sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Diário de Viagem - Rio de Janeiro - A responsabilidade

É meio desesperador ser a adulta que tem que fingir segurança pra alguém quando se tem medo de avião. Alice lá, feliz da vida porque ia conhecer a praia e eu há duas noites sem conseguir dormir direito pensando que eu ia entrar num avião. É idiota? Sim. Mas é a vida. Respirei fundo, botei meus óculos escuros pra esconder o olhar de pânico e fui.

Passada a viagem de avião mais tranquila que eu já presenciei, começaram os outros desafios. Ser uma adulta 100% responsável por uma criança. Não ia ter minha mãe pra ficar com ela enquanto eu dou uma voltinha, não ia ter meu pai pra ficar com ela enquanto eu durmo um pouco, não ia ter minha irmã pra fazer as brincadeiras que eu não tenho paciência. Não me lembro se nós já havíamos ficado grudadas assim por tanto tempo, sem revezamento com outras pessoas.

Não sei como funciona com as outras mães solteiras, mas comigo é: eu enfrento o que tiver que enfrentar e, depois que passa, eu xingo, desabo, grito, choro, me acabo. Foi assim que eu carreguei duas malas e uma criança que insistia em tirar um cochilo toda vez que entrava num ônibus. Na volta, dentro do aeroporto, a Alice resolveu que não queria usar mais os tênis. Ficou sapateando de meia pelo saguão enquanto a companhia aérea resolvia onde nos colocaria depois de ter cancelado nosso voo. Eu simplesmente aceitei que aquela meia ia parar no lixo e não me preocupei. Até que ela se cansou e eu tive que carregar a criaturinha de cavalinho nas minhas costas porque as poucas duas mãos que eu tenho estavam ocupadas com as malas. A cena deveria estar engraçada, já que muita gente ficou olhando. Saldo desse peso todo: dores no quadril, dores na coluna, dores de cabeça, dores no pescoço. Eu disse, não tenho mais idade pra isso. Como eu dei conta? Não faço ideia.

Éramos nós duas fazendo uma viagem que nunca havíamos feito, numa cidade que não conhecíamos. Isso me assustou um pouco. Tinha tudo pra dar errado, todos os ingredientes para que uma mãe sem dom de ser mãe falhasse miseravelmente. Mas, de um modo geral, eu posso dizer que, se fosse um jogo, eu teria conquistado um troféu. Tivemos nossos vários momentos de briga, mas nada que superasse a alegria de vê-la gritando de emoção quando a onda gelada molhou seus pés pela primeira vez, ou ouvi-la dizendo, o dia todo, mesmo agora que já voltamos pra casa, o quanto ela me ama. "Você sabe, né? Você sabe o quanto eu te amo né?". Isso não tem preço.

Em alguns momentos eu só pensava que minha mãe, se estivesse ali, me mataria. Como no dia que nós almoçamos picolé, quando eu esqueci de passar repelente nela e ela só não foi carregada pelos pernilongos por pura sorte, ou ainda o dia que eu não espalhei direito o protetor nas costas da criança e ela ficou com várias marcas brancas dos meus lindos dedos nas costas bronzeadas. Mas sobrevivemos, isso que importa.

Quando chegamos em casa, com quase 3 horas de atraso, a sensação era de esgotamento total. Eu já estava delirando de cansaço. Abri a porta e começou a tocar We Are The Champions na rádio mental, enquanto eu queria beijar o meu chão como o Papa fez, além de entoar um mantra de "não há lugar como nosso lar", como a Dorothy.

Minha televisão, meu sofá, meu computador, meu banheiro, minha cama... ah, cama maravilhosa, que saudade de você. Alice olhava em volta e só dizia: "que saudade que eu estava da nossa casinha, das nossas coisinhas". Dormimos abraçadas durante horas. Depois recebi uma mensagem da amiga carioca que me hospedou. De algum modo, eu e Alice acendemos o fogo da maternidade nela. Quase rolou uma lagriminha, sabe. Fiquei feliz por ela e também por mim porque, aparentemente, eu fiz quase tudo direitinho.

