sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ser mãe não me completa

08:50 0 Comments


Ser mãe não me completa. Eu já era um ser humano inteiro antes da maternidade me pegar de surpresa e me dar um sacode. Eu já era uma mulher cheia de sonhos e objetivos antes de ser mãe. Odeio esse papo de filho trazer, enfim, um significado para a vida de alguém, como se antes estivesse faltando um pedaço, ou um motivo para existir. Ser e existir já é um grande objetivo.

Essa noite eu cutuquei uma espinha no meio da testa e saiu sangue. Minha filha prontamente levantou da cama, avaliou o local com cuidado, foi até a caixinha de curativos e buscou um band aid do Batman. Com toda a delicadeza que as mãos de uma criança de seis anos pode ter, ela colocou o band aid na minha testa, passou os dedos e finalizou com um beijo. O fato de eu não querer tirar esse curativo feito por ela me mostra que a maternidade não me completa: ela me transborda.

A maternidade me transborda quando a minha filha me reconhece como um lugar seguro. Quando ela me espera chegar do trabalho, quando pede pra não sair naquele dia porque ela só quer ficar em casa comigo vendo TV e comendo coisas sem qualquer valor nutricional. Me transborda quando eu chego em casa e tem um bilhete "i lov yu" me esperando. Ser mãe me transborda porque todos os dias eu tenho que melhorar minhas estruturas pra receber tudo que a maternidade me traz, e mesmo assim, não cabe tudo.

Mas a maternidade me transborda também como se fosse uma fralda cheia de cocô. Daquele que vaza e mancha a roupa nova, que sobe até as costas. Me transborda quando ela me espera pra fazer o dever de casa porque, naquele momento, eu já não tenho um neurônio que possa ser usado e mesmo assim eu tenho que ajudá-la a fazer um robô com sucatas que eu tenho que inventar, como as caixas dos meus sapatos ou a caixa dos ovos que ainda está na geladeira.

A maternidade me transborda quando não me dá direito a uma noite tranquila de sono, já que eu preciso estar sempre alerta se algo acontecer. E assim a maternidade é capaz de transbordar de culpa quando você passa a precisar de remédios para dormir e ter o mínimo de sanidade.

Ser mãe me transborda de responsabilidades que não chegam ao fim. Não basta levar a minha vida, eu tenho que cuidar da vida de outro ser humano. Parece simples, até você se tocar que ele morre se você não cuidar direito.

A maternidade me transborda com choros, sangue, catarro, vômitos e diarreias que eu não tenho vocação pra cuidar, mas que eu tenho que fazer mesmo assim. Me transborda de força quando a cria está cansada, quer dormir e vocês não estão em casa ainda. É preciso força física para segurar aquele corpinho por algumas horas junto ao seu e às vezes, força emocional para segurar seu próprio cansaço.

Eu me transbordo em crises de ansiedade quando eu tenho que lidar com uma manha ou malcriação por parte dela. Me transbordo porque não me sinto apta a lidar com aquela situação, mas tenho que lidar mesmo assim. Me transbordo com as contas que não param de chegar. Com as roupas que não param de encolher. Com as cobranças que não param de se acumular nos meus ombros.

A parte boa é que transbordar de amor é o que faz a experiência toda valer a pena. Sorrir com o canto da boca cheio de ketchup, receber uma videochamada porque a pessoinha está com saudades, dormir abraçadas como "duas salsichinhas" em que nós somos as salsichas e a coberta, o pão. É, mesmo depois de uma briga, ouvir "eu te amo mais do que tudo nessa vida" (essa é uma atitude dela, eu não tenho maturidade para brigar e dizer que amo logo depois). É ver um ser humano crescer usando você como exemplo, como molde. É ganhar um beijo na ponta do nariz antes de entrar na sala de aula.

Toda a experiência transborda. A maternidade me transborda talvez porque ela já não coubesse em mim. Não havia espaço planejado para ela, mas aqui estamos, eu e ela.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Tia Sol, tem dó de mim

10:36 0 Comments


Ontem foi um dia considerado "sucesso" na minha rotina. Eu acordei cedo. Fui para o Pilates (isso quer dizer que tive ali 40 minutos só com foco em mim), fiz compras do mês, arrumei a cria na hora certa, deixei na escola na hora certa, cheguei no trabalho na hora certa, dei vários "ok" na minha lista de afazeres. O cabelo estava lindo, eu estava me sentindo bonita, estava bem humorada.

Até que voltei pra casa.

