ansiedade, depressão e insônia fazendo efeito. Era como se eu estivesse presa há muito tempo em um engarrafamento. O stress, a agitação, as buzinas constantes. Em alguns dias eu realmente conseguia ouvir buzinas na minha cabeça. Mas aí, numa manhã tudo estava silencioso. Eu respirei, o coração não acelerou. Não apertou também. Eu conseguia acompanhar meus próprios pensamentos. Eu estava serena. Lembro que pensei: Uau, é assim que as pessoas normais acordam?

Existia uma luz no fim do túnel.

sábado, 18 de agosto de 2018

Liberdade

23:33 0 Comments


Dia desses durante alguma conversa de bar, eu percebi que as mulheres tem dificuldade em fazer cocô e em falar sobre. Os homens, normalmente, olham com surpresa e contam que fazem cocô uma, duas vezes por dia. As moças contam, como se fosse distinção de caráter, que nunca cagam no banheiro do trabalho. Já os homens possuem hora marcada e até uma cabine preferida pra largar o barro no trampo. Alguns relatam, inclusive, que usam esse tempo no trono para relaxar, ou aproveitar o momento para jogar, fazer relatório e até ligar para a namorada.

As mulheres, não. Só fazem em casa. Sem outra pessoa presenciando do outro lado da porta. É muita vulnerabilidade. Cocô é sujo. Vai que fede? Assim nos foi ensinado. Fazer em qualquer lugar não é coisa de menina. Deve ser por isso que eu vejo tantos relatos de mulheres com prisão de ventre. Sei de mulheres que fazem cocô uma vez por semana e só. A sociedade não nos deixa nem cagar em paz. Fazer cocô se tornou um ato de resistência.

Eu gosto muito da expressão "estar enfezado". O sujeito enfezado está puto, mal humorado, rabugento, desgostoso da vida porque precisa dar uma cagada para ficar em paz. Estar enfezado quer dizer estar "cheio de fezes". Faz todo sentido. Já ouvi falar que essa pode não ser a origem real da palavra. Mas, sinceramente, eu não quero saber o real. Esse significado é muito melhor.

Eu sempre fui uma pessoa enfezada. Principalmente no fim do dia. Eu sei, tinha o cansaço, tinha a fome, mas tinha também a vontade de cagar. Aí, se você sai com a galera pra tomar uma cerveja no fim do expediente, acaba acumulando ainda mais gases e triplicando a vontade de ir correndo pra casa. Em algum momento de pré-cerveja, eu decidi que faria parte da resistência. Ia cagar no trabalho, sim. E foi um alívio. Ahh, mas o cheiro? Ahh mas e se alguém ouve o barulho da bosta na água? Bom, essa é a hora de praticar o mantra milenar chamado "fooooda-seeeee". Cagar no horário de trabalho é um ato de resistência ainda maior. É como se o seu patrão estivesse te pagando para fazer aquilo.

Arthur

22:49 2 Comments
Era um dia em que eu estava me sentindo meio maternal. Talvez por culpa dos hormônios. Aliás, é claro que foram os hormônios. Só eles seriam capazes de me fazer querer levar quatro crianças ao cinema, sozinha.

Eu tentei ser racional. Levar só uma. Levar metade do grupo. Só os meninos. Só as meninas. Eu deveria ter considerado levar só o Arthur, ou só as outras crianças. Porque o Arthur demanda muita atenção de um ser humano. Pois eu levei todas porque era isso que meu coração cheio de amor para dar estava exigindo.

No shopping, eu era mais uma entre as crianças. Pedi um Mc Lanche Feliz, apontei para vitrines, fingi ter desejos impossíveis, como uma camiseta do Wolverine que alguém teria que me dar de aniversário ou de Natal. O problema de se comportar como uma criança é que você acaba tomando decisões precipitadas, como comprar quatro pacotes de pipoca que eu não tinha quaisquer condições de carregar sozinha.

Enquanto eu fazia esse malabarismo, recebi olhares interessantes dos moços na fila. Deixei pra lá, pois eu estava ali como guardiã de quatro seres vivos. Minutos depois eu percebi que não eram olhares de flerte e sim de deboche, já que eu estava com um adesivo colado na testa. Pestinhas!