Você leu a primeira parte? Não? Tá aqui, ó

Diário de Viagem - Rio de Janeiro - As pessoas

Depois da análise dos Vinte e Seis, em que eu confessei que fazia 6 anos que eu não enterrava meus pés na areia da praia, e depois da história do Monociclo, que eu vi que já tava tão craque que podia andar de saia na bicicletinha, apenas com uma mão no guidon e a outra tampando a calcinha, tomei vergonha na cara e marquei a minha primeira viagem com a Alice. Se eu puder fazer um PS logo no início do texto eu diria que eu não tenho mais idade pra isso, pois estou cheia das dores no quadril de tanto carregar criança no colo, mala, andar e afins. Pelo menos a dor no quadril me faz esquecer a dor nas costas. Mas, voltando ao início, Rio de Janeiro, here we go.

Eu achei que já tinha sentido calor nessa vida. Até que cheguei ao Rio de Janeiro e vi água escorrendo pelo meio das minhas pernas. Podia ser xixi? Podia. Mas era suor mesmo. Me senti numa daquelas propagandas de cerveja em que a gota de suor vai contornando o corpo semi nu da modelo gostosa, mas sem a parte de estar seminua e sem a gostosa. Se as pessoas andassem nuas pela rua, eu não julgaria. Talvez até invejaria, porque apenas 2 horas depois de sair de casa eu já estava suando em bicas e fedendo.

Os biquínis das moças são minúsculos. Me senti usando uma calçola de vovó no meio de tantas bundas descobertas. E é um modelo democrático. Basta ter atitude. Mesmo que a barriga seja tão grande que cubra toda a parte da frente do modelito. As cariocas, aparentemente, tocam o foda-se para o que você está pensando delas.

Inclusive, por tocar esse foda-se é que elas não se importam se todo mundo dentro do ônibus está ouvindo você terminar com o namorado por telefone:

- VEM CÁ, VOCÊ ACHA QUE EU PRECISO DISSO? QUERO MAIS SABER DE VOCÊ NÃO! EU NÃO PERGUNTEI SE VOCÊ ACEITA, EU TÔ DIZENDO QUE ACABOU! E NÃO ME LIGA MAIS, FILHO DA PUTA!

Vocês me desculpem, mas é difícil não ouvir a conversa alheia, principalmente quando ela é tão interessante. E o transporte público parece ser o lugar em que as moças gostam de desabafar:

- Então, eu tô saindo com um cara muito gente boa. Um dia ele veio conversar comigo e contou que precisava ser sincero comigo porque não sabia que eu não gosto de mentira e não queria me magoar, que tava saindo com uma outra menina mas que não queria se afastar de mim. Poxa, olha como ele foi sincero! Se fosse qualquer um ficaria pegando as duas e não estaria nem aí. Mas esse não. Esse não é moleque, sabe. Deixou tudo bem claro. Inclusive me respeita pra caramba porque não aparece com a outra na minha frente.

[a parte ruim de ouvir conversa alheia é não poder dar palpite e avisar pra moça que, nesse caso, a outra é ela]

Deus conserve a beleza dos recursos humanos desta cidade. Me apaixonei algumas vezes só andando pelo calçadão de Copacabana. Me apaixonei até pelo Engraxate de Dummond. Carioca gosta de correr, né? E não só os sarados, os bonitos que parecem estar fazendo parte de uma cena perfeita de novela. Tem gente de toda cor, tem raça de toda fé, os grandes, os feios, os de roupa extravagante, os que correm como a Phoebe.

Motorista no Rio de Janeiro tem que ser ágil pra sobreviver. Suspeito que eles tenham um cronômetro nos carros pra conseguir disparar a buzina no milésimo de segundo após a abertura do sinal. Jesus amado, como buzinam. Motorista do Rio tem que saber também que, quando o Caxias passa, você simplesmente abre caminho, mesmo que você esteja certo, ou arrisca ficar sem um retrovisor. Ser motorista nessa que é chamada a Cidade Maravilhosa é aceitar que tudo é longe; e o que é perto, tem engarrafamento pra chegar. Tem também a junção das duas coisas. Deve ser por isso que eles aparentam ser tão impacientes.