Alice, que me esperava há horas, como faz todos os dias, não tinha feito o dever de casa. Ou o "prazer de casa", como a tia Sol da escola gosta de chamar. Era de matemática. Era pra Alice, que está sendo alfabetizada, escrever os números de 1 a 100. A Tia Sol, meus amigos, não está pra brincadeira. A tia Sol não tem dó de mim.

Eu odeio os deveres de casa da Alice porque eles acabam sendo deveres pra mim também. Eu não quero fazer dever de casa. Eu fiz os meus, 20 anos atrás. Eu tenho outros deveres de casa agora, chamam lavar louça, arrumar a sala, catar brinquedo pela sala.

Alice também não gosta de fazer dever de casa. Aliás, escrever de 1 até 100 numa folha de papel não é das tarefas mais animadoras.

- Eu posso escrever o 1, colocar um tracinho e depois o 100?
- Não, Alice, não pode. Você tem que escrever todos os números.

Lá foi ela, com lápis e borracha em mãos. Do 1 ao 20 ela foi rápida e me fez criar expectativas antes da hora. Depois, do 20 ao 30, foram dez minutos entre reclamações e vontade de ir ao banheiro, sede, mais reclamação, cansaço de escrever, críticas ao lápis.

No 35 o peso do dia bateu. Eu não tinha qualquer sanidade para acompanhar minha filha no dever de casa. Eram 23h. Essa é a hora que eu chego do trabalho. Mas eu não podia dizer que não queria fazer.

Aí eu lembrei do que a minha psicóloga questionou: "Você nunca tem tempo pra você? Você não tem tempo de ócio? Esse tempo é extremamente necessário para o ser humano".

- Você precisa se organizar.

Essa é a frase que eu mais ouço das pessoas. E a que eu mais incorporei nas minhas metas de vida. Porque parece certa. Se eu me organizar, eu vou conseguir fazer tudo que eu preciso. Mas ontem, eu ocupei todas as horas do meu dia de forma organizada. Eu fui uma boa mãe e boa profissional das 7 da manhã às 11 da noite.

Não é só me organizar. O peso continua sendo muito grande.

Lá pelos 50 ela desacreditou da própria capacidade. Achou que não ia conseguir, que não ia dar conta. Segundos antes eu pensei em deixar ela sozinha terminando e tirar um cochilo no sofá. Mas aí percebi que se eu não ficasse ali, monitorando e incentivando, como uma líder de torcida, ela não faria.

- É claro que você dá conta! Isso aí é molezinha pra você. Você conhece todos os números, é só continuar. Não para. Por favor, não para.

Eu revisava o meu dia mentalmente pra descobrir onde eu teria errado. Não achei. Passei do cansaço para a raiva de quem tá muito cansada. Fiz planos de largar Alice uma semana na casa do pai, mas eu não sei nem dizer se ela seria levada pra escola todos os dias.

Quando ela chegou nos 70 eu percebi que ela tinha feito o 7 para o lado errado.

- Alice, o 7 tá pro lado errado.
- Ai mas será que TODOS os meus setes estão errados?

A preocupação dela me fez rir. Não só rir. Eu gargalhei de perder o ar, como quem perde o controle da própria vida. Eu ri sem conseguir parar e ela riu comigo porque provavelmente eu estava com cara de doida. Eu ri até deixar escapar uma lágrima no canto do olho. Era o sinal da exaustão.

Olhei todos os setes e vi que, Graças a Deus, era só aquele que estava escrito errado.

- Vai Alice, continua. Tá acabando.
- Não vai acabar nunca
- Vai sim, é só até o 100, não é infinito.

Cada número era escrito com mais dificuldade e eu sempre mandando ela continuar porque não sabia mais o que fazer.

Nem eu acreditava mais que um dia o 100 chegaria, mas ele chegou. Eu gritei um OBRIGADA, SENHOR! com todo alívio que eu senti no meu coração. Ela dançou ao som de uma música que ela mesma fez na hora, que só tinha uma palavra: LIBERDADE.

Fui dormir com aquele choro de cansaço preso. Acordei com o despertador e com enxaqueca. Graças a Deus é sexta-feira. Que Oxalá me dê forças. Que ninguém caia em grampo da Polícia Federal. Que ninguém peça demissão. Que a gasolina não aumente. Que a internet colabore. Amém.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

No médico

19:36 0 Comments


Não deveria, mas eu não sou sincera como deveria com médicos.

- Você come verduras e legumes regularmente?
- Sim (lembrando do hambúrguer que comeu na noite passada, com alface, tomate, picles, definitivamente verduras.