Acomodei a garotada nas cadeiras com os sacos de pipoca e as bebidas. Tive que descobrir, no escuro, qual sabor pertencia a cada criança. Eu não sei o porquê, mas, suco de uva, suco de laranja, Coca e Guaraná sem gás, no escuro, tem o mesmo gosto. Eu não sei como acabei sobrando com duas Cocas.

Me faltou um pouco de malícia porque obviamente os pentelhos e pentelhas começaram a querer ir ao banheiro. Levei uma, levei duas. Levei o Arthur três vezes.



O que eu não contei sobre o Arthur é que ele tinha quatro anos, não sabia se limpar sozinho e tem uma tradição de fazer cocô em banheiros que ele visita pela primeira vez. Eu só lembrei desse detalhe quando ele demorou a sair do banheiro masculino.

- Arthur, tá tudo bem, cara? - perguntei, do lado de fora do banheiro
- Tá tudo bem, tia Ericka, eu vou fazer cocô.
- Não, Arthur! Não faz cocô aí, cara! Eu não posso entrar!
- Tia Ericka, eu já tô fazendo.

Dois homens saíram de dentro do banheiro do cinema rindo, por causa de um garoto que estava fazendo cocô de porta aberta. 

- Tia Erickaaa, eu termineeeei!

Não teve jeito, eu ia ter que entrar no banheiro masculino. Dei uma olhadela sem maldade lá pra dentro e contei seis homens. Esperei cada um deles sair, enquanto gritava pro Arthur ficar calmo que eu já tava chegando. Para o último homem que saiu, eu dei uma missão: ficar na porta do banheiro e impedir a entrada de outros caras enquanto eu estivesse lá. 

Encontrei Arthur na última cabine, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto nas mãos, como quem caga e depois fica pensando na vida. Chegou a hora do trabalho sujo. Confesso que ser mãe faz você subir os seus parâmetros de nojo. Eu tava mais incomodada com o garoto sentado no vaso do que com a limpeza do cocô, em si. Enquanto isso, começou um burburinho lá fora.

- Calma, galera, tô acabando! - gritei para a multidão impaciente do lado de fora. Só depois fui perceber que, dizendo essa frase, parecia que era eu quem estava cagando.

Sem ter muito o que fazer, além de lavar as minhas mãos e as do Arthur, terminei o meu serviço e fui até a porta me explicar pela bagunça. Mas não tinha muito o que dizer. Estava estampado na testa de todos os homens da fila que eles se perguntavam por que diabos uma mulher estava cagando no banheiro masculino. Depois de ser a mulher doida que anda com um adesivo no meio da testa, eu agora era a mulher que caga no banheiro dos homens. 

Voltamos para a sala de cinema. Eu havia perdido metade do filme. Aliás, não só a metade, como, de acordo com a minha filha, "a melhor parte". A criança mais velha ficou com pena de mim e disse que queria que o filme acabasse logo só pra eu não precisar levar mais ninguém ao banheiro. Mas adulto tem isso de ser meio besta às vezes. Perdi o filme mas fiquei satisfeita em ver a gurizada toda feliz, fingindo que eram os personagens dos filmes, ensaiando lutas, escolhendo os preferidos. Quando contei que aquele filme era baseado numa série que eu assistia quando criança, recebi olhares espantados:

- Mas tão velho assim?

Não tem hormônio que resista. Acabou o amor. Cadê os pais dessas crianças?

terça-feira, 8 de maio de 2018

Pensar no outro

11:17 0 Comments


Eu segurei até onde pude. Não queria ser a pessoa que começa qualquer coisa com "a minha psicóloga disse...", mas não vai ter jeito. Como jornalista, eu não posso tomar a frase dela pra mim. Eu nunca teria pensado nisso sozinha.

A minha psicóloga disse, uma vez, que se preocupar com alguém é abrir mão de um pouquinho de você. Nós estávamos falando sobre expectativas, e ela me dizia que, para pensar no outro, as pessoas precisavam deixar de pensar em si por alguns instantes. E que nem sempre as pessoas estavam dispostas a isso.