Eu sei que não deveria, mas fazer graça com o sotaque dos cariocas é muito divertido. A impressão que eu tenho é que o carioquês dá muito mais trabalho de ser falado do que o português. Por exemplo: eu não me conformo como eles colocam letras onde não existem, tipo nascimento, que eles falam naiscimento. Gente, poxa vida, não compliquem aquilo que já é complicado. E o sotaque, em si, já prolonga as palavras mais do que o necessário, como a palavra mesmo, que se torna meeisshhhmo, ou nome da Alice, tão simples, que saiu Aliêceh.

Os problemas da cidade eu deixo por conta de quem mora lá, já que eu só comi, bebi, andei e sentei no banco do passageiro. Mas que faltou pastel na praia, ah, isso faltou.

Se quiser continuar lendo, tem a segunda parte aqui, ó

domingo, 16 de novembro de 2014

O monociclo

Eu não sei em que momento da infância eu aprendi a andar de bicicleta. Lembro que a minha primeira era rosa e que eu pentelhava muito meu pai pra que ele tirasse as rodinhas. Eu achava que não precisava delas. Meu pai, sabendo que eu ainda precisava, demorou um pouco pra me atender. Mas acho que eu pedi tanto que uma hora ele resolveu tirar. Devo ter caído bastante até aprender.

Tenho várias lembranças. Como da vez que meu pai carregou a minha bicicleta e a da minha irmã nos ombros e, por alguns segundos, eu achei que ele fosse o Superman. Era a única forma de explicar ele estar carregando bicicletas nos ombros sem qualquer dificuldade. Teve também a vez em que eu estava apostando corrida e me achava muito adulta pra usar os freios. Preferi fazer um drift. Mas, no meio do caminho tinha uma pedra. Foi assim que eu ganhei um machucado enorme no queixo. Parecia uma barba. Superei o bullying com muita maturidade dizendo: "HA HA que engraçado" pra todas as piadas.

Talvez eu tenha apenas passeado de bicicleta por um bom tempo da minha vida. Até que, num certo momento, me fizeram trocar a bicicleta por um monociclo. Cara, que desespero. Nunca soube andar de monociclo. Eu nem queria andar de monociclo! Na verdade eu estava me preparando pra comprar uma aro 26, 18 marchas. Ia conquistar o mundo em duas rodas. Mas não há certezas ou segurança em cima de uma roda só. Você apenas continua pedalando porque se parar, cai. Eu não ia querer outro machucado no queixo.

Andar de monociclo foi difícil pra cacete. Vejo gente andando por aí com desenvoltura e até fazendo uns malabarismos. Eu me pergunto como é que essas pessoas dão conta. Eu tive pessoas ao meu lado durante todo o processo de aprendizagem. Mas devia ser cansativo pra elas. Imagina, ter suas próprias bicicletas pra guiar e ainda ter que tomar conta de mim. Foi aí que eu tive a ideia de colocar umas rodinhas no monociclo, iguais as da minha primeira bicicleta. E até que deu certo. Eu não cairia pros lados, mas ainda não podia parar de pedalar.

Até que eu consegui ser bem sucedida na Missão Monociclo. Às vezes aparece alguém perguntando como eu dei conta ou pedindo dicas porque tem certeza que não vai conseguir. Eu respondo: "Olha, vai pedalando, não para. Se eu consegui, você também consegue, com certeza".

Lembro que na transição do monociclo eu tive uma bicicleta bem simples, sem marcha nem nada. E bem, vez ou outra uma ladeira aparecia no meu caminho. Era meio foda subir sozinha. Mas eu tava lá, no meu ritmo. De vez em quando aparecia alguém propondo ajuda. Mas essas pessoas não davam conta das próprias bicicletas, é claro que não iam me aguentar também. Por isso muitas ficaram pelo caminho. Ou porque pararam pra descansar, ou porque decidiram voltar pra base da ladeira. Eu não me arrependo de não ter parado porque eu ganhei experiência e pernas grossas maravilhosas que não me abandonam na hora do aperto da subida.