- Quantos litros de água você bebe por dia?
- Um litro, mais ou menos, eu acho... por aí (sem lembrar a última vez que havia bebido água no dia)

- Fuma?
- Não. (isso vale quantos pontos?)

- Você bebe?
- ...

Eu deveria ser sincera? Dizer algo como: "então, eu não bebo todo dia. Mas sabe como é, né. Trabalho, filhos, trânsito, as contas pra pagar. Quando chega na sexta-feira a gente quer relaxar, né, doutora. E depois daquele plantão no fim de semana, então? É tradição. Às vezes na quarta-feira também porque a semana é longa e eu preciso de uma pausa. Mas não nas segundas, Nas segundas os bares fecham e os garçons folgam. Se bem que tem aquele bar perto de casa que abre nas segundas e fecha nas terças... Mas não foram tantas vezes. Pergunta lá pro Francisco, o garçom que sempre me atende. Mas eu não bebo whisky. Nem cachaça, Tenho os meus princípios. Também não bebo cerveja preta. Mas se eu bebo? Às vezes o coração dói, né, doutora, e aí a gente bebe um pouquinho pra afogar as mágoas. E aí todo fim de semana tem um aniversário pra ir, uma taça aqui, outra acolá... O cara da adega onde eu compro vinho deve achar que eu bebo pouco porque sempre pede pra eu levar mais um. Inclusive estou evitando voltar lá porque ele pediu a minha opinião num vinho e eu não fui culta o suficiente pra anotar as minhas observações e não quero dar o braço a torcer. Tem a cerveja, doutora, É um perigo, Quando a gente vê já tá lá batucando na mesa e rindo sem motivo. Teve a vez também que eu bebi um mojito e perdi os documentos, a chave de casa, o cartão de crédito e a dignidade. Tequila eu evito tomar porque ainda é um mistério o que aquele líquido pode fazer com a mente humana...

- Eu posso marcar aqui "socialmente?
- Isso, socialmente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Tinha que ter avisado

14:18 0 Comments


Dia desses a Alice colou as mãos com Super Bonder. Não foi nada desastroso, se pensar em tudo que podia ter acontecido, como ela colar a mão na cara, mas foram necessárias duas horas pra tirar toda a cola.

- Você tinha que ter avisado.
- Eu mandei você não mexer, por que desobedeceu?
- Você falou, mas não avisou que era ISSO que ia acontecer - disse ela, com as mãozinhas com os dedinhos colados bem próximos ao meu rosto. Não foi eu quem ensinou essa menina a ser dramática desse jeito.

Dizer "não mexe" não foi suficiente. Eu tinha que ter avisado.

Dias depois ela caiu da cama. Eu tinha pedido pra ela sair da beirada e ela se mexeu cerca de um milímetro pra dentro da cama. Minutos depois eu pude acompanhar a cena em câmera lenta. Ela foi virando e eu esticando meus braços numa vã tentativa de segurar aquele corpinho que ia de encontro ao chão. Ela caiu de cabeça.

Enquanto a cria chorava, eu tentava me livrar da culpa.

- Eu pedi pra você sair da beirada da cama.
- Eu tava dormindo, como eu ia ver?

Eu tinha que ter avisado.

Depois desse acontecimento eu fiquei me perguntando até quando eu teria que avisar as coisas, até quando eu teria que dar spoilers da vida dela e quando os erros dela serão apenas dela, e não mais meus.

Educar uma criança é abdicar das suas próprias vontades em prol do outro. A criança a gente educa pro mundo, não pra gente. Eu poderia alimentá-la de biscoito recheado em todas as refeições. Ela adoraria. Mas a coitada ia ficar podre por dentro e cheias de problemas de saúde só porque a madame aqui tem preguiça de cozinhar.

Ou ainda, imagina o desgosto de colocar no mundo aquela criatura que não sabe ouvir um "não" e por isso toca o terror na vida dos outros.

Não é por mim, é por vocês.

Dar ordens e deixar ela descobrir o que fazer é confuso pra mim, e deve ser pra ela também.

É deixar ela não almoçar, se não quiser, pra aprender que vai ficar com fome se não comer na hora certa, mas também exercer o poder enviado dos Céus chamado "Porque Eu Tô Mandando" caso ela teime em não querer dormir na hora porque quer ficar jogando ou vendo vídeos.