*
Um dia, uma amiga apareceu lá casa no meio de uma crise de ansiedade minha. Eu estava sentada no chão, controlando o choro, de pé quebrado, envolta por uma zona de uma bagunça indescritível. Nós havíamos marcado uma limpeza de pele no salão da rua de cima. Bem dondocas mesmo. Vendo aquela cena de uma casa que parecia ter sido revirada por alguém, ela respirou, olhou a extensão do estrago e pediu pra cancelar a limpeza de pele. Trocou um dia de madame por um dia de faxina.

Enquanto isso, eu continuava sentada no chão, parecendo uma acumuladora em surto como as que a gente vê naqueles programas. Chorava quando ela mexia onde eu não deixava, ordenava que não jogasse coisas fora, que não entrasse nos cômodos. Ela entrou. E limpou. E onde não deu conta, chamou o irmão pra ajudar. Doeu como poucas coisas na vida e ainda dói só de lembrar. E aposto que doeu neles também.

As pessoas precisam deixar de pensar em si para pensar nos outros. Essa frase fica martelando em minha cabeça toda vez que eu relembro esse dia. Ela abriu mão de um sábado inteiro por mim. O irmão dela, que nada tinha a ver com a história, se moveu de onde estava para me ajudar também. Um dia em que duas pessoas abriram mão delas só para pensar em mim e eu não sei nem se um dia vou conseguir retribuir.

Por quem você abriria mão de pensar em você por uns momentos?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Os dentes da Gabi

02:09 2 Comments



A Gabi é uma mulher fantástica. Divertida, simpática, despachada, alta, morena, cabelos lindos, gostosa. Mas eu queria falar do sorriso, que é enorme e cativante, além da auto estima. Se ela fosse uma música do Charlie Brown o cara já tava perdendo a linha na primeira. 

A Gabi ama carnaval. Leva a sério a história de entrar num personagem criativo.

Em um desses dias de folia a Gabi perdeu o dente numa luta por um pirulito com um outro folião. A tentativa de furto ocorre quando o moço puxa o pirulito da boca da moça. Eu não falei ali em cima, mas a Gabi é bicha arretada, mulher barraqueira quando necessário. Ela travou os dentes e defendeu seu patrimônio. Ele puxou mais, ela travou sem chance de ceder. Quem perdeu a batalha foi o dente. Aquele da frente, o atacante, o menino Bebeto, aquele primeiro que é visto na hora do sorriso. Gabriella agora era dona de metade de um pirulito e um dente quebrado que era impossível de esconder.

Quando ela me contou, achei que a noite havia acabado por ali. Mas a noite só havia começado. Gabriela usou sua auto estima do caralho pra não perder o seu sorriso tão característico. Ela sorria ainda mais do o normal. Aparentemente, a fantasia da auto estima que ela estava usando a deixava ainda mais bonita porque ela passou o rodo no bloquinho, mesmo quando o cara chegava nela e ela apontava pro dente. Eles simplesmente não ligavam porque ela mesma também não estava nem aí. Inclusive postou várias fotos nas redes sociais.

A noite da Gabriella terminou muito bem e até acompanhada. Eu tirei uma lição e confirmei outra dessa história. A primeira lição foi a de que a auto estima é a melhor roupa que você pode vestir pra se sentir bem. Tudo fica interessante quando a pessoa é interessante.

A lição que eu confirmei é que eu agora me arrumo pra mim. E isso quer dizer que eu posso não me arrumar e me sentir bem se eu estiver com a auto estima em alta. Foi assim que saí com vários caras sem tomar banho para o evento específico, sem estar com uma roupa que chamasse atenção ou sem passar perfume, por exemplo. E eles diziam que eu estava muito cheirosa. Eu podia soltar a frase que eu uso quando tô insegura: "ah é? tô suada, nem tomei banho hoje". Mas eu deixei sentir só o cheirinho da minha auto estima tomando conta.

Até adotei um mantra: Se a Gabi pegou 5 banguela, eu posso pegar um sem pentear o cabelo. Faça a sua versão e seja feliz.

Mulheres com alta auto estima vão longe. Mulheres com alta auto estima e um dente quebrado vão a lugares que a gente nem imagina.

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