Hoje em dia eu ando de bicicleta elétrica. É bem confortável. A parte ruim é que ela te deixa meio mal acostumada, sabe. Não tem muita aventura. Não tem corrida, nem drift. Só que tem morro ali na frente, me encarando. Tá me chamando pra curtir uma trilha. Quem sabe até fazer umas manobras de bicicross. Depois de tanta luta desde a época do monociclo, eu acho que dou conta. Talvez esteja chegando a hora de encostar a elétrica por uns tempos e comprar aquela 18 marchas que eu queria.

domingo, 9 de novembro de 2014

Não era amor... mesmo!

Essa internet é maravilhosa, sério. Se você souber usar a ferramenta de uma forma não-burra, encontra coisas que realmente podem fazer diferença na sua vida. Tipo esse vídeo que caiu no meu colo. Normalmente eu não clico em links com chamada do tipo "Esta Monja Disse Umas Verdades Que Vão Mudar A Sua Vida" ou "Você Não Sabe O Que Vai Acontecer Depois De Ver Este Vídeo" porque é puro sensacionalismo pra atrair clicks curiosos. Eu ter clicado nesse foi destino, eu acho.

De repente, uma senhorinha de feições serenas dá uma bofetada na minha cara. E confirma a minha teoria de toda uma meia vida (teoria esta que dá título a este maravilhoso blog): talvez você nunca tenha amado. Apego não é amor. Se causa dor, não é amor.

"O apego diz: 'Eu te amo, por isso quero que você me faça feliz'. E o amor genuíno diz: 'Eu te amo, por isso quero que você seja feliz. Se isso me incluir, ótimo! Se não me incluir, eu só quero a sua felicidade"

Quantas vezes eu já não saí de um relacionamento ouvindo "Você não vai encontrar cara melhor que eu"? Quantas vezes eu, trouxa de tudo, acreditei nisso? Era amor mesmo? O irônico é que essas pessoas que se julgavam as melhores do mundo pra mim foram as que mais me fizeram sofrer, que mais me colocaram pra baixo, que me traíram, que mentiram pra mim. É lógico que isso não é amor, é cilada cilada cilada cilada! Você acha que foi amada por alguém e anos depois você descobre que a pessoa fala mal de você e deseja a sua derrota por aí. Bora colocar a mão na consciência que amor isso aí nunca foi, né.

Amor não sufoca, amor não compete em dinheiro, não compete em status social. Amor não exige nada. Já diria Chitão e Xororó: sinônimo de amor, é amar. Se vira obrigação de "nunca me deixe", não é amor, é: _ _ _ _ _ _

Pelo que eu me lembro, em apenas um término eu ouvi "eu quero que você seja feliz". E foi o mesmo término que eu desejei que a pessoa não parasse tão cedo. Não houve ameaça, não houve chantagem, não houve ninguém me seguindo nas baladas, me stalkeando e pedindo satisfação de algo que não era mais da conta da pessoa. Foi o mais dolorido. Talvez porque tenha sido o mais real.

O vídeo me deixou mais leve porque eu risquei um monte de experiências na minha vida que eu julgava que era amor, mas que na verdade era só cilada mesmo. Posso cantar com toda certeza e toda vodka que estiver disponível, Não era amooooor, não era! Não era amor era: cilada cilada cilada cilada!

Agora quando eu contar uma das ciladas pra alguém e a pessoa questionar o motivo de eu ter aguentado essas coisas eu não vou mais responder "ah, porque eu amava né". Vou simplesmente responder "porque eu era trouxa". Muito mais digno.