Por que não obrigar a comer e deixar dormir na hora que quiser? Sei lá, eu também não sou perfeita, não dou conta de tudo. Escolhi as minhas batalhas. Ter filho é que nem aquela música "Love is a battlefield":

"Nós somos jovens, dor de cabeça à dor de cabeça nos ficamos
Sem promessas, sem demandas
O amor é um campo de batalha"
Alguém tinha que ter avisado.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O cara do carro

12:08 0 Comments
Tava eu dando uma voltinha pelo Tinder quando encontrei um rosto familiar. "Cacete, de onde eu conheço esse cara?". Se ele tivesse colocado uma foto da bunda eu poderia ter lembrado mais rápido que ele era o "cara do carro".

Eu, meu namorado na época, a amiga dele, o namorado dela. Uma saída de casal pra uma boate que tocava música latina. O meu namorado e a amiga sempre se deram muito bem e a conversa era tranquila. O namorado dela falava coisas estranhas. E eu já era eu, né. Então era a pessoa estranha que observava, apenas.

O álcool fez efeito e todos nós ficamos mais sociáveis. Rimos, dançamos. Até que tava ficando divertido. O casal sumiu e eu fiquei com meu boy sorrindo e aproveitando aquele momento sem briga. Até aquele momento.

- Ei, vai lá fora ver se tá tudo bem com o carro?
- Ué, tá doido? Vai você.
- Os seguranças não vão me deixar passar. Vai lá, rapidão.

Eu fui. Xingando, Me perguntando por que diabos aquele cuzão queria que eu fosse "dar uma olhada" no carro dele.

Até que eu cheguei no estacionamento e não encontrei o carro. E aí eu fiquei de perna bamba. Porque né, caralho, roubaram o carro do meu namorado. Rodei o estacionamento atrás daquele Pálio fi duma égua e nada. Até que, lá no fundo do estacionamento, no escuro, eu vi as luzes de freio de um Pálio acesas. Era ele. Me enchi de ódio e fui lá atrás do otário. Eu via a sombra dele dentro do carro. Eu queria quebrar o bicho na porrada. No meio do caminho a consciência me chamou. Ele podia estar armado. E aí eu comecei a ficar desesperada. Voltei correndo, de salto, nervosa e com as pernas bambas pra boate.

As pessoas que estavam vendendo cachorro quente na entrada viram o meu nervosismo.

- Moça, tá tudo bem?
- Moço, liga pra polícia, roubaram o carro do meu namorado, O ladrão tá lá dentro ainda. Me ajuda!
- Ele tá dentro do carro ainda? Peraí que a gente vai resolver.

Então a gangue dos donos de carrocinha de cachorro quente, churrasquinho e afins se juntou a mim na caçada ao ladrão, munidos de cabos de vassoura e faca de cortar pão. Se fosse em câmera lenta pareceria a cena de um filme que faz sátira dos filmes de ação.

Chegamos perto do carro. O cara do cabo de vassoura bateu no vidro. E aí, em vez de um ladrão, uma bunda branca surgiu no vidro. No banco, o rosto assustado de uma mulher.

- Moça, isso aí não é ladrão não.....
- Meu deus do céu. Gente, eu já sei quem são. Obrigada por me ajudarem, Não é ladrão, vambora daqui.

Era o casal que tinha vindo com a gente. Eles estavam transando no carro do meu namorado. Pior: era a primeira vez deles como casal e a primeira vez dela na vida. Eu levei uma comitiva de donos de barraquinha de comida pra acompanhar o ato. Eu vi a bunda do namorado dela. Nem eu transava no carro do meu namorado. Pois eu voltei puta pra dentro da boate.

- Como você não me avisou que eles estavam lá dentro?

E o namorado sem entender o que tava rolando. Quando eu contei a história do circo que eu armei ele perdeu o ar de tanto rir e foi lá fora ver o que tinha acontecido. O casal não voltou. Aliás, eu nunca mais vi o casal. Uns quase 10 anos depois eu vi o "cara do carro" no Tinder e dei boas risadas relembrando dessa história. Pensei em dar um match só pra ver se ele também lembrava. Mas aí eu lembrei que ele largou a camisinha usada no carro do meu namorado. Eca.


domingo, 15 de janeiro de 2017

Mãe jovem, filha adulta

00:48 0 Comments
- Mamãe, eu quero ir embora.
- Tá bom, a gente já vai. Dá só uma encostadinha aqui.
- Eu não vou dormir aqui, mamãe
- Não, não é pra dormir, é só pra dar uma descansadinha pra gente ir pra casa depois.
- Tá bom.

Não era só uma descansadinha. Era uma mãe bêbada e cansada de ter trabalhado a semana inteira e que não conseguiria voltar pra casa naquele momento. O que era uma noite pra juntar as crias se tornou uma agradável noite em que as crianças brincavam e as mulheres secavam três garrafas de vinho.