Ah, o vídeo!

domingo, 2 de novembro de 2014

Um banheiro pra chamar de meu

Pessoas que não fazem xixi e cocô em qualquer lugar passam por vários apertos. Eu sou uma dessas pessoas. Não me orgulho. Queria ser dessas meninas que conseguem abaixar atrás do carro e fazer xixi na angulação correta pra não molhar a calcinha nem deixar escorrer pelas pernas. E de modo tão eficiente que provavelmente ninguém tenha tempo de ver qualquer coisa. Me pouparia alguns problemas. Também deve ser legal ser homem e ter equipamento pra poder mijar dentro de uma garrafa, se for necessário.

Tipo dia desses. Estava com uns amigos na porta de uma festa e deu aquela vontadezinha de mijar. "Faz aqui no cantinho, ó", disse um amigo. Mas eu, versada na arte de segurar xixi pensei que era completamente desnecessária tamanha medida desesperada. "Vamos entrar, eu faço lá dentro". Acontece que a fila da entrada estava simplesmente enorme. "Ih, caralho" foi o que eu pensei. E, naquele momento, eu comecei a concentrar as minhas energias em não mijar na roupa.

- Caralho, eu preciso mijar.

- Calma, a gente já tá chegando.

- Eu tô calma.

- Pensa em coisas sólidas. Monte Rushmore. [hahaha eu amo meus amigos, sério]

- Se eu mijar na roupa, na porta da balada, vocês ainda vão me amar?

- [...]

Naquele momento eu já estava arrependidíssima de não ter feito no cantinho sugerido anteriormente, mas ele já não era mais opção, porque eu não conseguia andar. O que eu fazia era dar alguns passos com as pernas cruzadas com a maior força que eu tinha. As lágrimas escorriam pelo meu rosto sem que eu pudesse controlar. É claro que ter contato com qualquer coisa líquida não ajudava. Pensei em recorrer a algum santo dos desesperados pra fazer uma promessa. Mas o desespero era tanto que eu não conseguia pensar em nenhum, nem formular uma promessa. Eu não tinha condições de formular uma frase.

Passamos pela entrada e, enquanto a moça fazia o meu cadastro, eu me contorcia e chorava copiosamente. A moça do caixa perguntou se eu estava bem e eu respondi com o resto de força que me restava: "Eu preciso ir ao banheiro". Ela ficou tocada com o meu desespero e tentou fazer tudo o mais rápido o possível. Mas, nessas horas, nada é rápido. O leitor de impressões digitais resolveu que não conseguia ler a minha. Uma, duas, três vezes. Até que a moça começou ela mesma a colocar meus dedos incontáveis vezes no leitor. Deu certo.

Entrei na festa e uma força e rapidez que eu não conhecia tomaram conta de mim. A festa já estava cheia de gente e eu corria como uma maluca procurando o banheiro, já que os seguranças não sabiam informar onde ficava. Trombei com pessoas, fiz malabarismos, derrubaram bebida em mim, mas nada importava. Eu não estava raciocinando. Era apenas o instinto de sobrevivência agindo.

Em algum momento eu encontrei. Lá estava a porta do banheiro. De longe, eu via o meu amigo, que acompanhou todo o meu sofrimento na fila, me apontando o caminho da felicidade, como quem diz: "vem!". E eu fui. Corri. Entrei no banheiro derrapando no chão úmido. Entrei numa cabine que não tinha fechadura, então assim que me agachei (não se pode sentar, não se esqueçam disso) a porta abriu e eu fiquei vulnerável, naquela posição constrangedora. Mas eu liguei? Não. Eu estava feliz, aliviada. É bem possível que eu estivesse sorrindo de olhos fechados enquanto aproveitava o momento.

Saí do banheiro e meu amigo estava lá, me esperando de braços abertos, para comemorarmos a vitória. Corri, me joguei nos braços dele. Talvez ele tenha me girado. Talvez não. Era um momento tão mágico que eu não tenho certeza do que aconteceu mesmo e o que foi delírio. Mas eu sobrevivi. Sem passar (muita) vergonha.

Queria poder dizer que eu aprendi a lição, mas como eu já passei por essa situação outras vezes, não só com xixi, eu sei que, a qualquer momento, vai acontecer de novo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Vinte e seis

Aniversário é uma época de análise, né? Se não é pra você, deveria ser, eu aconselho. É bom olhar pra trás e ver como é bem provável que nada daquilo que você planejou saiu como esperado.

Volto uns cinco anos no tempo e percebo que eu sou uma pessoa bem diferente do que eu era e bem diferente do que eu imaginava que seria. A garota que queria fazer as malas e partir pra Nova York a qualquer custo deu lugar a uma mulher com casa, carro, filha, "emprego estável" e, vez em quando, uma vontade louca de ter um gato e um cachorro. A garota que não queria ter endereço, ser uma autêntica cidadã do mundo, hoje em dia tem uma caixa de correios onde as contas não param de chegar.

Aos 26 anos eu soprei as velas do meu bolo do Batman e meu único pedido foi: garota, sem decisões equivocadas daqui pra frente. Acho que já era hora. Demorei alguns anos pra perceber que era muito equivocado se deixar levar pelos sentimentos. Seja ele raiva, seja ele amor. Aquele ditado que diz que o ódio é um copo de veneno que nós tomamos esperando que o outro morra é a mais pura verdade. Ódio é veneno. Tomar porre de veneno é uma decisão equivocada.

Na autoanálise eu me assumi como uma pessoa completamente aleatória, sem medo de ser feliz. Sou dessas que sai de casa tocando guitarra imaginária com Foo Fighters e volta segurando o quadril pra não dançar arrocha no metrô. Sou dessas que curte fossa ouvindo o quarteto Só Pra Contrariar, Raça Negra, Nina Simone e Frank Sinatra. Sim, todos juntos. Uso vestido com Allstar e as pessoas olham como se fosse revolucionário (não é, gente). Sou o tipo de amiga que aconselha, briga, dá colo e começa a zoeira, tudo ao mesmo tempo. E não pode reclamar, é o pacote completo. Sou muito tímida mas não tenho medo de falar o que penso e o que sinto. Passo a maior parte do tempo dando respostas secas, de cara fechada ou fazendo piadinhas idiotas, mas sou muito chorona. Quando me fizeram surpresa de aniversário no trabalho e eu encontrei a minha mesa toda decorada com Batman, Molejo, É O Tchan e coxinha eu simplesmente caí no choro. "Ela é humana!", disseram.

Cheguei aos 26 com carinha de 16 e eu não sei se vejo vantagem nisso. É por causa da cara de novinha que eu ouço:

- Você é estagiária?

- Nossa, tão nova e já com filho!

- Esse cartão de crédito é seu?

- Estão contratando Menor Aprendiz aqui?

- Menina, você é maior de idade? Identidade, por favor.

É por causa da cara de menor de idade que os caras evitam chegar nas baladas. Ou isso ou é a cara de brava. Não sei, quem tiver uma resposta mais concreta, a caixa de comentários tá aí. Acho muito mais fácil falar que é isso do que confessar a minha inaptidão pro flerte.

Foi aos 26 que eu descobri que tem um montão de gente que me usa como exemplo e eu fiquei meio chocada, sabe. A minha vontade é dizer pra esse povo: gente, não me segue, não. Eu também tô perdida. Acordo todos os dias e tenho que repassar o dia anterior pra ter certeza que não tomei nenhuma das decisões equivocadas, que não dei nenhum passo maior que a perna. Mas, ao mesmo tempo, é um afago na alma. Gosto de poder dizer pras pessoas: ó, tá uma merda agora, mas vai ficar tudo bem, tá? Se eu dei conta você também dá. E nem é tão difícil assim. Vejo pessoas inventando certas condições ideais pra poder dar o próximo passo na vida. Só que as condições ideais vão chegar sabe quando? Não vão. É provável que você tenha que criar essas condições ou seguir a lógica do "é o que tem pra hoje". Muitas pessoas empacam no meio do caminho. Custa nada dar um passo na penumbra de vez em quando, em prol de um bem maior.