Eu sempre me perguntei qual seria a influência da minha idade e da minha falta de maturidade na criação da Alice. Eu sou a mãe que aparece toda bagunçada pra deixar a filha na escola e não se importa com isso. A mãe que aparece com cara de ressaca e de óculos escuros na reunião de pais. A mãe que chega na escola chupando geladinho com a filha e dá um sorriso azul pra professora. A mãe que compra um carrinho de controle remoto pra ela mesma poder participar da brincadeira da filha. A mãe que enche a cara em locais seguros para a filha e depois dorme com ela num canto. A mãe que toma Yakult da filha pra curar ressaca. A que lê livros de adulto em voz alta pra filha ficar entediada e dormir mais rápido.

- Mamãe, você me enganou! Você falou que era só uma descansadinha! O dia já tá claro!
- Eu sei, eu sei, mas eu tô descansando ainda, dorme mais um pouco.
- Ai, quanta preguiça.

Aí eu estava contando toda essa história pra uma amiga do trabalho e ela me contou que já passou muito por isso. Ela nasceu quando a mãe tinha 15 anos. De acordo com a minha amiga, a mãe dela dizia que não ia deixar de sair por causa dela e levava ela junto pros pagodes. Me identifiquei. Ela contou também que ficou muito brava com a mãe porque queria uma “mãe normal”, como as outras. Depois de adulta ela teve uma conversa com a mãe e pediu desculpas, pois hoje ela entendia o que a mãe tava passando. Não por ter uma filha, mas por ser uma mulher adulta agora e saber que aquele modelo de mãe ideal e também de mulher adulta é muito difícil de ser seguido.

A Alice me dá muitas broncas. A coitada quase sempre tem razão. Ela briga comigo porque eu esqueço das coisas. E ela tem um jeito todo especial de fazer isso, que é botando uma mão na cintura, a outra apontando pra mim e me chamando de “senhora”. É a única hora que ela me chama assim.

Mas depois que a minha amiga falou que conseguiu perdoar a mãe por ser “jovem”, eu percebi que ainda tenho esperanças, que nem tudo está perdido. Os danos não são permanentes. As crianças sobrevivem a mães às vezes ébrias e quase sempre sem maturidade.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Segura na mão de deus e vai

15:19 0 Comments
Eu sempre fui uma pessoa prática. "Que setembro me traga..." Não. Setembro não é transportadora. É só um mês. "Que amanhã seja..." Amanhã vai ser a mesma bosta de dia porque, convenhamos, se eu não mudar, nada muda. Mas com 2016 foi diferente, Eu precisei acreditar que o ano que viria poderia me trazer coisas novas e boas, já que o ano que passou trouxe coisas que eu não pedi, contra as quais eu pouco pude fazer algo.

Então me dei o prazo. Deixei tudo de ruim que poderia acontecer, porque em 2017 as coisas seriam diferentes. Eu não sei como, eu só sentia. 2016 foi amargo, mas em 2017 eu podia sentir o amargor indo embora e a boca com gosto de hortelã que fica depois de escovar os dentes. Aí eu me armei de todas as possibilidades. Fiz planos, olhei diversos horóscopos e previsões. Todos diziam que o ano não seria fácil, mas havia algo de positivo ali no meio.

Chegado réveillon, eu estava vestida com roupas brancas e novas e o coração aberto para toda a felicidade e energia que rondavam aquela passagem pudessem entrar. Entraram muitas taças de espumante também.

Então eu fechei os olhos e pensei em todos aqueles que eu poderia pedir ajuda.

- Jesus, segura nossa onda.
- Oxum, toma conta do meu coração.
- Entidade de luz responsável por trazer dinheiro e prosperidade, estou carregando moedas no meus bolsos e deixei dinheiro carteira, como disseram que funciona.
- Seu Mangueira, tamo junto.
- Aos deuses responsáveis pelo gerenciamento do carma, eu peço encarecidamente uma folga do meu para que eu possa lidar com outras coisas, pelo menos por um tempo.
- Feliz ano novo, pai.
- Seja doce, 2017.

Quando os fogos da meia noite começaram a explodir, era como se algo em mim estivesse explodindo também e eu comecei a chorar. Era um choro de alívio. Algo de pesado estava saindo das minhas costas, eu juro que eu senti. Foi só comigo?

Pode ser que 2 0 1 7 sejam só um número. Que ele não vai me trazer nada, que não vai ouvir os meus pedidos. Mas que eu sinto algo que eu não senti ano passado, isso eu tenho certeza. Eu vesti branco porque queria paz de espírito. Parece que alguém me ouviu.