1/4 de século e mais 365 dias vividos e eu quase entrei numa briga com um cara, já bati boca com um ladrão que tentou roubar o celular de um namorado (e ele não conseguiu levar o celular), nunca bati o carro, saí da faculdade sem histórias loucas pra contar, já peguei um avião pra conhecer um cara que eu nunca tinha visto pessoalmente, passei muita vergonha alcoolizada, dei muito colo pras amigas (e recebi muito, também). Conheci pessoas incríveis. Umas estão comigo até hoje. Outras vieram pra deixar uma mensagem e eu sei que, assim como eu guardo um pouco delas em mim, elas guardam um pouco de mim nelas. Já chorei que nem criança num show do Só Pra Contrariar e do Raça Negra, já me acabei de dançar num show do É O Tchan, já paguei de tiete num show do Molejo. 26 anos e eu tenho receio de viajar de avião. 26 anos e faz uns 6, pelo menos, que não vou à praia por falta de companhia.

No final das contas, é essa bagunça toda que me fez viver bons 26 anos. E que venham os próximos.


domingo, 12 de outubro de 2014

Senta que lá vem história

Quase três anos de Cilada e eu nunca contei publicamente como este espaço surgiu, né? Pois então, chega mais.

Pé na bunda é uma coisa que, apesar de tudo, tem que empurrar a gente pra frente. Afinal, uma cilada que não gera nem aprendizado é desperdício de vida.

Eu entrei numa cilada que me deixou muito da desorientada. Sabe aquela paulada que você recebe pelas costas? Pois é. Só que eu já tinha alugado tanto o ouvido dos meus amigos com o assunto que tivemos que fazer um acordo de não falar mais sobre isso. Mas eu ainda queria falar. Juntei isso ao fato de que eu estava me sentindo enferrujada e emburrecendo porque não produzia, não escrevia. Escrever não é como andar de bicicleta, gente. É sofrido, tem que praticar, sofrer, investir.

- Preciso de um blog.

O nome do blog, pra mim, é um cartão de visitas. Se encontro um chamado "Mundo Encantado de Uma Princesinha em Apuros" eu já passo longe. Já um que chama "No fundo eu sou otimista (mas eu sempre imagino o pior)" ganha a minha simpatia automaticamente. Não ia pagar de jornalistona séria porque não sou assim e não ia colar. Alguns dias de brainstorm e ideias que me acordavam no meio da madrugada e surgiu "Não era amor, era cilada". CARA! Nome perfeito para o que eu tava passando. E o que significa? Significa que essa é minha vida, esse é meu clube. Além, é claro, de uma homenagem à banda que é melhor que Beatles.

Foi esse o post em que eu desabafei sobre a minha (ridícula) vida amorosa naquele momento. Sim, só isso. Me dei por satisfeita. E aí percebi que eu poderia usar esse espaço pra falar sobre coisas melhores, né? Foi assim que eu me diverti escrevendo o post em que eu conto sobre o medo de pato, sobre a minha "primeira vez", falei de infância, de maternidade. Falei de coisa séria, como o Estatuto do Nascituro e toda aquela treta com a Crescer. Desabafei, amadureci. E continuo aqui vivendo. Recebi muitos desejos de "mais amor e menos cilada na sua vida" no meu aniversário e olha, eu também espero muito isso. Vamos aguardar.

Então, se você curte o que eu escrevo por aqui, independente do motivo ou da temática, você deve agradecer ao cara que dizia que queria ficar comigo, ser um homem digno pra mim mas estava saindo com mais duas garotas. Tudo bem que eu não falo mais com ele, que ele pode ter mudado ou que nem se lembra mais de mim. Mas o pontapé pra iniciar tudo isso veio dali. Valeu, cara!

Este post faz parte da blogagem coletiva do Rotaroots um grupo das interwebs empenhado em manter a blogosfera marota, blogosfera de raiz. Vem brincar com a gente, ó!
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